Ser ou não ser… ridículo

 Fernando Pessoa escreveu:

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são ridículas . (…)

Sentir é íntimo, é único e incompartilhável. Disse Hannah Arendt que a dor é a mais profunda e pessoal experiência de um ser humano; no sentido de que ninguém jamais saberá como exatamente é a dor do outro. Adaptando a percepção de Arendt, é possível dizer que o prazer e o amor são igualmente inexplicáveis. Jamais saberemos (embora o desejássemos)  se o outro nos ama como o amamos.

E todo aquele que se apaixona sente vontade de demonstrar, de gritar o que sente, como se aquela confusão sentimental toda fosse grande demais para caber em um só peito. Nem todos são capazes de expressar do mesmo modo; há os que verbalizam em torrentes de declarações, há os que são mais calados e os que demonstram com gestos, atitudes ou até mesmo em mudanças sutis de comportamento. Não há como definir um padrão de expressão.

Mas os habituais leitores de revistas masculinas e femininas (e eu, eventualmente, acabo lendo as duas classes de revistas, já que leio tudo o que me cai na frente, até rótulo de xampu) certamente já se depararam com conselhos do tipo: nunca diga tudo o que sente, nunca se demonstre completamente conquistado, nunca abra o coração, evite excessos de paixão…

Até posso compreender a sutil lógica por trás destes conselhos… e ainda há o velho ditado de que mel demais enjoa… mas não sei deixar de ser fernandopessoamente ridículo. Gosto de expressar, falar muito e sempre, permitir que a mulher que amo possa saber de sua importância, da capacidade que tem em inspirar tais sentimentos, da paz, do carinho, do tesão, da ternura que provoca.

Ridículo, piegas, tolo, enjoativo, abobado… bem, uma velha máxima machista diz que o que atrai as mulheres é justamente o descaso, o desprezo… que as mulheres vivem suplicando e caindo de joelhos aos pés dos homens que as desprezam. Dito assim, como receita de bolo, pode parecer prático… mas não creio que relacionamentos sejam, em verdade, algo tão burocrático e previsível. Algumas percepções de vida aqui e ali já demonstraram que há um fundo de verdade nisso tudo, mas a porção ridícula dentro de mim é indelével, parte de minha essência, e não pode ser contida por decepções ou pelo medo do fracasso. Sou assim.

Talvez nós, os ridículos que escrevem cartas de amor, no fundo… no fundo, possamos imaginar que haja mulheres para as quais haja felicidade em deitar um dos ouvidos contra nosso peito (porque sabemos ser masculinos e protetores, além de ridículos) e manter o outro livre para adormecer ao som da reafirmação que fizemos de toda a paixão que nos encharca o peito. São mulheres coloridas e especiais, que não fazem parte da amostra daquelas revistas…

Afinal, quanto menos não seja, como dizia o cantor country Garth Brooks na canção If Tomorrow Never Comes:

Às vezes, tarde da noite, fico acordado e a admiro dormindo (…) e os pensamentos cruzam minha mente/ se por acaso eu morrer, se não acordar na próxima manhã… será que ela saberá o quanto eu a amo? (…) perdi outros amores nesta vida, pelos quais fui incapaz de dizer quanto os amava, e hoje vivo com o arrependimento de não ter dito o que sentia/ por isso fiz uma promessa a mim mesmo, de dizer a ela todos e todos os dias o quanto ela significa para mim/ e evitar a possibilidade de que não haja uma segunda chance de fazê la saber o quanto eu amo…(…)

Recusando as advertências, os conselhos dos ditos e ditas experts, sei que estou me arriscando em um mundo onde (segundo eles) a dúvida, a adrenalina, a angústia e a a insegurança são o que mantém os relacionamentos. Mas os ridículos costumam ser assim, gauches e incorrigíveis, por toda a vida. Do contrário, correm o risco de recitar com amargura os trechos finais do poema de Pessoa:

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(…)

De tudo, minha linda, à todas as coisas que se deve ou não fazer, escolho o risco de ser um eterno ridículo e não permitir, enquanto for doce a teus ouvidos, que fiques um único dia sem saber da paz e do amor insuperável que trouxestes à minha vida.

Ridiculamente… com orgulho.

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Uma resposta para Ser ou não ser… ridículo

  1. Ariana Weber disse:

    Uau!!!! Isso sim que é uma prova de amor.
    E parabéns por conseguir transmitir os seus sentimentos para nós.

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