Carlos Drummond, Robert Frost, pedras, caminhos… e conselhos

Em seu poema  “The Road not Taken” (1920), o poeta americano Robert Frost escreveu:

.

Duas estradas divergiam em um bosque em setembro
E lamentando não poder seguir em ambas vias
E sendo o único viajante, durante muito tempo me lembro
olhei para uma tão longe quanto eu conseguia
até onde ela dobrava na descida e sumia

Então peguei a outra, parecia boa e vasta
e fosse talvez a mais atraente
pois estava coberta de grama precisando ser gasta
embora aqueles que passaram na frente
tivessem gasto ambas quase igualmente (…)

Devo estar contando isso com a alma cortada
Em algum lugar, há uma distância de tempo imensa:
divergiam em um bosque duas estradas
e eu escolhi a menos viajada
e esta escolha fez toda a diferença.

Hmmm… o nosso Carlos Drummond de Andrade, em 1928, publicou:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra.
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

.

Bem, na década em que Frost e Drummond escreveram seus poemas, não havia nada que se parecesse com a moderna categoria “literária” chamada “auto-ajuda”. Dale Carnegie, o autor americano que parece ter iniciado a praga, só escreveu “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” quase dez anos mais tarde, em 1936. Bons tempos. Embora Drummond fosse atacado e criticado na época da publicação de “No Meio do Caminho”, o tema da poesia não estava em questão, e sim a forma (considerada moderna demais para os liristas).

Ocorre que, hoje em dia, tanto o poema de Frost quanto o de Drummond são surrupiados pelos mais descarados gurus de realização pessoal, seus versos são pinçados em slides brilhantes de power point e reduzidos ao que possuem de mais primitivo, quando não transformados em simples conselhos do tipo: “aceite as consequências de suas escolhas” ou  “problemas vão acontecer em sua vida, enfrente-os”.

Dar “conselhos” pode ter sido um dos primeiros fatores a motivar o homem a escrever literatura (veja-se nos relatos biblicos, na Ilíada e na Odisséia…) mas a arte de mimetizá-los na beleza das palavras, no enredo,  nos personagens, no contexto, é que criou a literatura propriamente dita, como arte e não como sermão. Afinal, também pode-se traçar as origens da aventura literária humana nas fábulas dos contadores de história primitivos.

O leitor ou ouvinte que é forçado a compreender os sentidos ocultos de uma narrativa (até aqueles que não foram pretendidos por seu autor) certamente tem um ganho maior e mais impactante do que aquele que recebe uma ordem direta… quanto mais não seja, ao menos na apreciação da beleza, da estética formal de uma obra literária (um eventual significado pode surgir muito depois, no momento preciso).


Eu mesmo li “No meio do caminho” nos primeiros anos de infância, por puro acaso… e mesmo sem entender que diabo de pedra era aquela, achei o som do poema engraçado – quase uma parlenda. Muitos anos depois, ele veio a representar algo diferente… e outros tantos anos depois, algo ainda mais marcante.

Não há nada de errado em dar “conselhos”. Todos somos tentados a dar “conselhos”, quer seja pela compaixão dos experientes, quer pelo orgulho dos que consideram ter algo a ensinar. Até mesmo num blog pecamos assim… mas guardo algo que ouvi de um profissional de saúde mental, certa vez: disse-me ele que não lhe cabia – e ele evitava a todo custo – dar conselhos diretos a seus pacientes. “Faça isso, aja assim, seja assado…”. Ao invés disso, explicou-me que o eticamente aceitável em sua profissão era induzir o paciente a enxergar as alternativas de conduta por si só.

Talvez a literatura, tal como chegou até o século XX, prezasse também destes pruridos éticos. Mas a pressa e a ânsia de degustar o já mastigado criou a sub-categoria da “auto-ajuda”, uma aberração teratológica que, infelizmente, ultrapassou suas antecessoras nas listas dos “mais vendidos”.

OK, para aqueles que apreciam e se beneficiam da “auto-ajuda”, resta-me aceitar e tolerar. Não vou considerar-me um ser humano melhor por preferir a “literatura” na verdadeira acepção do termo (embora a tentação, vá lá, exista…). A alma humana às vezes é muito mais bela em mentes menos complexas, e alguns gênios literários são seres humanos detestáveis. Mas preciso lembrar Frost… tomar a estrada menos óbvia pode fazer uma grande diferença.

Enfim, prefiro defender os conselhos “à la Frost”, nas estradas menos óbvias. E também precisamos defender as pedras no caminho do Drummond… ele não consegue mais nem defender seus óculos, coitado!

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6 respostas para Carlos Drummond, Robert Frost, pedras, caminhos… e conselhos

  1. Cris disse:

    Arlei, acho que a literatura na acepção que vc fala e gosta, como vc mesmo citou, é escassa. E bem mais escassa em nosso país. Ainda. Quem sabe…

    Quanto as “pinçadas” de trechos “roubados” aqui e ali de Drummond entre tantos, não acho ruim. Muitas pessoas que nunca imaginaram ler esse nome ou uma frase qualquer do poema que vc transcreveu em seu post, acabam deparando-se com obras fantásticas por puro acaso de blogs, facebooks, twitters e vai saber mais o que desse mundo virtual. Os dois lados da moeda é importantíssimo ser visto e recebido.

