Lá e Depois

A frase “Viva depressa, morra jovem e deixe um cadáver bonito”, foi dita pelo personagem Nick Romano (vivido por John Derek), no filme O Crime Não Compensa, embora muitos acreditem que tenha sido dita por James Dean. Ela reflete uma adaptação pragmática da filosofia existencialista feita pela juventude a partir dos anos 50, que contradizia todas as lições de prudência e planejamento que seus pais tentavam lhe ensinar. De outro modo, também cabe nesta linha a frase típica “viva o aqui e agora, porque não se sabe se existirá o lá e depois“.

As gerações anteriores ao século XX norteavam-se por um certo espírito de culto ao futuro, bem traduzido na clássica fábula da Cigarra e da Formiga, de La Fontaine: o espírito hedonista da cigarra acabava levando a pior, e ensinava-se às crianças que era melhor aproveitar menos a vida no presente para poder desfrutá-la com segurança no futuro.

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, ora bolas… não há verdade maior de que o único lapso de tempo que dispomos é o presente. Uma vida não tem duração preestabelecida, a curva final pode estar muito antes de onde a pretendemos desenhar. A filosofia do “aqui e agora”, traduzida no mundo dos envolvimentos sentimentais, significa que a felicidade não é o sonho lúdico e burguês de nossos avôs, mas sim o instante em que uma noite desafia todas as leis da física e torna-se eterna. Por outro lado…

Há uma pequena armadilha no “aqui e agora”. Essa fórmula quase mágica foi criada para poupar os seres humanos do sofrimento esmagador das decepções, dos desencantos, da angústia em não alcançar a felicidade mítica dos contos de fadas. Embalados por ela, nos permitimos viver as maravilhas que a vida nos traz sem cobrarmos delas uma sequência, a segurança de uma continuidade que é, na verdade, imprevisível. Nos poupa de frustrações… mas ela é tão ilusória quanto a sua predecessora. Brincar de viver “aqui e agora” não é armadura contra apaixonar-se – pelo contrário, por liberar um grau de intensidade descompromissada, pode facilitar o que pretendia evitar. E apaixonar-se é penenetrar, inevitavelmente, no “Lá e depois”.

“Lá e depois” é o mundo dos sonhos. Todos aqueles que já levaram tombos da vida, que já sofreram decepções e mágoas, que já foram feridos frente à sua própria impotência, todos esses envolvem-se em cascas, couraças e fortalezas contra o “lá e depois”, porque sabem da agonia que é a dor dos sonhos muito sonhados e não realizados. Só que há uma grande inverdade na idéia de que “só existe o aqui e agora”.

A inverdade é a seguinte: o “lá e depois” só não existe enquanto não é sonhado. “Sois feitos da mesma matéria da qual são feitos os sonhos”, diz o personagem Prospero de Shakespeare. Ou “o que o amor pode conseguir é exatamente aquilo que o amor ousar tentar”, pelo mesmo Shakespeare. Um sonho que se sonha só… é um sonho. Um sonho que se sonha junto ganha força, exerce pressão indomável como um turbilhão água sobre os contrafortes das represas. “Lá e depois” é o universo dos castelos de areia… mas também é o universo seminal, da gênese, sem o qual tudo torna-se um ciclo onde até o novo é recoberto por uma fina camada de mesmice.

Além do mais, viver algo intensamente também implica em tecer sonhos. A ojeriza que se dedica ao maniqueísmo simplista dos contos de fada leva em conta a impreteribilidade das promessas, ou seja, que um “era uma vez” sempre terminará com um “felizes para sempre”, e por causa deste repúdio priva-se o coração de todos os entremeios possíveis, da própria magia de sonhar. Talvez seja o caso de não sonhar com a promessa inquestionável, com o resultado já previamente definido – e sim permitir-se sonhar que, sim, possa haver um “lá e depois”, mesmo que ainda não se saiba com que tijolos ele será construído e que sobre quais montanhas ele se erguerá. Ou seja: sonhar com um “lá e depois” imaginário não para que ele efetivamente aconteça, mas para que este sonhar possibilite existir um “lá e depois” de alguma forma.

Viva-se o aqui e agora, viva-se a beleza de estar vivo e ter um coração batendo no peito. Viva-se a magia, todos os dias em que ela espreitar pelas frestas mal disfarçadas da rotina. Mas viva-se o aqui e agora como uma caminhada por entre a bruma, como os passos incertos mas constantes para a frente, sem tentar adivinhar o que a bruma esconde… e, contudo, estando aberto à possibilidade de que ela dissipar-se-á em um dia ensolarado e em um caminho novo e instigante.

Que o “aqui e agora”, dance de mãos dadas com o “lá e depois”… pois que um dia, um dia quem sabe (e imaginar o quem sabe é viver também) o “lá e depois” tenha subitamente se convertido em um novo “aqui e agora”… e, quem sabe assim, indefinidamente…

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2 respostas para Lá e Depois

  1. NADIA CRUZ disse:

    Arlei,
    Vc sempre me deixa encantada!
    Quanta sensibilidade, carinho, ternura, pra falar de sonhos, tempo e medos…
    Adorei isso: “Que o “aqui e agora”, dance de mãos dadas com o “lá e depois”… pois que um dia, um dia quem sabe (e imaginar o quem sabe é viver também) o “lá e depois” tenha subitamente se convertido em um novo “aqui e agora”… e, quem sabe assim, indefinidamente…”
    Abração
    Nádia

  2. Arlei…obrigada por encerrar minha sexta-feira de forma tão agradável com esse texto lindo!
    Bjos e bom fim de semana

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