O sono da mulher amada

Em um certo momento, ela adormece. Um sutil relaxamento da musculatura, o cadenciar da respiração, a cabeça que se aconchega ainda mais no peito – num espaço que parece ter sido feito para seu repouso. Seus braços estão dobrados contra meu corpo, leves e protegidos pela amplitude dos meus. A última palavra que pronunciei talvez tenha ficado no ar, não captada por sua mente consciente – que agora, neste estágio de sono não-REM,  percorre a estrada que leva ao mundo dos sonhos – onde desejo ardemente que ela me encontre.

É um momento que pede um beijo delicado em seus cabelos, um contato físico discreto – pouco mais que uma insinuação, uma manifestação de carinho incondicional, que sela a concessão irrestrita da segurança de um homem para velar e partilhar o sono. Demorar-se-á um pouco mais este toque dos lábios… para manter  o rosto próximo ao calor de sua presença, para aspirar o aroma dos cabelos, o cheiro único da sua pele, que sobe da nuca e da pele aquecida atrás das orelhas… enfim, para embriagar a mente quase adormecida da sensação indescritível de paz e inundar as veias de todos os hormônios que, diz a bioquímica, gritam a palavra “amor” por todas as esquinas e ruelas da consciência. E assim, fecho as pálpebras e permito que o sono me assalte, levando-me àquela mesma estrada que ela agora percorre- e na qual tentarei seguir-lhe os passos.

Há algo de transcedental, mágico, incomparável neste momento. Sentir a mulher amada adormecida sobre o peito, ou ao lado, reduz a realidade externa a uma pequena janela sobre a qual desceram camadas espessas de uma cortina indevassável. Por instantes, ou ainda por horas, o mundo reduzir-se-á àquela respiração, ao calor que foge daquele corpo serenamente encolhido ali ao lado. A melodia de um instinto ancestral de proteção e de cuidado silencia todas as dissonâncias que povoavam a mente, os problemas do dia a dia, as conjecturas do futuro, as incertezas e as tergiversações de um habitante do mundo moderno; tudo isto agora é pouco mais que um burburinho. A mulher amada dorme em paz.

Pele toca a pele, aqui e ali. Nas pontas dos dedos, nas frestas entre as diáfanas roupas de dormir, nos pés entrelaçados. Não há (e ao mesmo tempo há) nada de sexual ou lúbrico neste contato, senão a transmissão de uma sintonia, uma ressonância comum e o alívio provocado pelo encaixar de peças solitárias do quebra-cabeças humano, que ontem estavam (e provavelmente amanhã estarão) correndo perdidas nos tabuleiros mal desenhados da “corrida humana”. Mas agora não. Está tudo em seu lugar. Pode haver a lembrança do último momento de máxima comunhão possível, de quando dois foram um em um grito de súbito prazer e de um ansiado relaxamento – mas agora como um eco terno e adocicado… o verdadeiro encaixe é o momento presente.

E, de repente, assoma a luta entre o querer adormecer para mergulhar ainda mais no mundo de única harmonia que nasceu naquele momento, e a vontade de permanecer intoxicado pela mística sensação de verdade, de carinho, de sentido que surge quando se ouve aquela respiração compassada. Luta perdida… o sono vencerá.

“E quem um dia irá dizer, que não existe razão nas coisas feitas pelo coração…”

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4 respostas para O sono da mulher amada

  1. Lys disse:

    Olá!!! Amei…momentos de muita tranquilidade, de paz.
    Beijos

    • arleiro disse:

      (…)”ontem tive um sonho
      Caminhamos entre as nuvens do céu
      Desenhando lembranças de nós dois
      Envolvidos no azul do véu”
      (Paula Fernandes)

      Beijos!

  2. NADIA CRUZ disse:

    Amigo Arlei,
    Como é bom amar!!!
    Tudo passa a ter sentido, e fica mais colorido e belo…
    Lindo tudo, como sempre!
    Um abraço carioca…rs
    Nádia

  3. Fred disse:

    Extremamente realista e sincero, como sempre, meu amigo. Tô no aguardo de uma publicação tua ainda, rs… abraços!

    Fred

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