    Quando eu tinha quinze anos meu avô encadernou um livro chamado “O Egípcio” de Mika Waltari. Chamou minha atenção o tamanho do livro. Mais páginas que a bíblia….rs Meu avô me disse: é uma história linda e cheia de surpresas. Pedi que me contasse. Ele olhou pra mim, pegou o livro e respondeu: Leia e surpreenda-se!
    Eu o li em menos de uma semana e amei.

    Algumas pessoas não possuem estímulo, condições, tempo embora haja uma vontade imensa de “entrarem” dentro de páginas e surpreenderem-se . Vc é um cara privilegiado. Pode ter certeza. Desde cedo, desde garotinho vem aguçando todo seu conhecimento literário e alimentando a sua fome cada vez mais voraz( é fácil notar) por essa viagem fantástica que é a leitura.

    Não sou uma leitora como vc , mas não necessito encontrar frases na internet para conhecer gênios da palavra. Vou até meus livros….rs Contudo, acho gostoso ver aqui e ali pincelado Drummond, Lispector, Shakespeare e por ai vai !

    Sempre há uma pedra no caminho!

    Beijos.

  2. Cris disse:

    Arlei, comentei seu post às dezenove horas. Quase meia-noite recebi este email e pensei: tenho que colocar isto para o Arlei. Poesia, intelectualidade e muito humor na vida!
    Eis o email:

    Na sala de aula, com seus alunos, o professor estava analisando aquele famoso poema de Carlos Drummond de Andrade:
    “No meio do caminho tinha uma pedra.
    Tinha uma pedra no meio do caminho.
    E eu nunca me esquecerei
    Que no meio do caminho tinha uma pedra
    Tinha uma pedra no meio do caminho.”

    Depois de ter explicado exaustivamente, que ao analisarmos um poema, podemos detectar as características da personalidade do autor, implícitas no texto, o professor pergunta:

    Joãozinho, qual a característica da personalidade de Carlos Drummond de Andrade que você pode perceber neste poema?

    – Professor, das duas uma: ou ele era traficante ou era usuário!!!

    rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs A vida tem mil faces e isso é que a torna incrível!

    É uma piada, mas…poderia ser a resposta de um Joãozinho da vida !

  3. NADIA CRUZ disse:

    Arlei
    Sempre encontramos uma pedra, no caminho, né?! rs
    Também não curto livros de auto-ajuda, mas algumas citações sim, pois popularizam autores que a grande maioria nem saberia quem é…
    Posso dar como exemplo Fernando Pessoa. Conversando com um funcionário do prédio onde moro, ele falou sobre Pessoa. Quis saber quem tinha indicado o poeta, e ele simplesmente respondeu que lia nas mensagens do Orkut, gostou e comprou um livro de poesias de Fernando Pessoa.
    Então, vejo por esse lado…
    Abração!
    Nádia

  4. Fabiane disse:

    Parabéns pelo texto! O bom nas tuas citações é que são dos próprios autores referenciados. O perigo que vejo em alguns textos que circulam pela Internet é a falsa autoria. E o mais surpreendente é que, por vezes, amigos e colegas “mais informados” acabam repassando e citando frases que não cabem no estilo de autores como Clarice Lispector, Mário Quintana, dentre outros. Abraço!

  5. Glória disse:

    Arlei,
    concordo contigo, com Fabiane e vou além: os livros de auto-ajuda prestam-se, na maior parte das vezes, a impor um tipo de alegria permanente ou felicidade, como se a tristeza fosse uma praga a ser exterminada. Acho os momentos de silêncio, insegurança, fragilidade e tristeza tão importantes quanto os de alegria. Agora, caso esses momentos se tornem insuportavelmente repetitivos, aí sim, é caso de apelar-se para a ajuda da psicanálise ou da psiquiatria. Outra coisa, o que seria da arte e dos gênios (mesmo quando pessoas nocivas), se fôssemos continuamente felizes ou alegres? Um tédio!
    Muito bom o teu blog. Parabéns!

  6. ilberto disse:

    Cumpadre Arlei – Aos poucos estou lendo todas as tuas publicações. Essa particularmente me chamou a atenção com relação a “dar conselhos”. Estou lendo ultimamente Carl Rogers e confesso que estou…. apaixonado pelo cara. Boiolices a parte, mas a Teoria Rogeriana não diretiva e a Questão da Congruência são formas que ele tratava os pacientes.
    Os relatos de Rogers são baseados no tratamento e “andamento” dos pacientes que ele tratava.
    O vivente também era educador e nos dois âmbitos, da psicologia e da educação os “conselhos” estavam fora de questão. Saber ouvir os problemas de alguém mantendo unicamente neutralidade e a Congruência o tornam-no especial.
    “Congruência é a harmonia de uma coisa com o fim a que se destina. Não é simplesmente uma atitude formal de um momento, mas representa toda a vivência, uma vida com um sentido bem profundo” C Rogers.
    Feito !!!!

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