O Sol do Inverno

– Num frio destes é que a gente aprende a amar o sol do inverno!- Não soou como uma frase estudada,  nem como uma tentativa de iniciar conversa… parecia um pensamento que se evadira, uma epifania fugitiva que deslizara pela língua: ela a pronunciara de olhos semiabertos, sorriso semiaberto, alma semiaberta, fruindo a luz e o calor do sol que ela louvara.

No mesmo instante, ele percebeu que o verdadeiro nome dela era um pormenor irrelevante – merecia ser chamada apenas como “mulher colorida”. Era fascinante constatar quantos matizes e cromaturas aquele mesmo sol de inverno parecia capaz de revelar em seu rosto. A pele, por si só, era uma delicata marchetaria de tons de rosa, laranja e um branco quase azulado – nenhum deles sobrepondo-se ou interrompendo o suave evanescer do outro. Rugas havia, bem como duas ou três cicatrizes e algumas sardas esparsas – mas estes acidentes só a tornavam ainda mais bela, porque forçavam o observador a perceber que ela era real, angustiantemente palpável e natural.

Sobre essa tessitura iluminada pelo sol, encaixavam-se os vértices mais coloridos da composição: os olhos e a boca. Aqueles, feitos de uma íris de azul incomum, mais plúmbeo (embora menos denso) que o do céu sem nuvens que os vigiava, e uma pupila muito negra e impositiva. A tonalidade da boca variava de acordo com o batom, era verdade… mas era boca tão bem esculpida em um alto relevo de pequenas estriações, que assim ao natural mais se assemelhava a um longo e bem traçado ideograma avermelhado.

E então ele sorriu, afinal era o que mais se havia para fazer frente ao espetáculo… e ela sorriu em retribuição, apenas pelo prazer que há em se sorrir ao sol de inverno. Em tom de brincadeira, ele complementou:

– Mas este mesmo sol é o que odeias no verão, cozinhando a tua sala sem janelas…

– Oh, não. Aquele é outro. Este é o sol do inverno.

– Ah! É que são tão parecidos!

E ela sorriu ainda mais, o ideograma vermelho da boca transmutando-se em inscrição mourisca, longa e curvilínea. O rumo da conversa lhe agradava, o nonsense e a verdade flertando em suas palavras:

– Eu te digo: são dois! Esbarram um no outro no outono e na primavera, mas afora isso mal se falam. O sol do verão e o sol do inverno… o sol do verão é mais profissional, mais metódico e aborrecido: é feito um funcionário público, um burocrata acomodado. Afinal, se surge o dia todo nada mais faz que a obrigação (e, como notaste, às vezes ainda é tripudiado por isso)… mas se acaso falta, se dorme um pouco e permite a chuva, é chamado de incompetente e omisso: ora, o sol do verão tem obrigação de brilhar e aquecer! Mas o sol do inverno… este nunca se sabe se vai dar as caras. É elogiado até quando cumpre minimamente seu dever, quando mal estende uns filetezinhos rasos de luz que nem aquecem direito. E num dia como hoje… foi o que eu disse: num dia como hoje é que se aprende a amá-lo!

Divertindo-se, bebendo suas palavras adoçadas pelo sorriso, ele engajou-se no assunto:

– Então certas pessoas são como os teus sóis… as amamos porque nos aquecem quando não o esperamos!

A mulher colorida permitiu que o sorriso diminuísse um pouco – mas não de todo, porque isso era quase impossível naquele rosto que em si já era um sorriso- e traduziu a intenção do comentário:

– Eu fui teu sol do inverno…

Agora o sorriso dele era tão terno quanto o dela:

– Meu sol de inverno. Duas vezes! Brilhou quando eu não esperava… quando o resto era gelo… é, quem sabe?

Ela aproximou o corpo tão lenta e marcadamente quanto pôde (porque queria mesmo que o gesto parecesse teatral), até que tocasse o dele. Ainda assim, em virtude do entremeio desajeitado das cadeiras, foi necessário alongar o pescoço para permitir que os dois sorrisos se tocassem, se reconhecessem e se compreendessem. O sol também os beijava, e eles sabiam. Os dois sabiam.

– Te ver brilhar de novo, tantos anos depois… sabes que és mais linda agora que era vinte e cinco anos atrás?  Mais linda que no primeiro inverno em que brilhaste… tornou-se uma mulher, um sol maduro e mais confiante. Tens mais cores!

