O universo que habitaste

Agora, enfim… agora, neste exato momento em que a cadência de tua respiração me avisa “ela adormeceu”; agora que te tornaste parte do meu corpo, num amálgama de braços e de sonhos; agora que as palavras reduziram décadas a sussurros; agora que o passado veio brincar; justo agora é que me dou conta do teu caminho, da tua trajetória de cometa errante em outro universo, até que se fizesse astro cadente aqui em meu peito.

Onde estavas, quando a tarde foi findando e a luz que era teu nome só brilhava em minha memória? Quantas noites partilhamos insones sem sabê-lo? Quantas vezes tu choraste, sem que eu ao menos descobrisse o porquê da chuva fria em meu telhado? Quantas vezes teu sorriso aqueceu outros planetas, onde a vida era mesquinha demais para agradecê-lo? Quantas vezes acordaste só e incompreendida, sem que eu ao menos enxergasse a luz cinzenta das auroras?

Onde estavas, quando eu subi ao alto das montanhas? Quando desci às entranhas dos oceanos e às nascentes mais humildes de seus rios, a procurar-te sem saber o que buscava? Que fazias nestes dias em que minha vida  foi ou sol ou tempestades? Que escrevias nas agendas, nos bilhetes apressados e nas folhas pautadas do teu mundo? Que delícias tu provaste enquanto eu sorvia alguns cálices amargos e inquietantes? Que sinfonias acariciaram teus ouvidos, que perfumes te encantaram…?

A quantos passos já estiveste de meus olhos, quantas avenidas partilhamos sem sabê-lo? Quantas vezes recordei que tu existias, sem saber em que desertos definhavas? Onde andavas quando eu fui forte e destemido, quantas vezes contemplamos as mesmas estrelas indiferentes e inconstantes? Quantas vezes fui privado de ouvir teu riso, quantas luzes acendeste em quartos tristes e vazios? Quantas pessoas tu abraçaste, quantos beijos de criança evaporaram no teu rosto? Quantas vezes tuas pernas te faltaram, sem saber que os meus braços te buscavam há tanto tempo?

Que universo, enfim, tu habitaste antes de voltar à órbita persistente de meus sonhos? Quantas fotos e impropérios, quantos dias esquecidos, quantas chaves e quantas fechaduras, quantas caixas e lençóis; quantas certezas desfiguradas parte a parte, noite a noite, quantos sepulcros de vaidades e de anseios até emergires no horizonte dos eventos de meu mundo? Que dizias, que pensavas, que fazias? Quantos beijos queimaram-te nos lábios, quantas palavras dissolvidas em esperas e desgostos, quantas luzes incompreendidas, quantos desvios inopinados de tua rota…

E agora… e mesmo agora, sob os olhos que cerraste, ainda vagas neste cosmos onde não existo e onde jamais existirei. E tu dirás “te coube o mesmo, ainda te cabe…”. Sorrindo, concordarei… mas direi que num espaço tão imenso e impiedoso, nossos dois mundos foram se chocar, entre tantas outras improbabilidades. Talvez como a de que os mundos, todos eles, inexistam agora… além daqui… além de nós… e assim eu adormeço.

“If I lay here
If I just lay here
Would you lie with me
And just forget the world?”

(Chasing Cars – Snow Patrol)

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2 respostas para O universo que habitaste

  1. Cris disse:

    Fiquei um tempo afastada do meu blog e retornando hoje, encontro mais um texto seu magnífico.
    Seu texto é arrebatador em toda a ternura, colocação de pensamentos e sentimentos. A ânsia nessa procura já encontrada … universos que uma hora ou outra, caminham paralelos.

    Assim que li as primeiras linhas, lembrei-me de uma música cantada pela Simone: Quem será?
    Fui no youtube e procurei o link pra vc. Está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=3UdwqszgFxo
    Não tinha como não lembrar-me dessa música lendo cada palavra que vc escreveu, cada indagação dessa busca que vc lança.
    Lindo. Verdadeiramente lindo!

    Algumas vezes, é possível sim, esquecer o mundo !

    beijos

  2. NADIA CRUZ disse:

    “…mas direi que num espaço tão imenso e impiedoso, nossos dois mundos foram se chocar, entre tantas outras improbabilidades. Talvez como a de que os mundos, todos eles, inexistam agora… além daqui… além de nós…”

    Sem palavras…
    Quero apenas sentir…
    Abração!
    Nádia

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