Apenas um chopp

O homem hesitou. Na verdade, ele estranharia esta frase: em primeiro lugar porque “homem” era um substantivo que jamais fora usado para descrevê-lo; no máximo “rapaz” ou “cara”. Em segundo lugar, porque “hesitar” era um verbo que não fazia parte de seu vocabulário. Talvez “não saber o que fazer” lhe fosse uma expressão mais familiar.

Então, o cara não sabia o que fazer. É que ela já acabara de explicar seus planos para os próximos anos, incluindo a distância imprescindível. Ele tinha vontades de dizer “eu te amo”, mas eram vontades etéreas, quase anatemáticas. Nunca pronunciara uma sentença destas, nem mesmo para os pais. Para ela? Parecia não haver momento, espaço ou contexto em que dizer “eu te amo” fosse possível. Em primeiro lugar, parecia exagerado. O que era esse trambolho de amar alguém, afinal? Em segundo lugar, o que estava implícito naquele gesto, que consequências ele desencadearia?

Talvez fosse o momento das causas perdidas, em que o vazio das possibilidades permite a audácia de todas as coisas… mas nem isso ele sabia ao certo. O dramático era para ele uma farsa, uma invenção cinematográfica que só ocorria com boas trilhas sonoras e enquadramentos corretos da câmera, jamais em um chopp no final de tarde. É, era isso… dizer “eu te amo” para uma garota com um filete de espuma no lábio superior apenas porque ela estava comunicando uma decisão profissional parecia ridículo, fake e inútil.

Ela nem era tão linda, a mocinha de legging preto da mesa ao lado tinha um corpo mais atraente… está certo que já sentia a falta dela mais que de qualquer outra coisa, que o sexo era muito bom… mas também era certo que ela implicava com tantos de seus modos e medos que talvez vê-la partir fosse a saída perfeita. Também tinha certeza de que não havia um orgulho masculino ferido, essas coisas de não prender-se sempre haviam sido mais do que compreensíveis – desejáveis até. Uma ou duas vezes, sempre sem querer, imaginara situações em que os dois pudessem conviver sem o ranço de uma ligação estável – mas habituara-se a não levar esses pensamentos muito a sério.

E em poucos segundos ele compreendeu algumas coisas, coisas que a cultura masculina da qual era simpatizante procurava abstrair: este não era mais um mundo onde existiam mulheres para os homens, e por isso desejar a companhia de uma mulher deveria ser algo tão cheio de reservas quanto dirigir à noite em certos lugares pouco recomendados. Mulheres têm planos, querem ser felizes de vários modos, ainda que em contraponto a desejos similares das contrapartes, ou mesmo à profana liberdade dos chopps de final de tarde. Deveria ser como admirar borboletas inquietas.

Num súbito e incomum rasgo de maturidade, também compreendeu que “eu te amo” não era “abre-te-sésamo”, porque não havia portas secretas. Um (seja-lá-o-que-fosse-isso) amor entre eles não teria o poder de solucionar aquelas questões geográficas e mundanas; no máximo poderia atrapalhar. Nunca tinha parado para pensar na agudeza destas armadilhas, dos espinhos que se escondem no chopp ao final da tarde. Naquela circunstância, naquele momento, naquela idade, naquelas duas criaturas, amor só significaria algo se significasse renúncia, de alguma parte ou de outra. E ele já não sabia, já não estava cansado de saber pelo que via em sua própria casa, o quanto renúncias deste tipo cobram seu rancor com juros e correções monetárias nos anos ásperos que algum dia sempre chegam?

Por outro lado, o olhar dela era jovialmente aberto- daquela indefinição que só existe no prelúdio de alguns sofrimentos inevitáveis. Ele imaginou que nuvens similares cruzavam o horizonte de seus pensamentos naquele mesmo instante. De algum modo, ela também sofria com a degradante possibilidade de renúncias, renúncias que também ecoariam o mundo de sua casa. Ela teria de dizer “e nós, como ficamos?”. Mas ele teve certeza, porque já a conhecia, que esta frase era tão impronunciável para ela quanto “eu te amo” para ele. Ocorria assim. Ambas as frases eram complementares, tanto quanto ambas eram impossíveis. Ambas namoravam-se uma à outra por sobre os terraços de arranha-céus impreterivelmente distantes um do outro.

E foi só assim, só sentindo o calafrio da imperiosidade daquele “eu te amo”, que intuiu (mais que compreendeu) que realmente a amava. E a amava por causa da perda. Porque assim a amaria em cada outra, porque assim e somente assim a amaria para sempre. Ou menos era tudo aquilo em saberia acreditar naquele momento, naquele chopp. E ela silenciava ante as cartas postas sobre a mesa, porque cartas sobre a mesa eram tudo o que tinha.

Num sopro gelado de precognição, percebeu que ela acabaria casada e divorciada de algum colega de trabalho menos importante mas mais presente que ele. Tomou as mãos dela com um carinho incomum, como se os dedos conseguissem pronunciar o que empacava em sua laringe. Era o máximo possível. Não havia saída. Ela resignou-se com um pouco de alívio, porque, embora o desejasse muito, temia até o fundo da alma enfrentar o que não saberia ser capaz de controlar.

 O que os copos de chopp à frente deles talvez soubessem, por seus anos de observação profissional, é que os dois seres humanos naquela mesa estavam meio vazios, mas ambos também estavam meio cheios.

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2 respostas para Apenas um chopp

  1. Cris disse:

    Não me canso de dizer: amar dói.

    Amar é bom, ,mas dói. É um verbo que não se pode conjugar sem um ou outro arranhão, alguns tombos e perdas. Não faz sentido, não combina, mas nunca entendi o amor de outra forma. Uma hora ou outra, cedo ou tarde esse tal amor vem nos mostrar a outra face. E se quisermos ver a face que nos agrada, temos que conceber a idéia de viver a outra.
    Seu texto deixa isso bem claro, pelo menos para mim.

    Beijos!

  2. Chopp disse:

    Muitoo Bom o post, parabéns

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