– Mais cores!

– E foram vinte e cinco invernos sem esse sol…

– Oh, eu não era um sol. Era só uma menina…

– A menina mais bonita da escola. Mas isso era o de menos… o que aquecia era a ternura com que me tratavas, tua simplicidade de astro distraído! Eu me assombrei… nunca havia visto o sol, e fora inverno desde sempre.

– Mas foi um ano apenas. E depois houve verões em tua vida…

– Depois houve outros invernos sem sol, e verões de sóis extenuantes.

– Houve sóis em teus verões… e tu me esqueceste.

Ele contraiu as sobrancelhas, como que para admoestá-la, alertar que aquele tom de nostalgia a faria monocromática como as outras.

– Nunca te esqueci. Dormiste comigo todas as noites.

Ela riu, e novamente era colorida… explosivamente colorida:

– Então às vezes devo ter sobrado em tua cama!

Mas, embora parecesse uma observação ácida, não era; selou-a com outro beijo e um sorriso de cores intempestivas. Ele beijou-a com a boca, com os olhos, com a alma, com a ponta dos dedos que roçaram-lhe as bochechas. Beijou-a uma vez, e nela habitaram todas as milhares de vezes que deixara de beijá-la.

– Tua luz me reencontrou…

A tarde ia findando, mais fria e mais cinzenta. Mas a mulher era colorida, era quente e luminosa. Ele era feliz.

– Vamos para casa?

E depois deles, anoiteceu.

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Tempo de plantar…

Certas pessoas gostam de ter na manga frases de efeito, citações referenciadas ou não, para brindar ouvintes e leitores em momentos apropriados. Algumas delas, pelo uso universal e freqüente, perdem um pouco o impacto desejado. “Amar é jamais ter de pedir perdão” (Segall), “ninguém nunca se banha no mesmo rio duas vezes” (Heródoto),”um país se faz com homens e livros” (Monteiro Lobato), “as mais belas jóias, sem defeito, com o uso o encanto perdem” (Shakespeare), etc…

Mas algumas destas pérolas ainda guardam o brilho sob a camada de pó depositada pelas multidões. É o caso da célebre “há um tempo para tudo sob o céu, tempo de plantar e um tempo para colher o que se plantou…” (do Eclesiastes).

Tudo que há sobre a Terra é cíclico… desde a obviedade das fases da Lua até nossa trajetória de vida. Nosso cérebro ocidental, organizado e muito cartesiano, às vezes nos faz acreditar que podemos escrever a crônica da nossa existência de uma forma limpa e ordenada, em linhas retas ou sempre ascendentes. A juventude, aliás, é cega para a natureza sazonal da vida… os mais experientes, contemplando retrospectivamente as idas e vidas da maré em seu passado, conseguem serenidade suficiente para aceitar as idas e vindas presentes e futuras (e ficar mais próximos da paz).

Não apenas porque existe o tempo da alegria e o da tristeza, e nenhum deles é eterno ou invulnerável ao outro – mais que isso, certas fases de nossa vida são como o provérbio bíblico: tempo de semear e tempo de colher. E as fases que costumamos chamar de “negras” (onde tudo dá errado, onde não vemos luz no fim do túnel, onde os sorrisos teimam em escapar) calham de ser justamente aquelas mais propícias para semear.

Ao contrário da filosofia “clássica” de auto-ajuda, segundo a qual o simples pensamento otimista atrai tudo o que há de bom (o “segredo” mais improvável do mundo), o que alguns estudos de fundo estatístico demonstram é que a maior parte dos que estão de bem com a vida é composta por aqueles que, em suas fases “negras”, decidiram acreditar que as coisas estavam ruins sim, precisavam aceitar a realidade e lutar para mudá-la.

A escritora sino-americana (Nobel de Literatura) Pearl S. Buck escreveu a vida toda sobre o cotidiano da China pré-revolução comunista. É uma leitura agradável e muito impactante sobre aqueles que conhecem pouco do modo de vida oriental. Uma de suas obras mais conhecidas, “A Boa Terra”, narra a saga da família do pobre lavrador Wang Lung, atingido pelas agruras da fome, da miséria e da ignorância – mas que, graças a um forte instinto de sobrevivência e uma cultura voltada para a luta pessoal, supera as fases adversas e acaba por tornar-se próspera. De modo geral, todas as grandes epopéias seguem este modelo: o herói, via de regra, é alguém que sofre muito e a partir deste sofrimento mostra seu valor para, enfim, superar a tragédia e a adversidade.

