Receitas para o Bolo das Bodas de Ouro

E então o cirurgião-dentista recebeu o paciente, de movimentos um pouco lentos mas com uma ótima aparência para seus setenta anos. Ao acomodá-lo na cadeira, perguntando o motivo da consulta, ouviu aquele senhor risonho dizer:

– Gostaria que o senhor fizesse uma “limpeza” nos meus dentes. Sabe o que é… hoje vou ter um jantar especial com minha namorada.

E o cirurgião-dentista balançou a cabeça afirmativamente, pensando que neste século até os senhores septuagenários não abrem mão de uma namoradinha… e, preconceituosamente, ficou conjeturando que idade teria esta mulher, ou garota… mas então o paciente explicou com um sorriso:

– … pois o senhor veja bem, somos namorados há cinquenta anos.

E o cirurgião dentista sorriu com ele, dando-lhe os parabéns pela felicidade explícita – com uma mistura de satisfação por saber que o mundo ainda comporta ternuras assim,  e… de inveja.

Naturalmente, apenas permanecer casado com a mesma pessoa por cinquenta anos não é um indicativo seguro de que a relação deu certo, segundo o parâmetro da felicidade mútua. Mas as abundantes relações infelizes e indissolúveis do século passado estão em franca extinção, pois há uma cultura de intolerância com a infelicidade conjugal tão extrema que separações e divórcios deixaram de ser palavrões há muito tempo.

Talvez agora, que a fase de consolidação da separação como alternativa a uma relação fracassada já tenha passado, e a sociedade tenha aprendido a absorvê-la, os casais do futuro trabalhem melhor as perspectivas de sucesso e fracasso conjugal – quem sabe melhor do que a minha geração e a geração anterior. Um indicativo desta eventual tendência é o aumento da discussão sobre “como fazer a relação durar” em contraposição ao “como sair de uma relação infeliz” que foi um hit nos últimos vinte anos.

E as criaturas humanas gostam de receitas de bolo… mesmo com a óbvia constatação (aliás, nada melhor que uma relação sentimental para expor isso) de que os humanos são imensamente diferentes, todos querem aprender com os casais felizes e longevos qual o segredo do casamento duradouro, qual a receita para o bolo das bodas de ouro.

A este propósito, achei um pouco de graça ao ler, no mesmo dia, duas reportagens sobre o tema com visões completamente distintas. O escritor Fabrício Carpinejar, na Zero Hora de segunda-feira, expôs sua opinião de que o segredo das uniões longas e felizes está na suprema convivência e aceitação da intimidade do outro (ele usou a tolerância dos gases do parceiro como exemplo). O psicólogo Júlio Motta, em artigo de Júlia Reis no IG, defendeu o oposto: segundo ele, o excesso de intimidade e a falta de reservas tornam o par mais irmão do que amante e diminuem o entusiasmo emocional e sexual (ele usou o ato de fazer xixi na frente do outro como exemplo).

É, este é um bolo cuja receita não foi ainda certificada pela ISO ou aprovada pela ANVISA. Penso que cada um tem seus quilates de razão, talvez certo mesmo estivesse Aristóteles e o caminho do meio, o equilíbrio. Pessoalmente, acho que a rotina é uma das grandes ameaças à paixão de toda uma vida (e eu acredito nela, mais do que em ETs ou Chupacabras… afinal, nunca vi ETs ou Chupacabras, mas já vi paixões de toda uma vida). Tratar a parceira como namorada eterna (e não como a patroa estraga-prazeres) é uma boa dica… manter o romantismo, o tratamento diferenciado, mesmo sob as tempestades cotidianas, exige um pouco de esforço – é por isso que nem todos estão aptos a fazê-lo. De outro lado, compartilhar a intimidade com o outro também é um gesto de amor, de confiança e de paixão irrestrita -além disso, traz a segurança emocional que é necessária para uma relação em que às vezes um lado precisa apoiar o outro, como em situações de doença.

Enfim… nunca me senti tentado a pedir as receitas destes bolos que tem sabor de bons vinhos (já que quanto mais velhos, melhores…). Como cozinheiro obstinadamente autodidata, queimei algumas tentativas, outras desandaram apesar dos esforços… mas sigo acreditando que o bolo ainda vai ficar bom, e que ainda hei de desfrutar seu sabor: talvez tenha um pouco de dificuldade em levar as porções à boca com uma mão só, mas sei que valerá a pena comê-lo de mãos dadas.

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Uma resposta para Receitas para o Bolo das Bodas de Ouro

  1. Cris disse:

    Arlei, acho que nunca teremos a rceita desse bolo. Pelo menos, não uma receita definitiva e comunitária a todos aqueles que queiram amar “até que a morte os separe”.

    Tive o privilégio de assitir de camarote um amor de contos de fadas e esse amor durou cinquenta e seis anos. Quando o amdo morreu, sua companheira faleceu um ano e pouco depois. Motivo que o médico me deu? Saudades.
    O amor dos meus avós foi construído com milhares de histórias de lutas, conquistas, alegrias e dores. Ainda vou escrever um post sobre essa história de amor. Talvez, ainda não tenha feito, porque sinto que algumas coisas não consigo dividir em “massa”. São jóias raras demais e que não me pertencem.

    Até o enfarto do meu avô e que mudou tudo, eles seguiam uma rotina diária de vida. E que rotina linda… Minha avó tomava banho antes do almoço, passava batom, ajeitava o cabelo e esperava meu avô com uma mesa de almoço posta impecávelmente, porque ele chegaria do TRABALHO. Ela já tinha feito algumas tarefas domésticas e sempre a comidinha que ele amava estava nas travessas para serem servidas. Se isso não é amor, não sei o que é!
    Passavam horas conversando antes de darem um beijo de boa noite ( na boca ) e adormeciam de mãos dadas. TODAS AS NOITES .

    Poderia ficar aqui lhe contando detalhes maravilhosos desse amor que contagiou toda minha vida e guiou-me na formação de muitas coisas que penso hoje.

    Acho que eles descobriram a receita do bolo. O bolo que era deles.

    Beijo pra vc !

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