Os homens de Marilyn

A americana Norma Jean Baker, escondida sob uma tintura loira platinada e sob o codinome Marilyn Monroe, foi o maior símbolo sexual do século XX. Tal feito deve-se em parte ao talento da mídia de sua época (para a qual a criação de ícones era essencial), mas principalmente à sua habilidade como artista e uma aguda percepção de como se adequar ao que o público masculino esperava dela.

É provável que Norma Jean não fosse tão estúpida quanto o estereótipo loiro que encarnava, mesmo que alguns detratores sugerissem o contrário. Alguns detalhes de sua biografia sugerem que ela ao menos foi uma lutadora obstinada, e não uma caipira ignorante jogada no picadeiro de um circo. Norma Jean jamais teria conseguido encarnar e sustentar o mito de Marilyn Monroe sem um pouco de tino, firmeza de propósito e domínio de si mesma. Por isso mesmo, a teoria do suicídio ainda hoje é uma hipótese questionável para sua morte.

Os homens que cruzaram a vida de Norma Jean foram tão distintos um do outro, que ela deve ter adquirido ao menos uma certa expertise em psicologia masculina. Seu primeiro marido, quando ela ainda era uma ingênua pós-adolescente da Los Angeles de 1942, foi o vizinho James Dougherty. A relação com Dougherty parece ter sido pouco mais do que a conveniência de dois adolescentes, tumultuada pelo alistamento militar de James (em plena Segunda Guerra) e sua recusa em ter um filho com Norma (antes de James ir para a guerra) e aceitar uma carreira de modelo fotográfica (depois de James já ter partido). De qualquer modo, o casamento acabou precocemente e o divórcio foi formalizado em 1946. Norma Jean, à revelia de James, foi descoberta por um fotógrafo e depois pela máquina de Hollywood, e criou seu alter ego Marilyn Monroe.

Atingindo rapidamente o estrelato e o status de objeto de desejo de uma nação inteira, chamou a atenção de um dos maiores ídolos esportivos dos Estados Unidos, o jogador de beisebol Joe DiMaggio. A relação dos dois encantou a mídia da época (um paralelo aceitável para o público brasileiro moderno seria a relação Xuxa/Ayrton Senna, por exemplo). O que Marilyn realmente sentiu por DiMaggio permanece um mistério; suas declarações a respeito sempre foram muito dúbias, antes e depois. O certo é que casaram-se em 1953, e divorciaram-se menos de um ano depois, quando ela foi internada sob uma crise nervosa que teria sido desencadeada por uma “tortura mental” decorrente do excesso de ciúmes e possessividade do marido. Se DiMaggio foi um acidente na vida de Marilyn, para ele a loira representou a mulher de sua vida: após a morte de Marilyn, ele enviou flores para seu túmulo três vezes por semana, durante vinte anos.

Após DiMaggio, do qual Marilyn teria dito possuir “jock brain” (gíria intraduzível ao pé da letra, mas aproxima-se de “mais músculo que cérebro”), o próximo marido foi o avesso: um dos maiores cérebros norte-americanos, o escritor e dramaturgo Arthur Miller, autor de The Crucible (no Brasil, As Bruxas de Salem), e A Morte do Caixeiro Viajante, entre outras obras.  Arthur era judeu, e Marilyn converteu-se ao judaísmo para casar-se com o escritor em 1956. A relação dos dois sempre pareceu exótica aos olhos do círculo literário de Miller, que a consideravam apenas um bibelô. O próprio Miller assim descreveu o que via nela: “ela era uma luz de mistério e encantamento, um paradoxo, por um momento parecia ter saído das ruas e em outro tomada por um lirismo e poesia que poucas pessoas retém depois da adolescência”.  Marilyn parece ter sido realmente apaixonada por Miller, por seu carisma e genialidade – além de sua religião, também abraçou sua família e seu círculo de amigos, colocando em risco sua própria carreira (Miller estava na mira das agências secretas americanas por suas visões esquerdistas). Mas, como os outros, este casamento também acabou em divórcio em 1961, após a perda de um bebê e a descoberta por parte dela de um diário escrito por Miller, onde ele teria se referido a ela de forma depreciativa, e casos extraconjugais de ambas as partes.