Há um tempo de plantar… e plantar também é sonhar, por que não? Ambas as coisas se completam, deitar a semente ao solo e sentar ao sol para esperar seu crescimento, imaginando a doçura da colheita futura. O tempo de plantar pode ser justamente aquele em que a capacidade de sonhar parece perdida, onde corações machucados se recusam a acreditar na cor sobrepujando o cinza. A mão mais propícia para plantar um sorriso é aquela úmida das lágrimas que acaba de enxugar. Tempo de plantar, tempo de sonhar. Juntos e indissociáveis.

Haverá tempo de colher. Sonhos são dinâmicos, talvez não se colha exatamente o fruto sonhado, talvez seja de qualidade inferior, ou talvez inesperada e deliciosamente melhor que o sonho. Mas o dia chega, tão certo quanto o sol após a chuva ou a onda após o repuxo. E findará, porque haverá outro tempo de plantar… dá para aprender a ser feliz assim, como o agricultor Wang Lung: em tempos de miséria ou fartura, ele valoriza o prazer sutil e incontestável de aquecer-se ao sol na frente da própria casa. À frente dela, uma plantação viçosa sucede a esturricada pela seca, e assim será sempre… mas o sol aquece igualmente a pele sofrida do lavrador. Aliás, embora a vida desta família chinesa esteja permeada pela superstição, mesmo nesta há um senso prático que se contrapõe à nossa mentalidade ocidental religiosamente passiva – por exemplo, embora adorem deuses pessoais e peçam favores a eles, a família de Wang Lung não hesita em xingá-los e abandonar-lhes quando eles não correspondem às expectativas, preferindo resolver as coisas por conta própria a esperar ajuda divina.

Há o tempo de plantar! Há as noites de sono perdidas a velar por uma criança com febre, há a exaustão pelo trabalho extra que se fez apenas para melhorar a vida de alguém, há o esforço para não permitir que a rotina e o cansaço diminuam os gestos de carinho com aquele que se ama… é um tempo de sonhar com o futuro ao lado destas crianças, com a satisfação de quem se ajuda, com a felicidade de quem se ama… e haverá o tempo de colher os sorrisos das crianças travessas, a amizade desinteressada, o amor e companheirismo que resistem ao tempo.

(vamos colher juntos?)

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Thoreau, Lispector, Boyle… por vidas menos ordinárias

O ensaísta americano Thoreau (de novo ele) teria dito: “grande parte dos homens vive vidas de silencioso desespero”. O autor referia-se àqueles que vão “levando a vida” sem apreciar o modo como vivem, e embora externamente conformados com a imutabilidade de seu destino, estão permanentemente assombrados pela ausência de perspectiva de mudança no futuro. É uma frase célebre, eventual e periodicamente resgatada do limbo da história – o que indica que o desconforto com a mediocridade da vida é um ato incorporado em nossa cultura há muito tempo. Talvez desde que a luta pela sobrevivência tenha deixado de ser tão intestina que o homem pôde deixar de viver correndo de predadores para prestar atenção na decoração da caverna…

Às vezes escorregamos na armadilha de pensar que a infelicidade é uma palavra muito dura, sinônimo da desgraça, da tragédia, do dramalhão: infeliz é quem não tem onde morar, o que comer, que padece de câncer terminal, que perdeu a família no tsunami, e o resto é besteira… Não é o que nos dizem, acompanhado de tapinhas nas costas, se nos queixamos do incômodo de nossa rotina?

Ah, mas será?

Comparo a instatisfação com a ordinariedade da própria vida com um dispositivo de tortura medieval, chamado por alguns de “Cadeira de Judas”: um simulacro de trono recheado de ressaltos pontiagudos (que ainda podiam ser aquecidos), no qual o torturado deveria permanecer sentado a bel-prazer do torturador. Vista de longe, a vítima pareceria apenas a ocupante de uma poltrona comum.

