Um lar para retornar

Quando não tinham uma jornada noturna programada, os homo sapiens primitivos voltavam de suas caçadas ao anoitecer (para reunirem-se ao redor do fogo, desfrutando o aconchego da tribo e os núcleos familiares). Nós também fazemos isso… mas eles sabiam exatamente o tipo de caça que procuravam, enquanto nós frequentemente nos perguntamos que diabos, afinal, estamos procurando quando saímos de casa sonolentos antes da aurora e voltamos extenuados à noite.

Ah, outra coisa… eles não tinham engarrafamentos para enfrentar neste retorno (alguém pode argumentar que eventualmente ficavam detidos pela passagem de uma manada de bisões ou mamutes, mas aí é forçar a barra…).

Pois assim é que fico aprisionado no conforto automotivo do século XXI, em meu carro de vidros escuros e CD player com entrada USB, enquanto espero que ocorra um (lento) movimento da manada de automóveis à minha frente. Santa Maria é uma cidade de ruas estreitas que, segundo a manchete de um jornal local, possui cerca de 250.000 habitantes e 150.000 automóveis. Percebe-se a verdade desta estatística em todos os finais de tarde dos dias úteis.

Ao lado de meu carro já bastante marcado pelo uso, está parado um sedan de pneus ainda incólumes, imponente e belo, que parece deslizar no asfalto (embora nesta confusão ande à mesma velocidade que eu). E, atrás de mim, encontra-se um velho Corcel II de retrovisor quebrado e ainda mais marcado pelo uso, transportando um senhor aparentemente tranquilo (também move-se na mesma velocidade de seus antecessores). Não sei o que meus companheiros de infortúnio ouvem no interior de suas carruagens de aço, mas eu casualmente estou desfrutando da voz da cantora canadense Chantal Kreviazuk dizendo “Feels like home” (do Randy Newman), assim:

(…) If you knew how lonely my life has been
And how long I’ve been so alone
And if you knew how I wanted someone to come along
And change my life the way you’ve done

It feels like home to me, it feels like home to me
It feels like I’m all the way back where I come from
It feels like home to me, it feels like home to me
It feels like I’m all the way back where I belong

Well, if you knew how much this moment means to me
And how long I’ve waited for your touch
And if you knew how happy you are making me
I never thought that I’d love anyone so much…”

Você “é como se fosse um lar para mim”. Um lar.

Lar! Ao encontro de quê estas pessoas todas, aqui paradas dentro de seus automóveis, estão indo? Todas vão ao encontro de seu lar? Sei que alguns estacionarão o carro e arrastar-se-ão lentamente para uma realidade que mal suportam, que pode ser uma casa ou uma família mas não é um “lar”. Sei também que outros, esmagados pela rotina e pela inútil corrida humana, entrarão em algo que é realmente seu “lar”, mas em sua amargura são incapazes de perceber (talvez apenas no dia em que o perderem). E, finalmente, alguns agradecerão o momento de girar a chave na ignição e colocar o pé dentro de sua amada caverna de fogo aceso…

Acho que o ser humano busca, desde sempre, duas coisas contraditórias: um céu aberto e um lar. Ora ele quer o teto onde se abrigar, onde se sentir seguro, protegido, aconchegado… amado, compreendido, confortado pela solidez das raízes – o que chamamos família, casa, abrigo… e ora ele quer o céu aberto, amplo, onde ele possa abrir as asas e tentar ser o que quiser, semeando sonhos e bebendo o vento no rosto – o que chamamos liberdade, aventura, “viver a vida”. Preferir-se-á uma coisa ou outra, a cada fase da existência.

O que ecoa da voz de Chantal, ao menos para mim, é a compreensão de que não são paredes ou laços oficiais que fazem um “lar”. Talvez, nesta filosofia de trânsito parado, eu possa concluir que um “lar” é aquilo para o qual queremos ardentemente voltar quando nos afastamos. Apropriando-me de uma citação apócrifa (congestionamento de final de tarde autoriza qualquer coisa), amamos o que (ou quem) nos dá asas para voar, segurança para voltar e motivos para querer ficar. É mais ou menos isso que você queria dizer, Chantal?

Vamos estender a “viagem na Hellmann’s” um pouco mais (afinal, o trânsito andou um pouco) e construir uma metáfora de terceira categoria: a vida inteira é assim, como uma volta para casa através do engarrafamento- que começa rápida e apressada, depois desacelera e por fim fica lenta e massacrante, desejando ardentemente chegar ao destino. Talvez eu esteja cansado… do dia, ou quem sabe da corrida humana em si…  talvez o desejo do “lar” esteja se impondo, como um grito atávico de meus paleoancestrais.

(…me espera com o fogo aceso? Se eu chegar antes, acendo para te esperar.)

Anúncios
Esse post foi publicado em Poemas, contos e crônicas, Santa Maria da Boca do Monte. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Um lar para retornar

  1. Fabiane disse:

    Que belo texto…Desafios humanos: transformação de uma “casa” em um “lar” (quer seja nossos apartamentos e casas, quer seja nosso amado planeta “Terra”) e o trânsito caótico e mal planejado de nossas cidades. A música também é linda, a conheci em um CD “antigo” de um seriado chamado Dawnson`s Creak. Abraço!

  2. ilberto disse:

    Um tal de Maslow – o cara da pirâmide, explica as necessidades humanas e ao mesmo tempo as prioridades delas. A primeira delas é a fisiológica depois proteção. Cita um exemplo do coelho que sai da toca para se alimentar (isso é sua prioridade, não sua, do coelho) mas põe em risco sua proteção, por que a alimentação, no momento, fala mais alto. Após a alimentação, procura proteção contra os predadores. A raça humana não foge disso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s