Noites sem sentido…

Dizia uma daquelas lendas da música pop que o casal Paul e Linda McCartney, durante toda sua convivência (de 1969 até a morte de Linda em 1998) havia permanecido apenas uma única noite separados um do outro. Muito provavelmente folclore (tanto quanto a ridícula polêmica sobre a morte de Paul), a lenda contudo tem ecos na canção No More Lonely Nights, escrita por McCartney:

May I never miss the thrill of being near you
And if it takes a couple of years
To turn your tears to laughter
I will do what I feel to be right
No more lonely nights
Never be another
No more lonely nights
Youre my guiding light
Day or night Im always there
And I wont go away until you tell me so
No I’ll never go away
 

Dormir acompanhado pode parecer um eco ancestral, um instinto atávico de proteção que vem do DNA de nossos antepassados das cavernas (afinal, um grande grupo dormia mais seguro que um único australopiteco dando sopa para os predadores), mas desconfio que haja mais que isso. Afinal, mesmo na segurança de nossos apartamentos/fortaleza, e na ausência de qualquer vantagem em ter um cônjuge sonolento ao lado se um ladrão ousar aparecer, muitos de nós não negam o deleite de dormir ao lado de uma boa companhia.

Talvez nem sempre tenha sido assim. Claro, os pobres de qualquer época da humanidade estavam sempre próximos pela exigüidade do espaço… mas os reis e nobres, em especial os de tradição anglo saxônica, costumavam ter suas alcovas reservadas apenas para o sono e as obrigações maritais (ou variações), enquanto as consortes dormiam em seus próprios aposentos. Quando criança ainda, ao ler os primeiros romances de Agatha Christie, ficava intrigado ao saber que os lordes ingleses não tinham quarto de casal, e sim o quarto de Mr. Denwey separado de Ms. Denwey, e etc. Bom, talvez por suportarem tantas convenções sociais gélidas é que os personagens de Christie acabassem se matando tanto…

Mas, nos dias atuais, a cama de casal é o item primordial na mobília dos recém casados, e não obstante a procura por modelos cada vez maiores, é difícil encontrar quem negue a pretensão de dormir o mais aconchegado possível (quando o sentimento é verdadeiro e não o ranço que acomete alguns depois de anos de relacionamentos mal construídos). Expressões populares como dormir de conchinha ou empernado retratam na pitoresca linguagem do povo a delícia que é descansar ao lado de quem se ama.

Há poucas coisas que deixam o ser humano mais próximo de entender o conceito de paz do que sentir alguém muito querido adormecer em seus braços. Particularmente, a sensação da cabeça da mulher amada repousando sobre o peito, mergulhando pouco a pouco de modo tranqüilo e satisfeito no mundo dos sonhos é indescritível.

Temos de nosso, exclusivamente, o corpo que segue nossos trancos e barrancos desde o nascimento. Como diz o adágio popular, sozinhos nascemos e sozinhos morreremos… mas dormir com a pessoa amada cria uma magia, faz um truque acontecer, dá a ilusão quase perfeita de que às vezes podemos superar esta maldição e dividir a busca de sentido da vida com aqueles braços, aquelas pernas, aquela respiração que pulsa ao nosso lado.

Somos todos insignificantes enquanto membros da espécie. Dentre bilhões, pouca coisa nos destaca na multidão, e mesmo isso um dia deixará de ter importância, porque nossos dias se acabarão como os de todos os demais. A busca por sentido é uma grande angústia que traz ansiedade e desconforto a milhões de homens e mulheres no mundo. Não há uma resposta a esta pergunta, exceto a tentativa do personagem de Cronshaw do Somerset Maugham (ver o post https://polifonias.wordpress.com/2010/12/04/ja-errou-demais-na-vida-compre-um-tapete-persa/  ). O psicanalista Vitor Frankl, criador da escola de pensamento Logosófica, propunha que a busca por um sentido é que faz a vida ter sentido. Ou, dito através de seu lema, quem tem um porquê sempre encontra um como. No caso específico de Frankl, ele sobreviveu a toda a degradação e tortura de um campo de concentração nazista buscando um sentido na busca por reencontrar sua mulher, também presa em outro campo.

Podemos fazer deste porquê um objetivo material, uma carreira, um sonho… mas talvez por sermos animais de tendência monogâmica e pequenas ninhadas, é comum que encontremos este porquê a nos esperar sonolenta em nossa cama.

De algum modo, quase todas as seitas, religiões e organizações coletivas perceberam a necessidade que as pessoas tem de formarem casais, de encontrarem testemunhas para suas vidas, pessoas em quem confiar o suficiente para partilhar a vulnerabilidade do sono, ou para permitir aquele momento sutil em que as confidências mais íntimas vêm à tona, quando se abraça alguém muito desejado (muitas espiãs se aproveitaram disso). Antropologica ou romanticamente, temos o desejo de dormir com alguém… e esse desejo se torna uma verdadeira necessidade quando o amor, aquele mesmo que é quase intraduzível mas que todos compreendem, dá as caras. O amor pede que não haja noites solitárias, exige, faz do dormir de conchinha a sua missa, o seu ritual.

Também produz o efeito colateral de reconstruir o conceito da solidão noturna, ou mais propriamente de criar sua existência. Mesmo que a ausência da pessoa amada perdure por vinte e quatro horas, a maior quantidade de lágrimas, estatisticamente, é derramada sobre travesseiros solitários em altas horas da noite.

Cínicos (e sempre os há) argumentarão que, após alguns anos, a cama vira um campo de guerra pela posse dos cobertores e contra o ronco, os chutes e outros hábitos mais escatológicos e incômodos dos parceiros. Talvez. Mas isso também pode ser apenas um disfarce, aquele outro velho hábito dos seres humanos em minimizar sua ternura para não reconhecer suas próprias vulnerabilidades.

Os ainda mais cínicos, e igualmente desconfiados, também protestarão em favor do direito de escolher sem imposições qual vai ser (e quando) a taxa de ocupação da cama e a identidade da companhia,  não estar condicionado a nada e ninguém, um protesto em favor da solidão quando desejada, um apelo à liberdade ainda que à tardinha…

Ou os românticos é que são felizes, partindo para o abismo do sono com um sorriso ao descobrir a paz no tênue ronco da pessoa amada. Encontrar o sentido da vida nas noites partihadas, ainda que o preço seja a tristeza das noites solitárias… ah,Paul… a solidão não é mais a mesma coisa… quero fazer parte do coral…

No more lonely nights!

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Uma resposta para Noites sem sentido…

  1. ilberto disse:

    Amigo Arlei – Há pouco tempo li uma reportagem sobre o silêncio e a escuridão. O homem tem receio em dormir sozinho, sem barulho e com luzes apagadas. Foi considerado pelo autor alguns aspectos da antropologia em razão de tudo isso lembrar a morte. Talvez a companhia da cama seja tão confortante por deixar distante esta lembrança, já que a vida é algo inexplicavelmente excepcional, maravilhoso e só mesmo Viktor Frankl que sofreu no campo de concentração mais do que animal emprestado soube valorizar e lutar dia após dia para manter-se vivo. A grande sacada do Tio Victor foi a projessão da situação insuportável do presente para o futuro. Concluiu que todos os que sobreviveram ao Holocausto tinham algo importante no futuro por fazer. Mesmo neste campo de concentração ele se imaginava num lugar aquecido e confortável, talvez, quem sabe, uma cama.

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