A opressão de uma vida que não vai para frente, em que os sonhos morrem antes mesmo de nascer, pode ser tão cruel quanto a catástrofe – aliás, desta última quase sempre há rotas de fuga, períodos de superação e crescimento, mas da prisão de uma vida ordinária muitas vezes não há saída. A mídia que criamos e ajudamos a manter desde o século XIX grita a todo instante que TEMOS de ser felizes, vencedores, bem sucedidos, MELHORES QUE OS OUTROS, por isso acordar todos os dias sob a égide uma rotina ordinária e sufocante é ainda pior que na época de Thoreau.

O romance mais famoso de Clarice Lispector, “A Hora da Estrela“, toca justamente nesta ferida; sob o prisma da nordestina Macabéa e sua vida de horizontes limitados e sonhos mal paridos, cujo único momento de notoriedade e fuga do lugar-comum é a morte trágica no asfalto, quando “vomita uma estrela de mil pontas”. A sensação de sufocamento transmitida pela prosa de Lispector, apesar de incontestável, não é nem de perto comparável à das vidas de silencioso desespero que desfilam por nós todos os dias, nos ônibus lotados, nas filas de caixa eletrônico, nas passarelas de pedestres, no congestionamento das seis da tarde, nas esquinas mal dobradas entre camelôs e atrasados (sempre, sempre, sempre atrasados para alguma coisa).

Oh, maldito paradoxo: em tempos onde mais interessante e maravilhosa a vida se desdobra para o homem comum, mais e mais ele parece se enredar na opacidade e falta de perspectivas de seu cotidiano. O filme “Por uma Vida Menos Ordinária”, de Danny Boyle (1997, com Cameron Diaz e Ewan McGregor nos papéis principais, um belo casal), também brinca com o tema, mostrando que mesmo na aparente plenitude de uma vida milionária (a personagem de Diaz) a “maldição de Thoreau” pode se infiltrar. Aqui, tudo vai acabar bem, graças ao truque do “tente, invente, faça uma comédia romântica sem final diferente”… Boyle não é Tarantino, claro. Mas não é totalmente descabido acreditar na premissa do roteiro deste filme: às vezes é preciso dar um chute na porta da vida para encontrar a saída.

É, não deixa de ser uma boa metáfora essa… dar um chute na porta da vida. Claro, os presos na armadilha às vezes sequer conseguem mover as pernas… mas acredito que, seja como for, nunca podemos perder a capacidade de debater-se, de resistir, de (mesmo com o laço no pescoço) não aceitar a execução até o último instante. Os gaúchos possuem um ditado popular um pouco tosco, mas bem apropriado… “não tá morto quem peleia…!”. A própria luta para escapar do ordinário já torna a vida menos ordinária (o filme de Boyle insinua isso).

Há também que se lembrar… nem sempre o “ordinário” é “insuportável”. Para muitos, senão todos em alguma fase da vida, andar sobre os trilhos tem seu apelo confortante e evoca a palavra “rotina” em um sentido prazeroso, tal qual não consta sempre no dicionário da metafísica moderna (permeada de auto-ajuda viciosa…). Bom, na salada de filosofia, literatura, senso comum e cinema que já fiz neste post, acrescento como toque final a letra de “Ordinary World” do Duran Duran (ah, os anos 80…)

But I won’t cry for yesterday
there’s an ordinary world
Somehow I have to find
and as I try to make my way
to the ordinary world
I will learn to survive

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Estar-se preso por vontade…

Impressiona-me pensar que, em quase todas as formas de sociedades patriarcal, o modo de prender uma mulher foi uma questão essencial para a manutenção da estabilidade da tribo.

As religiões do chamado ramo abrâmico (judaísmo, cristianismo, islamismo), em especial, deixavam claramente expressa sua visão da mulher como uma criatura a ser possuída, resguardada, protegida e… como fosse uma criança imatura, tolerada até certos limites. Burcas, restrições de gênero e deveres matrimoniais ainda subsistem em muitas sociedades modernas, até (de modo mais velado) na nossa.

Para os homens, a questão mais preocupante era a fidelidade feminina – a julgar pela literatura sacra ou profana, a mulher sempre foi considerada como potencialmente infiel: bastaria dar-lhe a chance. Não que o mesmo não fosse verdadeiro aos homens… mas a infidelidade masculina nunca representou um problema social (afinal, o ônus de responsabilizar-se pela descendência é sempre da mulher). Assim, apenas a infidelidade feminina era considerada uma infâmia.

