O Sol do Inverno

– Num frio destes é que a gente aprende a amar o sol do inverno!- Não soou como uma frase estudada,  nem como uma tentativa de iniciar conversa… parecia um pensamento que se evadira, uma epifania fugitiva que deslizara pela língua: ela a pronunciara de olhos semiabertos, sorriso semiaberto, alma semiaberta, fruindo a luz e o calor do sol que ela louvara.

No mesmo instante, ele percebeu que o verdadeiro nome dela era um pormenor irrelevante – merecia ser chamada apenas como “mulher colorida”. Era fascinante constatar quantos matizes e cromaturas aquele mesmo sol de inverno parecia capaz de revelar em seu rosto. A pele, por si só, era uma delicata marchetaria de tons de rosa, laranja e um branco quase azulado – nenhum deles sobrepondo-se ou interrompendo o suave evanescer do outro. Rugas havia, bem como duas ou três cicatrizes e algumas sardas esparsas – mas estes acidentes só a tornavam ainda mais bela, porque forçavam o observador a perceber que ela era real, angustiantemente palpável e natural.

Sobre essa tessitura iluminada pelo sol, encaixavam-se os vértices mais coloridos da composição: os olhos e a boca. Aqueles, feitos de uma íris de azul incomum, mais plúmbeo (embora menos denso) que o do céu sem nuvens que os vigiava, e uma pupila muito negra e impositiva. A tonalidade da boca variava de acordo com o batom, era verdade… mas era boca tão bem esculpida em um alto relevo de pequenas estriações, que assim ao natural mais se assemelhava a um longo e bem traçado ideograma avermelhado.

E então ele sorriu, afinal era o que mais se havia para fazer frente ao espetáculo… e ela sorriu em retribuição, apenas pelo prazer que há em se sorrir ao sol de inverno. Em tom de brincadeira, ele complementou:

– Mas este mesmo sol é o que odeias no verão, cozinhando a tua sala sem janelas…

– Oh, não. Aquele é outro. Este é o sol do inverno.

– Ah! É que são tão parecidos!

E ela sorriu ainda mais, o ideograma vermelho da boca transmutando-se em inscrição mourisca, longa e curvilínea. O rumo da conversa lhe agradava, o nonsense e a verdade flertando em suas palavras:

– Eu te digo: são dois! Esbarram um no outro no outono e na primavera, mas afora isso mal se falam. O sol do verão e o sol do inverno… o sol do verão é mais profissional, mais metódico e aborrecido: é feito um funcionário público, um burocrata acomodado. Afinal, se surge o dia todo nada mais faz que a obrigação (e, como notaste, às vezes ainda é tripudiado por isso)… mas se acaso falta, se dorme um pouco e permite a chuva, é chamado de incompetente e omisso: ora, o sol do verão tem obrigação de brilhar e aquecer! Mas o sol do inverno… este nunca se sabe se vai dar as caras. É elogiado até quando cumpre minimamente seu dever, quando mal estende uns filetezinhos rasos de luz que nem aquecem direito. E num dia como hoje… foi o que eu disse: num dia como hoje é que se aprende a amá-lo!

Divertindo-se, bebendo suas palavras adoçadas pelo sorriso, ele engajou-se no assunto:

– Então certas pessoas são como os teus sóis… as amamos porque nos aquecem quando não o esperamos!

A mulher colorida permitiu que o sorriso diminuísse um pouco – mas não de todo, porque isso era quase impossível naquele rosto que em si já era um sorriso- e traduziu a intenção do comentário:

– Eu fui teu sol do inverno…

Agora o sorriso dele era tão terno quanto o dela:

– Meu sol de inverno. Duas vezes! Brilhou quando eu não esperava… quando o resto era gelo… é, quem sabe?

Ela aproximou o corpo tão lenta e marcadamente quanto pôde (porque queria mesmo que o gesto parecesse teatral), até que tocasse o dele. Ainda assim, em virtude do entremeio desajeitado das cadeiras, foi necessário alongar o pescoço para permitir que os dois sorrisos se tocassem, se reconhecessem e se compreendessem. O sol também os beijava, e eles sabiam. Os dois sabiam.

– Te ver brilhar de novo, tantos anos depois… sabes que és mais linda agora que era vinte e cinco anos atrás?  Mais linda que no primeiro inverno em que brilhaste… tornou-se uma mulher, um sol maduro e mais confiante. Tens mais cores!

– Mais cores!

– E foram vinte e cinco invernos sem esse sol…

– Oh, eu não era um sol. Era só uma menina…

– A menina mais bonita da escola. Mas isso era o de menos… o que aquecia era a ternura com que me tratavas, tua simplicidade de astro distraído! Eu me assombrei… nunca havia visto o sol, e fora inverno desde sempre.

– Mas foi um ano apenas. E depois houve verões em tua vida…

– Depois houve outros invernos sem sol, e verões de sóis extenuantes.

– Houve sóis em teus verões… e tu me esqueceste.

Ele contraiu as sobrancelhas, como que para admoestá-la, alertar que aquele tom de nostalgia a faria monocromática como as outras.

– Nunca te esqueci. Dormiste comigo todas as noites.

Ela riu, e novamente era colorida… explosivamente colorida:

– Então às vezes devo ter sobrado em tua cama!

Mas, embora parecesse uma observação ácida, não era; selou-a com outro beijo e um sorriso de cores intempestivas. Ele beijou-a com a boca, com os olhos, com a alma, com a ponta dos dedos que roçaram-lhe as bochechas. Beijou-a uma vez, e nela habitaram todas as milhares de vezes que deixara de beijá-la.

– Tua luz me reencontrou…

A tarde ia findando, mais fria e mais cinzenta. Mas a mulher era colorida, era quente e luminosa. Ele era feliz.

– Vamos para casa?

E depois deles, anoiteceu.

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2 respostas para O Sol do Inverno

  1. Lys disse:

    A mulher colorida é privilegiada e de muita sorte…beijos

  2. Dhayene disse:

    Nossa que lindo, adorei parabéns bjinhosss

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