A “corrida humana”

Um trocadilho intraduzível para o português é uma das melhores partes do filme “The Switch” (com Jennifer Anniston e  Jason Bateman, que no Brasil chamou-se “Coincidências do Amor”). No início do filme, o narrador e personagem principal tece comentários sobre a aparentemene insana obsessão do homem moderno com a vida em ritmo acelerado, cheia de metas e trajetórias cada vez mais impossíveis e sufocantes. Esse pequeno mas contundente discurso é proferido sobre uma sucessão de imagens em câmara ultra-rápida, mostrando o cotidiano frenético de uma cidade como Nova York, e em certo momento, como se fosse um cineasta fazendo um documentário sobre uma exótica espécie selvagem, o narrador diz “that’s why they call it the human race”.

O trocadilho intraduzível é o seguinte: ao pé da letra (e é o que o tradutor fez ao escrever a legenda em português), a frase significa “é por isso que ela é chamada raça humana“. Mas a palavra “race” também significa “corrida” em inglês. Portanto, o sentido de “human race” pode ser tanto “raça humana” quanto “corrida humana“.

Independente de Jennifer Anniston um pouco apática ou do enredo sobre uma troca de doação de esperma (sim, é isso mesmo… mas até que fica engraçado) o filme vale uma olhada. Comédia romântica, mas com alguns toques de inquietude que fazem pensar…

De qualquer forma, “human race” é uma expressão bastante angustiante. Correndo sempre, sempre em busca de uma nova meta por um caminho ainda mais apertado? Quando eu era um adolescente, ou mesmo um recém-formado, tinha a sensação de que a “human race” era uma fase transitória rumo a um porto seguro, o que talvez tenha sido verdade um dia. Hoje, perdi esta sensação… e fico pensando se os jovens que acabam de ser jogados na idade adulta percebem a armadilha em que estão colocando o pé.

Já perdi muito tempo tentando achar o meu conceito de “paz”. Desde a paz idílica, feito uma rede estendida em uma praia do Taiti, até a paz da independência financeira… mas nunca o consolidei. Hoje, percebo que, de alguma forma, “paz” é fazer um pit-stop nesta “corrida humana”.

Em algum ponto desta “human race”, perdi a ilusão de lutar pelo pódio, e passei a acreditar que deveria continuar apenas para não ser atropelado pelos que vinham atrás – bem como escapar do destino de viver à beira da pista, abdicando de sonhos e objetivos. Com o tempo, e o cansaço, essa visão também deixou de me satisfazer. Já não sei mais se é verdade que viver à beira da pista significa impreterivelmente abdicar dos sonhos e objetivos, tampouco sei se ao desacelerar o ritmo vou ser atropelado pelos que vêm atrás de mim (como os manuais de eficiência corporativa insistem em afirmar feito um versículo do Evangelho).

Os mais amargos podem alegar que alguém que já superou certas barreiras na vida não tem moral para falar de tais argumentos, mas tudo é muito mais simples visto do exterior… quando a grande angústia é a sobrevivência financeira, ter vencido um concurso público pode parecer o paraíso, mas é supreendente e revelador descobrir o quanto a vida pode ser mais e mais complexa, e o quanto sempre (se quisermos) vamos achar um motivo para seguir feito alucinados na “corrida humana”. Há os que o fazem até o infarte definitivo… há os que o fazem por não conseguirem encontrar outra razão na vida a não ser correr, feito cães tresloucados a perseguir a roda de um carro… e que murcham as orelhas quando o carro finalmente pára.

Zé Rodrix escreveu, e Elis Regina cantou “Eu quero uma casa no campo… onde eu possa  plantar meus amigos, meus discos e livros… e nada mais…”. Bom, talvez nem tanto, talvez nem tão rural assim… o sonho hippie era geográfico e naturalista (Rousseau, sinto muito…) demais, mas a idéia é atraente, ecoando aquele citado pit-stop.

Pode ser uma casa acessível ao conforto metropolitano, mas onde os relógios sejam propositadamente desconsiderados, ou mantidos sem corda… onde os detestáveis toques despertadores dos telefones celulares sejam abolidos. Onde a rotina não signifique a mesmice de um casal que mal suporta a presença um do outro (porque esta carrega consigo a nódoa da armadilha, como um condutor a chicotear os cavalos que permanecem na corrida), mas sim a rotina de saber haver um outro para o qual vale a pena ter a rotina de buscar o novo todos os dias.

Em tempo: não vou estragar a diversão de ninguém se disser que o filme acaba bem, porque isto está implícito desde o início, certo…? Mas peço que prestem atenção ao final do filme e o comparem a um certo trecho, mais ou menos no primeiro terço, em que o personagem principal faz um relato ácido de como seria um futuro conjugal para um par romântico que abraçasse a “corrida humana” de mãos dadas…

E pensemos, pois.

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2 respostas para A “corrida humana”

  1. Eu me sinto sim como parte dessa corrida humana, não queria que fosse assim, mas não sei como fugir dela. A diferença é que eu tenho consciência dos meus sentimentos em relação a isso, mas não sei como mudá-los, como parar. Mas acredito que não haja uma receita, preciso descobrir sozinha.
    Valeu pelo texto, com certeza me fez pensar (mais um pouco, rs).

  2. Cris disse:

    Já “corri” muito. Muito mesmo. Já achei que correr era a melhor coisa que eu poderia fazer. A decisão mais acertada para mim mesma e para os que estavam diretamente ligados a minha vida.
    Cansei e cansei e cansei.
    Chega uma hora na sua vida que quase tudo muda de lugar, de cor, de forma, de conceitos… e então, vc percebe que não vale a pena correr. Andar é o suficiente.
    Um passo de cada vez, cada dia um pouco e há dias que eu me deu o prazer imenso de não caminhar…apenas deixar que meu coração vagueie na vagabundagem do que sou dentro de mim: meus sonhos e meu eu !
    Não corro, porque não tenho mais pressa!……………..rs

    Beijos!

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