Levando em conta a idéia da “posse” de um “animal” que é, por natureza, dado a “fugir” sempre que tiver oportunidade, torna-se natural a adoção de medidas que impeçam este ato indesejado (acorrentá-lo, por exemplo…). Seguindo este raciocínio, o homem limitava os movimentos da mulher que ele “possuísse”, limitava a exposição de seu corpo, limitava seus atos e até sua instrução, e sobretudo limitava ao máximo as possibilidades de que ela viesse a ter algum contato com outros homens. Tudo seria apenas curiosidade antropológica, se não percebêssemos este mesmo comportamento (ou ao menos seus ecos) nas ruas que atravessamos todos os dias.

Dentre outras tantas coisas, poder-se-ia alegar que tal “posse forçada” tem muito a dizer sobre a insegurança do “possuidor”: afinal, um homem que demonstra tal selvageria deve acreditar que só mantém a companhia da mulher desejada pela força. Mas há outras nuances do problema, entre elas a noção de competição entre os machos – que também existe entre as mulheres, mas tem contornos mais sutis: para uma mulher, costuma ser mais importante o que o homem sente e não o que faz (muitas usam este argumento para perdoar traições). Para um homem, um ato físico entre sua mulher e outro homem pode ser mais ofensivo que a natureza de seus sentimentos, por exemplo. E etcs…

Não à toa, a literatura está cheia de referências magníficas à fidelidade feminina, quase como se ela fosse um atributo divino: Penélope, por exemplo, que espera quinze anos pela volta do marido Ulisses, recusando todos os pretendentes com a alegação de que só escolherá outro marido quando terminar o manto que está tecendo – e para retardar o processo, desfaz à noite o que teceu de dia (na verdade, Ulisses não lhe foi igualmente fiel nestes quinzes anos…) . Bem no fundo, até mesmo os homens que não são brucutus ou senhores de escravas sonham com uma Penélope, fiel até mesmo ante a desesperança. Novamente, entre outras coisas, orgulho… mas não sejamos hipócritas ou cínicos demais para descartar o verdadeiro sentimento de companhia, como aquele dos casais de lobos fiéis um ao outro por toda a vida.

O que, então, “prende” uma mulher, além de celas, cintos de castidade, burcas ou a sombra opressiva de um tirano doméstico? Ouvindo conversas femininas aqui e ali, já me deparei com a afirmação de que “mulher feliz não trai jamais”, dita de modo a sugerir que o mesmo não é válido para os homens. Antes de continuar, levanto minha humilde opinião de que muitos homens felizes também jamais trairão… mas vamos adiante.

Mulheres não são bebês ingênuos ou animais interesseiros que irão atrás do primeiro pedaço de carne exposto à sua frente na ausência do “dono”. Talvez esta seja a falácia mais machista da história da humanidade. Mulheres, com as devidas sutilezas, são apenas uma variação de genêro da raça humana, com os defeitos e qualidades do homo sapiens (e mais qualidades que sua contraparte masculina). Não sou autor de auto-ajuda, nem psicólogo, nem socioantropólogo, mas mantendo um blog que se atreve a dar pitacos em tais embaraços morais, asseguro-me o direito de opinar que deixar-se “prender” a alguém é, sobretudo, questão de escolha – de ambos os sexos.

Então não disse Camões sobre o amor…:”...é estar-se preso por vontade – é servir a quem vence, o vencedor…”. Quem ama decide estar preso, pela sutil variação comportamental que torna o(a) companheiro(a) uma parte de si, um contraponto essencial para o desempenho do drama da existência. É escolher o ator (ou atriz) com quem se quer dividir o palco no diálogo que justifica tudo, que dá sentido à peça da vida. Esta “fidelidade” é na verdade confiança – não apenas a confiança no outro para consigo (que é a confiança egoísta), mas uma confiança mútua e além das individualidades; a confiança de que, indiferente de qual dos dois errar sua fala, o outro auxiliará a manter o diálogo frente à platéia.

