O Feitiço do Tempo

Encerrado o horário de verão, “ganhamos” uma hora a mais em nossas vidas, ao menos sob o paradigma da contagem cronológica do tempo, já que a natureza ignora solenemente os desígnios dos governos humanos. Que fazer quando se “ganha” o tempo? Quando um compromisso é desmarcado, quando uma tarefa acaba antes do previsto, quando um avião chega adiantado? Na verdade, costumamos dizer que não temos controle sobre o tempo, sobre o relógio implacável que oprime… “não tenho tempo para tal coisa e tal coisa…” – mas o paradoxo é que temos livre arbítrio para definir nossas prioridades, o tempo é na verdade completamente indiferente a nossas elucubrações. Isso me lembrou um filme…

Foi um filme de marketing tão despretensioso que, à época de seu lançamento, não me chamou a atenção nem nos cinemas nem nas videolocadoras. Parecia apenas mais uma comédia romântica (com a presença do Bill Murray, sugeria ser mais comédia que romântica). Foi necessária a indicação fervorosa de um amigo para que eu o assistisse com atenção e percebesse que é uma pequena pérola de criatividade, um filme que faz pensar além do que pretendia e, hoje em dia, um cult.

É o filme “Feitiço do Tempo”, de 1993 (Groundhog Day, do diretor Harold Ramis). A quem não o assistiu, um resumo básico é o seguinte: Phil, um jornalista ranzinza e egocêntrico (Bill Murray, óbvio) que desempenha as funções de “homem do tempo” de uma emissora de TV, é enviado para cobrir um evento turístico em uma cidadezinha da Pensilvânia (o Dia da Marmota…), e devido à condições climáticas adversas, é obrigado a dormir no hotel da cidade que, a princípio, ele detesta. Mas, por alguma razão nunca explicada, na próxima manhã ele acorda no dia anterior, como se o dia de ontem não tivesse existido. E o estranho fenômeno se repete… incrivelmente, todos os dias são sempre o mesmo dia, e a única pessoa que percebe este fato é o próprio Phil. Inicialmente confuso e aterrorizado, por estar preso em uma fenda do tempo e em um local geográfico que não lhe agrada nem um pouco, ele começa a obter algum proveito da situação (já que ele sabe tudo o que vai acontecer naquele dia, e também sabe que nada que ele faça, seja ilegal ou imoral, será lembrado na manhã seguinte).

Mas a criatividade do roteirista Danny Rubin e do diretor vão tornando o enredo mais e mais complexo, com surpresas e sutilezas que fazem pensar um bocado ao final do filme… com o passar dos dias o prisioneiro do tempo percebe que uma vida eternamente inconsequente não é tão atraente assim, e que a ausência de continuidade obscurece a procura de um sentido nas coisas. A linha condutora do filme é a frustração do personagem em perceber que não consegue manter um relacionamento com a mulher com quem se apaixona, porque ao final de cada dia o tempo reverte ao início do dia anterior… mas há outras inúmeras cenas que provocam a reflexão.

Como exemplo, Phil descobre que um mendigo morre exatamente naquela noite- e, sabendo disso, quando o tempo volta atrás na manhã seguinte ele o alimenta e cuida do seu bem-estar, mas apesar de qualquer coisa que faça, ele sempre acaba morrendo quando a noite chega. Impotente, percebe que há coisas na vida que estão além de qualquer controle, mesmo com um poder tão fantástico como o que agora tem nas mãos.

E por outro lado, com a aparente eternidade a seu dispor, descobre a liberdade de aprender, de arriscar e errar independente do que o resto do mundo vá pensar na manhã seguinte – e com o passar dos dias (do mesmo dia todos os dias, na verdade), percebe que poderia ter feito isso com ou sem o efeito do estranho fenômeno – em suma, o tempo e a opinião alheia são mais comumente escusas e não limitações.

Mas o filme é tão maravilhosamente leve, sem qualquer incitação à epifanias gloriosas, que cada um pode concluir o que lhe serve da trama bem construída. Além, é claro, de alguns momentos de comédia inspirada… e um pouco de romance, afinal de contas.

Em suma (como é recorrente no blog) penso que o tempo pode ser tanto a coisa mais preciosa da vida quanto a mais insignificante. O Principezinho do Saint Exupéry, ao encontrar um vendedor de pílulas que eliminavam a sede, pergunta qual a vantagem de tal produto- e o vendedor responde que, não tendo necessidade do ato de beber água, “ganha-se” cinquenta e três minutos por semana. O Principezinho então, reflexivo, pensa: “Eu, se tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte…”

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2 respostas para O Feitiço do Tempo

  1. Cris disse:

    Ah, complicado comentar seus textos. É como ir a uma exposição maravilhosa e ao admirar um quadro, jogar um jato de tinta preta na tela.
    Algumas vezes, como agora, outras palavras parecem não caber nas suas. Talvez, porque as suas silenciem em uma profunda aceitação da alma. É o tal respiro que costumo dizer; quando a alma aceita, acolhe, aprende, ouve, absorve.

    Se tivessemos poder do tempo…se tivessemos qq poder… se nos fosse dado o direito de mexer no movimento de rotação de cada dia, eu não saberia o que fazer exatamente com cada hora, mas continuaria sendo grata pelo tempo que tenho por esta passagem, neste tempo, neste espaço, nesta etapa da eternidade por aqui e continuaria esperando o meu amigo fiel , Desconhecido.

    Presente vir aqui e ler Arlei !!!

    beijo

  2. Gi Cano disse:

    Pôxa Arlei, tá ficando até chato comentar seus posts, rs, já nem sei o q dizer, são todos bons demais e parecem sempre ter tudo a ver com o que estou sentindo no momento.
    Agora eu estou sentindo que tenho tempo demais e não sei o que fazer com ele, sinto ele passando e eu meio parada no tempo, como que o desperdiçando, rs, esse post teve tudo a ver com o que estou sentindo hoje, pode ter certeza que será motivo de (mais!)reflexão nessa cabeça aqui.

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