Mulheres, lobos, filhas e… eu.

Estou terminando de ler, quase compulsivamente (obrigado pela dica, linda!) “Mulheres que Correm com os Lobos”, da psiquiatra Clarissa Pinkola Estés (junguiana até a medula, sorte dela). Já havia ouvido falar do livro, mas não o imaginava tão precioso. Leio com prazer e frequentes sorrisos de aprovação… vários pontos de vista são compartilhados e outros nunca imaginados eu recebo como presentes muito bem-vindos.

Na verdade, o livro é um grande ensaio, que resume anos de trabalho da autora, sobre a natureza primitiva do universo feminino. O tema em si é abordado há bastante tempo, mas o modo como Clarissa o faz é o que dá sabor á leitura. Contos de fada, folclore e mitologia são o arcabouço sobre o qual cada nuance do tema é discutido, cada arquétipo é sutilmente pinçado e revelado- com a clareza dos bons analistas e a ternura dos apaixonados pela arte de contar histórias. Do Patinho Feio até o Barba Azul, os delicados arabescos que forjam as consciências femininas universais surgem de onde menos esperamos, demonstrando que o inconsciente humano é poderoso, simbólico e sempre dá um jeito de se manifestar.

Sou junguianamente suspeito… mas vou recomendar. Sugiro, em especial, a análise da lenda esquimó “A Mulher Esqueleto”, que vai render um post aqui ainda esta semana, mas todo o livro vale muito a pena, tanto para as mulheres que apreciam uma viagem interior quanto para os homens que gostam de se aventurar na complexidade feminina, ou mesmo tatear em busca de sua anima.

A leitura só reforça minha opinião, já exposta aqui… mulheres são a versão top de linha do homo sapiens. Clarissa Estés escreve com uma paixão genuína e sincera sobre elas, e naturalmente (está nítido) com paixão sobre si mesma e sobre o orgulho de sentir-se mulher. Mas há que se dizer: ao contrário de outras autoras que se aventuraram nesta linha, ela não considera os homens como alienígenas (não, os homens não são de Marte e as mulheres de Vênus, não comprem esta falácia) ou como eternos opressores e inimigos atávicos do feminino.

Depreende-se de seu texto polido e envolvente que ambos, homens e mulheres, têm dificuldades em lidar com os papéis que as mulheres desempenham em sua existência, mas que ambos podem aprender a conhecer as sutilezas da psiquê feminina para benefício mútuo: se no livro de Clarissa as mulheres são identificadas com lobos por seu comportamento e interação com a natureza, homens não são automaticamente rotulados de caçadores ou predadores incorrigíveis, senão como potenciais candidatos a parceiros de convivência lupina – lobos são parceiros notavelmente fiéis.

Para citar textualmente Clarissa: ” A literatura sobre o poder das mulheres costuma dizer que os homens tem medo do poder feminino. Mas são tantas as mulheres que tem, elas mesmas, medo desse poder. (…) Se quisermos que os homens cheguem a compreender as mulheres, elas próprias terão de aprender a ensinar.(…) O melhor homem para uma mulher é aquele que deseja conhecer e compreender o seu eu primitivo.”

Clarissa Pinkola Estés

Mulheres… inconscientemente, sempre que pensava em filhos, pensava em meninas… e, de fato, fui pai de duas garotinhas que um dia serão desafiadas a libertar a mulher que adormece nelas. Não tenho a pretensão de ser guia para todos os caminhos que elas deverão trilhar, mas espero fornecer-lhes alguns mapas e colocar algumas provisões na mochila – além, é claro, de assistir tão perto quanto possível sem atrapalhá-las. Acho que trasmiti a elas a paixão pela arte de ouvir e contar histórias (que parece ser intrínseca também em Clarissa Estés)- a mais velha já atreveu-se a publicar um blog com suas criaçõezinhas. E, através do amor e admiração que lhes dedico, acho que também passo um pouco de orgulho pelo genótipo XX que elas carregam.

Apesar de admitir minha inferioridade para com o universo feminino, confesso-me feliz em ser um homem nesta aventura pela existência, por ter o privilégio de poder conhecer, admirar e reverenciá-lo. Pela bênção de poder acompanhá-lo de perto: por ter, nesta fase da vida,  me apaixonado pelo que há de mais verdadeiro em uma delas, e ser surpreendentemente correspondido; e pelo orgulho em escoltar duas pequenas lobas até a floresta na qual deverão correr…

Assim, fica minha admiração pela obra de Clarissa, que simboliza todas as mulheres: obrigado por existirem!

 

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2 respostas para Mulheres, lobos, filhas e… eu.

  1. Cris disse:

    Com o coração apaixonado assim é covardia escrever…..rs
    Antes de mais nada que sempre haja amor por esses amores!

    A autora diz que nós mulheres devemos aprender a ensinar, entre outras coisas.
    Hmmmmmmmm…quem sou eu para refutar, mas cada vez mais na minha vida vou percebendo que tudo não passa de uma descoberta. Tudo está pronto. Já existe.
    Cabe a cada um a caminhada para a descoberta. Descobrir até mesmo que somos diferentes. Nego-me na citação de que homens são iguais a mulheres. Não são e nunca serão. Assim como nego a citação de que mulheres possam ser melhores ou o contrário….rs
    Somos todos únicos, singulares, vindos de uma mesma mistura…alquimia e vamos nos descobrindo. Desvendando a felicidade e também a infelicidade.

    Colocar algumas coisas nas mochilas de suas filhotas é essencial. Elas saberão a hora de abri-la e fazer uso de tal coisa. Esse, acho que é o livre arbítrio. Descobrir o que já existe ali…ou não!

    Arlei, uma maré linda com todo esse amor. Desfrute. Deixe-se levar….rs

    Beijo!

  2. NADIA CRUZ disse:

    Amor saudável , é sempre bom!!
    Ao longo da minha vida, vi poucos homens amando, verdadeiramente, uma mulher…
    Percebi, que grande maioria, ama o corpo dessa mulher, juventude, um certo poder naquele momento da paixão…Triste isso!!
    Poucos admiram de verdade, uma mulher…
    Vc que colocou no mundo duas meninas tem uma responsabilidade em dobro. Ser o primeiro amor masculino, da vida de uma mulher , é ser o homem mais importante do mundo…rs
    Segundo, deixe que elas cresçam. Percebo que os pais, não conseguem admitir a sexualidade de suas filhas…
    Um belo caminhar com seu amor.
    Meu abraço carinhoso, e beijos nas meninas!
    Nádia

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