Talvez seja apenas isso. Nem segurança, nem poder, nem dinheiro, sexo, juventude ou a velha e persistente dominação. O que realmente prende os humanos é… a vontade de estar preso. Uma vontade que vem como efeito colateral de uma emoção sempre mal definida, nunca compreendida, mas onipresente na história da humanidade: a mesma emoção que, esta sim, seria a verdadeira fiandeira por trás do manto de Penélope… aquela que, em português, Camões escreveu com quatro letras…

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O sono da mulher amada

Em um certo momento, ela adormece. Um sutil relaxamento da musculatura, o cadenciar da respiração, a cabeça que se aconchega ainda mais no peito – num espaço que parece ter sido feito para seu repouso. Seus braços estão dobrados contra meu corpo, leves e protegidos pela amplitude dos meus. A última palavra que pronunciei talvez tenha ficado no ar, não captada por sua mente consciente – que agora, neste estágio de sono não-REM,  percorre a estrada que leva ao mundo dos sonhos – onde desejo ardemente que ela me encontre.

É um momento que pede um beijo delicado em seus cabelos, um contato físico discreto – pouco mais que uma insinuação, uma manifestação de carinho incondicional, que sela a concessão irrestrita da segurança de um homem para velar e partilhar o sono. Demorar-se-á um pouco mais este toque dos lábios… para manter  o rosto próximo ao calor de sua presença, para aspirar o aroma dos cabelos, o cheiro único da sua pele, que sobe da nuca e da pele aquecida atrás das orelhas… enfim, para embriagar a mente quase adormecida da sensação indescritível de paz e inundar as veias de todos os hormônios que, diz a bioquímica, gritam a palavra “amor” por todas as esquinas e ruelas da consciência. E assim, fecho as pálpebras e permito que o sono me assalte, levando-me àquela mesma estrada que ela agora percorre- e na qual tentarei seguir-lhe os passos.

Há algo de transcedental, mágico, incomparável neste momento. Sentir a mulher amada adormecida sobre o peito, ou ao lado, reduz a realidade externa a uma pequena janela sobre a qual desceram camadas espessas de uma cortina indevassável. Por instantes, ou ainda por horas, o mundo reduzir-se-á àquela respiração, ao calor que foge daquele corpo serenamente encolhido ali ao lado. A melodia de um instinto ancestral de proteção e de cuidado silencia todas as dissonâncias que povoavam a mente, os problemas do dia a dia, as conjecturas do futuro, as incertezas e as tergiversações de um habitante do mundo moderno; tudo isto agora é pouco mais que um burburinho. A mulher amada dorme em paz.

Pele toca a pele, aqui e ali. Nas pontas dos dedos, nas frestas entre as diáfanas roupas de dormir, nos pés entrelaçados. Não há (e ao mesmo tempo há) nada de sexual ou lúbrico neste contato, senão a transmissão de uma sintonia, uma ressonância comum e o alívio provocado pelo encaixar de peças solitárias do quebra-cabeças humano, que ontem estavam (e provavelmente amanhã estarão) correndo perdidas nos tabuleiros mal desenhados da “corrida humana”. Mas agora não. Está tudo em seu lugar. Pode haver a lembrança do último momento de máxima comunhão possível, de quando dois foram um em um grito de súbito prazer e de um ansiado relaxamento – mas agora como um eco terno e adocicado… o verdadeiro encaixe é o momento presente.

E, de repente, assoma a luta entre o querer adormecer para mergulhar ainda mais no mundo de única harmonia que nasceu naquele momento, e a vontade de permanecer intoxicado pela mística sensação de verdade, de carinho, de sentido que surge quando se ouve aquela respiração compassada. Luta perdida… o sono vencerá.

“E quem um dia irá dizer, que não existe razão nas coisas feitas pelo coração…”

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Um lar para retornar

Quando não tinham uma jornada noturna programada, os homo sapiens primitivos voltavam de suas caçadas ao anoitecer (para reunirem-se ao redor do fogo, desfrutando o aconchego da tribo e os núcleos familiares). Nós também fazemos isso… mas eles sabiam exatamente o tipo de caça que procuravam, enquanto nós frequentemente nos perguntamos que diabos, afinal, estamos procurando quando saímos de casa sonolentos antes da aurora e voltamos extenuados à noite.

Ah, outra coisa… eles não tinham engarrafamentos para enfrentar neste retorno (alguém pode argumentar que eventualmente ficavam detidos pela passagem de uma manada de bisões ou mamutes, mas aí é forçar a barra…).

