A Mulher Esqueleto

“A Mulher Esqueleto” é uma lenda dos inuits (escrevi “esquimós” no post anterior, mas os inuits são na verdade uma etnia dentro da nação esquimó, que vive no gelo do hemisfério norte), e sua análise pode ser melhor apreciada no livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, de Clarissa P. Estés – faço aqui apenas uma breve exposição porque considero-a valiosa, e porque considero um blog como uma arca de pequenos tesouros que desejamos compartilhar com os outros.

Narrando, então, uma versão resumida da história: “uma mulher é assassinada, jogada ao mar de um penhasco, e torna-se um esqueleto preso pelas pedras no leito do oceano. Certo dia, um pescador solitário em seu caiaque  joga suas linhas de pesca exatamente sobre o local onde o esqueleto se encontrava. As linhas enredam-se nos ossos, e o pescador acredita que pegou um grande peixe, a julgar pelo peso. Satisfeito, luta para puxar a bordo de seu caiaque o fruto de sua pesca, já imaginando quantos dias de alimento um peixe daquele tamanho iria lhe render.

Porém, quando finalmente a “pesca” vem à tona, e o esqueleto cai sobre o caiaque, o homem apavora-se e rema apressado para a margem, sem notar que a linha enredou-se nos seus pés. Ao chegar em terra firme, sai correndo do caiaque – e seu terror é maior ainda ao perceber que a mulher esqueleto, presa pela linha aos seus pés, parece segui-lo onde quer que vá. Enquanto anoitece, ele corre para dentro do seu iglu – arrastando a mulher esqueleto consigo.

A princípio, na escuridão dentro de seu refúgio, ele não percebe que tem companhia – mas ao acender a lamparina de óleo de baleia descobre a mulher esqueleto ao seu lado em seu próprio iglu. Vencendo o terror, já que está frio e escuro demais lá fora, ele força-se a suportar aquela presença. Após algum tempo, perde o medo- e começa até mesmo a admirar a forma triste daquele esqueleto. Com paciência e carinho, desenrola então as linhas que o prendem.

Enfim, o homem abriga-se em suas cobertas e adormece. Sonhando, deixa cair uma lágrima. A mulher esqueleto, subitamente animada pelo calor e aconchego da habitação, vê aquela lágrima e sente vontade de bebê-la com sua boca de caveira. Acercando-se do homem, bebe a lágrima, toca seu coração com sua mão desencarnada e começa a cantar- e com o pulsar do coração do homem, seu esqueleto volta lentamente a encher-se de músculos, de pele, de vida… e pouco a pouco torna-se uma mulher novamente.

Então, ela aninha-se ao lado do homem e eles, abraçados, dividem um com o outro o calor que os mantém vivos e unidos para os próximos invernos.”

Para Clarissa P. Estés, desta lenda podem-se pinçar imagens simbólicas de um relacionamento, e compor a seguinte interpretação (também resumida e muito grosseira… por favor, leiam a original): o pescador, ao prender a linha à mulher esqueleto e sentir-se feliz por ter fisgado um peixão, é como o homem que inicia um relacionamento e encanta-se pelo que conhece à primeira vista ( o “peso”) de uma mulher – mas ao ver sua verdadeira face (o esqueleto, símbolo também da destruição provocada por um relacionamento anterior) sai correndo, fugindo de um envolvimento maior.

Eventualmente, apesar da relutância, o pescador (homem) tolera a presença do esqueleto (mulher) no seu iglu. Com isso, aprende aos poucos a reconhecer o belo nestes ossos, e ajuda a desembraçar a mulher esqueleto das linhas que a prendem. Adormece ao seu lado, e deixa cair uma lágrima (fragilidade masculina, a verdadeira face do homem). Esta intimidade, afinal verdadeira, das duas entidades permite que a mulher e o homem entrem em contato, e com a ajuda do coração do pescador (a compreensão e a aceitação da sua natureza feminina) ela vai se recompondo (curando suas feridas e tornando-se mais autêntica, e por isso mais bela), ganhando um corpo novamente – e enfim, depois desta “confusão”, ambos podem desfrutar do calor um do outro para todos os invernos.

Como já disse e ressalto: pincei grosseiramente alguns pontos da análise de Estés, justamente aqueles que me fizeram balançar a cabeça em aprovação. Achei importante dividi-los; pretendendo que este post sirva de estímulo a ler a obra original (e concordar, ou discordar, afinal esta é uma interpretação pessoal e sua função é justamente sacudir as mentes atentas). De tudo, mais que o conteúdo em si, gostaria de deixar uma idéia do que é o trabalho de Estés- e uma outra coisa, esta pessoal: a expressão do fascínio que eu sempre tive pelas histórias, as histórias verdadeiras – que moravam na boca dos velhos contadores de todas as culturas. Em quase todas as lendas, mitos e fábulas humanas (como Estés não esquece de ressaltar) está uma tradução rica e consistente do “inconsciente coletivo humano” – afinal, seja hoje ou há dez mil anos, aqui ou nos iglus do Alaska, os humanos são essencialmente os mesmos.

Bom final de semana- e boas pescarias…!!!

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2 respostas para A Mulher Esqueleto

  1. Ariana Britto disse:

    Excelente,bem resumida,explicação divina..Obrigada!

  2. Excelente texto! Achei teu blog por acaso pesquisando sobre o mito de Tirésias. Abraços.

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