Uma fita amarela

Como é profundo e aterrorizante o medo de decepcionar a quem se ama… o medo de perder a admiração de quem justamente mais desejamos, ardentemente, que nos admire!

Uma velha e adocicada canção country americana, composta por Irwin Levine e L. Russel Brown (Tie a Yellow Ribbon round the Old Oak Tree) conta uma singela fábula sobre isso… a letra da canção narra a história de um homem torturado pelo medo de ter decepcionado a mulher que amava, e assim ter de enfrentar a possibilidade de que ela não o ame mais.

Em resumo, a letra é narrada do ponto de vista de um passageiro de ônibus. Este personagem estava preso durante os últimos três anos, tendo finalmente recebido a  liberdade. O ônibus o está levando de volta para casa. A canção não deixa claro por que motivo o protagonista estava preso, que delitos cometeu, mas isso nem é relevante.

Ele explica aos demais passageiros do ônibus que o que mais o fere é a possibilidade de que sua mulher tenha deixado de lhe amar nestes três anos – de que ver seu homem cometer um crime e ser humilhado perante a sociedade tenha partido seu coração de forma irremediável. Está implícito o quanto ele se sente envergonhado, que considera justa a punição (cumpri minha pena, paguei o que devia) – mas não obstante ter recuperado a liberdade, ela nada lhe valerá sem o amor da mulher que deixou para trás. Ele não se julga mais digno do amor dela.

A dúvida que ele tem é, basicamente, se ainda MERECE o amor daquela senhorita que foi forçado a abandonar três anos atrás. Incapaz de perguntar diretamente à moça, temeroso de conhecer de antemão a verdade, ele tece um pequeno estratagema: pouco antes de ser solto, escreve uma carta à sua amada. Não pede nem aguarda uma resposta… diz apenas que no dia tal, a tal horário, estará dentro do ônibus que passará em frente a sua antiga casa. Ora, no quintal desta casa, muito imponente e sereno, está fincado um velho carvalho sob o qual o casal teria passado horas românticas em tempos passados. Ele pede a ela um único sinal:

Se você ainda me amar, amarre uma fita amarela ao redor do velho carvalho. Essa fita, eu a verei de longe. Se eu não vir uma fita amarela ao redor do carvalho, eu ficarei no ônibus, nem vou descer. Esquecerei tudo o que houve entre nós, pode pôr a culpa em mim, siga sua vida, seja feliz. Se houver uma fita amarela no carvalho, eu descerei e conversaremos. Se não houver uma fita amarela ao redor do carvalho, ficarei no ônibus e de algum modo tocarei minha vida adiante.

Nosso herói, então, termina de contar a história para todos os passageiros do ônibus, que compreensivelmente estão ansiosos para saber o desfecho da cena. Quando o ônibus vira a esquina de sua casa, ele, incapaz de encarar o carvalho, pergunta aos demais passageiros se há ou não uma fita ao redor da árvore. E então ouve dezenas de estrondosas risadas…todo o ônibus está rindo alegremente. Ele abre os olhos e mal pode acreditar no que vê:

centenas de brilhantes fitas amarelas amarradas ao redor do velho carvalho!

 

Bom, a música acaba… a historinha também. Mas amor realmente não acaba? Não sou daqueles que acha que amor é absurdamente incondicional… amor tem vida, feito plantinha ou filhote, precisa de cuidados e água todos os dias. Não se deve escravizar o ser amado em uma servidão eterna e devotada sem contrapartidas, apenas pela tentação do orgulho onipotente de ver se venerado e distinguido na multidão, como se tal distinção fosse eterna, inexigente e imutável feito direito divino. Amor pode sim murchar e morrer, e a decepção é justamente seu veneno mais letal.

Contudo, amor de verdade é absurdamente resistente. É planta sim… mas tem a resistência de erva daninha. Pode até secar, murchar, converter se em um arbusto seco, contudo algumas gotas de água fazem milagres. Decepção mata certeira outros tipos de relações, sociedades, amizades… mas o amor verdadeiro é justamente o laço humano que se mostra mais capaz de perdoar a decepção (não abusai, ó incautos).

Paradoxo este… o amor é justamente o arquiteto cego que constrói um pedestal, onde o ser amado é depositado, dotado da perfeição impossível. Por isso, deveria ser a decepção uma derrota suprema e inapelável, o terremoto, o tsunami impiedoso… e no entanto às vezes o que emerge não é nada disto, é justamente o verdadeiro nascimento do amor: livre da casca incômoda de admiração insuperável, a decepção mostra o ser humano verdadeiro, aquele que realmente habita o corpo do ser amado, e que é mais factível de REALMENTE ser amado. E assim, libertos das máscaras e armaduras, é que podemos  amar e se permitir ser amados sem temor.

Amar a pessoa verdadeira, com todos seus defeitos e virtudes, é provavelmente o único modo de amar. Só ama quem se descobre capaz de pendurar fitas amarelas. Dito de outro modo, menos piegas (só um pouco menos), a personagem Jennie de Love Story , morrendo de leucemia, diz para seu inconsolável (e confusamente culpado) Oliver:

Amar é nunca ter de pedir perdão.

A frase ficou célebre, o filme também… ambos, o filme Love Story (baseado em um livro do Erich Segall) e a música Tie A Ribbon Round The Old Oak Tree…, são dos vistosos anos 70, onde não era feio ser brega… bem, saudades dos anos 70, de um agora quarentão!

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3 respostas para Uma fita amarela

  1. Gi Cano disse:

    Oi Arlei, que saudades dos seus posts!
    Gostei muito do texto e me fez refletir, eu tb acredito que qdo cai a máscara da perfeição e a gente realmente vê o ser amado com suas qualidades e defeitos, aí sim nasce o verdadeiro amor, aquele que resiste às dificuldades, às pedras no caminho, aos próprios erros de um ou outro. Porém por outro lado eu complementaria a frase célebre do filme com um “…e correr o risco de não ser perdoado”, pq muito se debate em relação ao verdadeiro amor perdoar tudo, qual o limite do perdão de quem ama e eu acho que uma coisa nada tem a ver com a outra, a gente pode amar muito alguém e se decepcionar de tal forma que nem o amor salva, nem pelo amor se perdoa. Para mim admiração, respeito e orgulho de ter aquela pessoa ao seu lado são fatores importantíssimos para uma relação, um amor perdurar e superar tudo, se uma ou mais dessas coisas morre, acaba ou é perdida em função dos atos do companheiro, acho bem possível o amor morrer tb.
    Hehehe, quem nunca aparece qdo aparece escreve esses testamentos, rs
    Espero que esteja td bem contigo.
    Bjos
    Gi

  2. Angela disse:

    Oi Arlei! Curti muito esse texto seu. Me fez lembrar um amor que vivi e que.. talvez nao tenha acabado ainda, mas sofreu a dura prova da decpção e.. nunca mais teve coragem de assumir-se amor. Dói pra quem sofre e para quem foi a causa, se havia amor.. Hoje vou adormecer pensando nisso.. Abração amigo!!

  3. NADIA CRUZ disse:

    Acho que a decepção no amor é fruto da expectativa exagerada que fazemos…
    Saudades de passar no seu “mundinho”…
    Abração carioca!!! rs
    Nádia

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