Pois assim é que fico aprisionado no conforto automotivo do século XXI, em meu carro de vidros escuros e CD player com entrada USB, enquanto espero que ocorra um (lento) movimento da manada de automóveis à minha frente. Santa Maria é uma cidade de ruas estreitas que, segundo a manchete de um jornal local, possui cerca de 250.000 habitantes e 150.000 automóveis. Percebe-se a verdade desta estatística em todos os finais de tarde dos dias úteis.

Ao lado de meu carro já bastante marcado pelo uso, está parado um sedan de pneus ainda incólumes, imponente e belo, que parece deslizar no asfalto (embora nesta confusão ande à mesma velocidade que eu). E, atrás de mim, encontra-se um velho Corcel II de retrovisor quebrado e ainda mais marcado pelo uso, transportando um senhor aparentemente tranquilo (também move-se na mesma velocidade de seus antecessores). Não sei o que meus companheiros de infortúnio ouvem no interior de suas carruagens de aço, mas eu casualmente estou desfrutando da voz da cantora canadense Chantal Kreviazuk dizendo “Feels like home” (do Randy Newman), assim:

(…) If you knew how lonely my life has been
And how long I’ve been so alone
And if you knew how I wanted someone to come along
And change my life the way you’ve done

It feels like home to me, it feels like home to me
It feels like I’m all the way back where I come from
It feels like home to me, it feels like home to me
It feels like I’m all the way back where I belong

Well, if you knew how much this moment means to me
And how long I’ve waited for your touch
And if you knew how happy you are making me
I never thought that I’d love anyone so much…”

Você “é como se fosse um lar para mim”. Um lar.

Lar! Ao encontro de quê estas pessoas todas, aqui paradas dentro de seus automóveis, estão indo? Todas vão ao encontro de seu lar? Sei que alguns estacionarão o carro e arrastar-se-ão lentamente para uma realidade que mal suportam, que pode ser uma casa ou uma família mas não é um “lar”. Sei também que outros, esmagados pela rotina e pela inútil corrida humana, entrarão em algo que é realmente seu “lar”, mas em sua amargura são incapazes de perceber (talvez apenas no dia em que o perderem). E, finalmente, alguns agradecerão o momento de girar a chave na ignição e colocar o pé dentro de sua amada caverna de fogo aceso…

Acho que o ser humano busca, desde sempre, duas coisas contraditórias: um céu aberto e um lar. Ora ele quer o teto onde se abrigar, onde se sentir seguro, protegido, aconchegado… amado, compreendido, confortado pela solidez das raízes – o que chamamos família, casa, abrigo… e ora ele quer o céu aberto, amplo, onde ele possa abrir as asas e tentar ser o que quiser, semeando sonhos e bebendo o vento no rosto – o que chamamos liberdade, aventura, “viver a vida”. Preferir-se-á uma coisa ou outra, a cada fase da existência.

O que ecoa da voz de Chantal, ao menos para mim, é a compreensão de que não são paredes ou laços oficiais que fazem um “lar”. Talvez, nesta filosofia de trânsito parado, eu possa concluir que um “lar” é aquilo para o qual queremos ardentemente voltar quando nos afastamos. Apropriando-me de uma citação apócrifa (congestionamento de final de tarde autoriza qualquer coisa), amamos o que (ou quem) nos dá asas para voar, segurança para voltar e motivos para querer ficar. É mais ou menos isso que você queria dizer, Chantal?

Vamos estender a “viagem na Hellmann’s” um pouco mais (afinal, o trânsito andou um pouco) e construir uma metáfora de terceira categoria: a vida inteira é assim, como uma volta para casa através do engarrafamento- que começa rápida e apressada, depois desacelera e por fim fica lenta e massacrante, desejando ardentemente chegar ao destino. Talvez eu esteja cansado… do dia, ou quem sabe da corrida humana em si…  talvez o desejo do “lar” esteja se impondo, como um grito atávico de meus paleoancestrais.

(…me espera com o fogo aceso? Se eu chegar antes, acendo para te esperar.)

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Carlos Drummond, Robert Frost, pedras, caminhos… e conselhos

Em seu poema  “The Road not Taken” (1920), o poeta americano Robert Frost escreveu:

.

