O Futuro

A Física já aceita, de modo mais ou menos irrevogável, que o tempo é uma dimensão da matéria, tanto quanto as outras, com a notável diferença de que nele a matéria move-se de modo constante e unidirecional – sempre na mesma velocidade, rumo ao futuro.

“Futuro” , portanto, é uma palavra que serve para designar algo que simplesmente ainda não existe… mas indiscutivelmente existirá.

Este paradoxo filosófico e semântico nos causa desconforto! É como um ruído indefinido nas sombras da noite, cuja ocorrência não podemos negar… mas cuja verdadeira natureza fica a cargo da especulação: Um ladrão? Um gato? O vento? Um míssil americano que era para cair na Líbia e errou o alvo? A humanidade tenta, desde sempre, encontrar um modo de “prever o futuro” – ou seja, acabar com tal especulação inquietante. Videntes, oráculos, profetas…

Só que a possibilidade de existir um futuro já previsto é uma circunstância inconcebível para nossa mente, se nos dermos conta de que o mínimo acontecimento já pré-definido congela totalmente o livre arbítrio dos demais (até o fato de questionarmos a possibilidade de prever o futuro numa terça-feira de  março de 2011 já teria de estar previsto, por exemplo….).

Pessoalmente, gosto da opinião do Toquinho (na música “Aquarela”) “…o futuro é uma astronave que tentamos pilotar, não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar, sem pedir licença muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar..; e de outra ainda melhor, que seria de autoria de um certo Daniel Alejandro Fernandez, “O futuro está escrito… mas é com lápis, e cada um tem sua borracha”.

Em miúdos… é provável que a teia dos acontecimentos vá sendo construída aos poucos e direcionada de tal modo que, numa perspectiva estritamente focada, sempre haja um futuro bem possível imediatamente à nossa frente. Um futuro estatístico, como diria o famigerado matemático Oswald de Souza e sua zebrinha do Fantástico. Um futuro estatístico que pode chegar a 99% de probabilidades e ainda assim deixar de acontecer por um bater de asas de uma singela borboleta em Tóquio.

Aceitando esta teoria, podemos dar um pouco de conforto à nossa alma humana sonhadora, que nunca desiste de buscar a previsão do futuro (mesmo que seja no boletim metereológico), e também deixar espaço para estimular nossa capacidade de lutar, de acreditar que, sim, é possível tomar as rédeas desse bicho futuro com as próprias mãos de vez em quando e forçá-lo a virar para o lado que queremos.

E o terceiro ponto de vista que esta idéia possibilita é a alentadora e mágica contribuição do inesperado – quando o futuro que nos visita não é NEM O FUTURO JÁ PREVISTO E PRESSENTIDO e NEM O FUTURO CONSTRUÍDO À FORÇA POR SI MESMO: é quando entra em cena o imponderável, as “serendipities”, o acaso – enfim, a surpresa- é quando o futuro surge “sem pedir licença e muda nossa vida” por circunstâncias tão fortuitas e tão inacreditáveis que escapam ao entendimento dos cronistas, restando apenas um caminho poético para tentar expressá-lo.

E aqui, no final das contas, é que acredito no viver com um olho sempre aberto para o assombro. Nem aceitando totalmente o Maktub (estava escrito), nem aceitando totalmente o chavão de auto-ajuda “você é o único senhor do seu futuro”. Quarenta verões depois de ter começado esta aventura, ainda não sei decifrar o significado desta palavrinha, e provavelmente jamais saberei. Mas, como já disse em outro post, gosto dela… gosto do sabor de “matéria de que são feitos os sonhos”, de “lá e depois”, de “sol e morangos” que a palavra “futuro” me provoca, uma sensação quase física sobre a língua… um pouco parecido, talvez, com o gosto dos algodões-doces da minha infância, que pareciam feitos de tudo em seu volume multicolorido cheirando a açúcar, e se desfaziam em nada junto ao céu da boca, deixando apenas o rastro do prazer e da compreensão, ainda que ingênua, do que significava a palavra “etéreo”.

Venha, então, o futuro… convide-me para rir ou chorar. Estarei esperando.

Anúncios
Esse post foi publicado em Poemas, contos e crônicas. Bookmark o link permanente.

3 respostas para O Futuro

  1. Cris disse:

    Arlei, senti falta dos seus textos e sei que a Nádia (amiga pessoal ), também sentiu !
    Talvez, vc não tenha a dimensão exata do quanto é bom ( esta ainda não é a palavra certa) vir aqui e ler seus posts. Enriquecedor. Prazeroso.
    Acho que como um homem inteligente e sensível, sabe de suas capacidades e desse dom maravilhoso de escritor. Você precisaria saber mais. Ir além disso. Vc causa efeitos nos seus leitores e isso, meu caro, são para poucos escritores. Sabemos disso.
    Vc envolve, cutuca, leva a refletir, empresta, absorve, comove, amplia. Enfim, vc domina essa arte e de forma brilhante.

    O futuro exerce uma fascinação imensa em todos nós e como sempre, vc o descreveu de uma forma poética, verdadeira e cheia de interrogações para que fiquemos aqui, pensando no que virá ! O que será?

    Ninguém sabe.
    Acho que nunca saberemos e essa deve ser a chave, o segredo, a magia de existirmos. Como vc bem disse, há um futuro, mas não é nosso. Sabemos que virá, mas não o que trará e nem se estaremos nele.
    Que vc possa sim, rir e chorar agora. Já. E quando estiver lendo este comentário, já será futuro seu choro e seu sorriso. Nesse mesmo instante tudo que escrevi será passado !
    Louco demais para entender. Simples para vivermos.
    Um beijo e não suma mais !

  2. Não tenho nem o que falar….me deixou ‘speechless’, 🙂

  3. Greize disse:

    Que engraçdo, esses últimos meses , essa música Aquarela, não saía da minha cabeça, lembrei-me da infância e das propagandas lindas, nunca tinha prestado atenção na
    parte final da música(na época) “do futuro, e no descolorirá”…Ai que saudades da infância…rsrs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s