Depois de um intelectual como Miller, restava o homem mais poderoso do mundo. Os anos finais de Marilyn foram marcados pelo sobrenome Kennedy (além do presidente John F., provavelmente também seu irmão Robert). O exato grau de envolvimento dela com o homem mais poderoso do mundo ainda é motivo de inúmeras teorias conspiratórias, mas o certo é que Kennedy e Marilyn já mantinham contato desde a época em que era casada com DiMaggio. Com certeza a relação foi extremamente destrutiva para Marilyn, e de uma forma ou de outra esteve conectada à sua morte por aparente overdose de barbitúricos em 1962, poucos meses depois do célebre “Happy Birthday, Mr. President” e pouco mais de um ano antes da morte do próprio Kennedy no atentado em Dallas. Acidente, suicídio ou assassinato… de qualquer modo, a morte de Marilyn foi tão insólita quanto sua própria vida.

A verdadeira Norma Jean, ou Marilyn Monroe, permanece um mistério até hoje: por ter morrido jovem, com muitos segredos não revelados e em uma época onde a vida das celebridades ainda era mais mítica do que devassada, muito de sua biografia é especulativa. Outros homens extraordinários, como Marlon Brando, alegavam ter mantido algum tipo de relacionamento com ela. Marilyn não foi apenas uma boneca falante: suas interpretações, principalmente as mais tardias (depois do casamento com Miller, por exemplo), eram sensivelmente mais aperfeiçoadas – e se ela representou quase que um único papel em toda a carreira, o fez de modo inigualável. Marilyn viveu uma existência muito intensa, exuberante, a mortalidade desafiando a imortalidade (“uma vela ao vento” como descreveu Elton John na música Candle in the Wind).

Reza a lenda que a personagem Sininho (Tinker Bell) da versão da Disney para Peter Pan, foi desenhada a partir da imagem de Marilyn. Apropriadamente, Norma Jean viveu toda sua vida como um símbolo de luminosidade – e descobriu sua Terra do Nunca, onde nunca se envelhece, na imortalidade dos mitos. Mas, tristemente, jamais encontrou seu Peter Pan.

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3 respostas para Os homens de Marilyn

  1. Greize disse:

    Adorei, amo biografias, consegui ler a do Chatô, uns anos atrás, se consegui ele consigo todos, muito intenso e ao mesmo tempo tenso, porque o homem fez muito e o Brasil não sabe nada dele.Sobre Marilyn, tudo que li a respeito dela sempre foi numa nuance triste, e melancólica!Excelente texto!

  2. NADIA CRUZ disse:

    Como encarcerar o vento na prisão?
    Como manter uma onda sobre a areia?
    Assim era Marilyn, talvez tenha nascido numa época errada, ou nunca teve a consciência que era importante e tinha realmente valor e talento…
    Pena, pois se deixou levar pelo mundo masculino, e acabou partindo cedo demais…
    Abração!
    Nádia

  3. Alê disse:

    SER MULHER

    Ah, ser mulher!

    Ser mulher é ver o mundo com doçura,
    É admirar a beleza da vida com romantismo.
    É desejar o indesejável.
    É buscar o impossível.

    O poder de uma mulher está em seu instinto
    Porque a mulher tem o dom de ter um filho,
    E cuidar de vários outros filhos que não são seus.

    Ah, as mulheres!
    Ainda que sensíveis
    Mulheres conseguem ser extremamente fortes
    Mesmo quando todos pensam que não há mais forças.

    Mulheres cuidam de feridas e feridos
    E sabem que um beijo e um abraço
    Podem salvar uma vida,
    Ou curar um coração partido.

    Mulheres são vaidosas,
    Mas não deixam que suas vaidades
    Suplantem seus ideais.

    Muitas mulheres mudaram o rumo
    E a história da humanidade
    Transformando o mundo
    Em um lugar melhor.

    A mulher tem a graça de tornar a vida alegre e colorida,
    E ela pode fazer tudo isto quantas vezes quiser
    Ser mulher é gostar de ser mulher
    E ser indiscutivelmente feliz
    E orgulhosa por isso.

    – Brunna Paese –

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