A Lua

– Que é que tanto olhas por esta janela?!?

– Eu? Eu olho a Lua.

– Hm.

– Mas é que ela me olha também, sabes? Quando eu era pequena… pequena mesmo, feito uma erva de jardim, eu cismava com ela. Ora essa… onde quer que eu andasse ela estava lá, dançando no céu – ora gorducha, ora magricela, as noites todas. Quando viajávamos de carro, assim como estamos fazendo agora, ela ia junto, acima de mim – e tão rápido que, por mais que papai acelerasse, sempre se mantinha à nossa frente. Cismei que era algo pessoal, tinha de ser: a Lua me vigiava. Não, mais ao certo… a Lua me protegia. E eu gostei de cismar com isso. A noite então, passou a ser segura. Eu tinha a Lua.

– …ah?

–  Isso mesmo. Eu tinha medo apenas de Lua nova. Medo verdadeiro, de arrepio e tudo. Medo que um dia, afinal, ela sumisse para sempre, que me deixasse à mercê das estrelas – que não tinham rosto nem sorriso. Ah, preciso explicar. É porque a Lua me sorria, tu me entendes? A Lua tinha uma boca doce e escancarada, um nariz meio canhestro e uns olhos borrados de carvão. Já as estrelas… essas eram agulhinhas muito frias, muito pontudinhas, que às vezes corriam céu afora feito risca de giz. E eu,por minha vez, corria para baixo das cobertas, soluçando sem coragem de pedir um amparo. Noite de Lua Nova era então um assombro de caminhos sem um guia, sem certezas e coragem.

– …hm.

– Mas assim, meio com Lua, meio sem Lua, eu fui crescendo. É engraçado como a gente cresce. Mas o ser humano cresce sempre pela metade, tu já viste? Não se cresce um pouco para baixo, solo adentro feito as árvores;  nem se espraia pela terra feito um rio nas enxurradas. A gente cresce só para cima, exatamente em direção à Lua. Sempre. Veja só; não nos apegamos ao chão como as coisas mais eternas. A Lua puxa a gente. Mas então… como eu dizia, cresci e soube um pouco de tudo, coisas ditas, coisas lidas e mal contadas. E mesmo assim o que não aprendi foi acreditar que a Lua não me segue, olhos meigos de titia cuidadosa.  Dito como eu disse: porque não sei não acreditar. E me entrego… fico olhando assim para ela, meio triste e comovida. Pedichã… sonhadora. Eu ainda acredito nela. Eu ainda devaneio um bocado, sabe?

– … e também fala um bocado.

– Falo por teu silêncio? Quem sabe. A lua é como tu: não me diz quase nada, apenas dá o conforto da presença. Eu falo um bocado com ela também, falo doida e docemente. É bom, como é bom falar contigo. Talvez te ame como amo a Lua, porque simplesmente estás ao lado. E porque vez em quando somes, Lua Nova que não atende o telefone, e eu também sofro o medo de que um dia resolvas me deixar para as estrelas…

– …ah? Eu falo pouco? Mas é preciso dar atenção à estrada…

– Vigia nossa estrada, então.  Deixa que a Lua me vigie…

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2 respostas para A Lua

  1. Cris disse:

    Que motorista distraído!

    Encoste o carro. Procure um acostamento seguro. Desligue o motor. Não é tão importante assim chegar. Olhar a lua e ouvir tudo que está sendo dito é a melhor e mais doce viagem….rs

    Motorista, desligue o carro!

    beijos

  2. Walewska disse:

    Adorei…

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