Duas estradas divergiam em um bosque em setembro
E lamentando não poder seguir em ambas vias
E sendo o único viajante, durante muito tempo me lembro
olhei para uma tão longe quanto eu conseguia
até onde ela dobrava na descida e sumia

Então peguei a outra, parecia boa e vasta
e fosse talvez a mais atraente
pois estava coberta de grama precisando ser gasta
embora aqueles que passaram na frente
tivessem gasto ambas quase igualmente (…)

Devo estar contando isso com a alma cortada
Em algum lugar, há uma distância de tempo imensa:
divergiam em um bosque duas estradas
e eu escolhi a menos viajada
e esta escolha fez toda a diferença.

Hmmm… o nosso Carlos Drummond de Andrade, em 1928, publicou:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra.
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

.

Bem, na década em que Frost e Drummond escreveram seus poemas, não havia nada que se parecesse com a moderna categoria “literária” chamada “auto-ajuda”. Dale Carnegie, o autor americano que parece ter iniciado a praga, só escreveu “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” quase dez anos mais tarde, em 1936. Bons tempos. Embora Drummond fosse atacado e criticado na época da publicação de “No Meio do Caminho”, o tema da poesia não estava em questão, e sim a forma (considerada moderna demais para os liristas).

Ocorre que, hoje em dia, tanto o poema de Frost quanto o de Drummond são surrupiados pelos mais descarados gurus de realização pessoal, seus versos são pinçados em slides brilhantes de power point e reduzidos ao que possuem de mais primitivo, quando não transformados em simples conselhos do tipo: “aceite as consequências de suas escolhas” ou  “problemas vão acontecer em sua vida, enfrente-os”.

Dar “conselhos” pode ter sido um dos primeiros fatores a motivar o homem a escrever literatura (veja-se nos relatos biblicos, na Ilíada e na Odisséia…) mas a arte de mimetizá-los na beleza das palavras, no enredo,  nos personagens, no contexto, é que criou a literatura propriamente dita, como arte e não como sermão. Afinal, também pode-se traçar as origens da aventura literária humana nas fábulas dos contadores de história primitivos.

O leitor ou ouvinte que é forçado a compreender os sentidos ocultos de uma narrativa (até aqueles que não foram pretendidos por seu autor) certamente tem um ganho maior e mais impactante do que aquele que recebe uma ordem direta… quanto mais não seja, ao menos na apreciação da beleza, da estética formal de uma obra literária (um eventual significado pode surgir muito depois, no momento preciso).


Eu mesmo li “No meio do caminho” nos primeiros anos de infância, por puro acaso… e mesmo sem entender que diabo de pedra era aquela, achei o som do poema engraçado – quase uma parlenda. Muitos anos depois, ele veio a representar algo diferente… e outros tantos anos depois, algo ainda mais marcante.

Não há nada de errado em dar “conselhos”. Todos somos tentados a dar “conselhos”, quer seja pela compaixão dos experientes, quer pelo orgulho dos que consideram ter algo a ensinar. Até mesmo num blog pecamos assim… mas guardo algo que ouvi de um profissional de saúde mental, certa vez: disse-me ele que não lhe cabia – e ele evitava a todo custo – dar conselhos diretos a seus pacientes. “Faça isso, aja assim, seja assado…”. Ao invés disso, explicou-me que o eticamente aceitável em sua profissão era induzir o paciente a enxergar as alternativas de conduta por si só.

Talvez a literatura, tal como chegou até o século XX, prezasse também destes pruridos éticos. Mas a pressa e a ânsia de degustar o já mastigado criou a sub-categoria da “auto-ajuda”, uma aberração teratológica que, infelizmente, ultrapassou suas antecessoras nas listas dos “mais vendidos”.

OK, para aqueles que apreciam e se beneficiam da “auto-ajuda”, resta-me aceitar e tolerar. Não vou considerar-me um ser humano melhor por preferir a “literatura” na verdadeira acepção do termo (embora a tentação, vá lá, exista…). A alma humana às vezes é muito mais bela em mentes menos complexas, e alguns gênios literários são seres humanos detestáveis. Mas preciso lembrar Frost… tomar a estrada menos óbvia pode fazer uma grande diferença.

Enfim, prefiro defender os conselhos “à la Frost”, nas estradas menos óbvias. E também precisamos defender as pedras no caminho do Drummond… ele não consegue mais nem defender seus óculos, coitado!

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