Sapatos Velhos

É! Talvez eu seja simplesmente
Como um sapato velho
Mas ainda sirvo, se você quiser
Basta você me calçar
Que eu aqueço o frio
Dos seus pés…

(“Sapato Velho”, brilhando na voz do Roupa Nova)

Por que é que quase todo ser humano tem inveja de si mesmo quando jovem? “Ah, meus dezoito anos… “ah, queria ter o corpo de ontem com a cabeça de hoje”… etc.  Algumas mulheres mais apegadas ao físico, em especial, tornam-se viúvas perpétuas de sua própria versão teen.

Oh, mas será? Será que, como tentam nos convencer os comerciais de refrigerante, a vida é bem melhor com o vigor físico das primeiras décadas de vida? Como dizia o Lupicínio Rodrigues, “esses moços, pobres moços, ah se soubessem o que eu sei….”. Não há que se manter uma eterna redoma sobre os anos perdidos da mocidade e suspirar por eles em queixumes de pura inércia vital. Depois de uma certa idade, não se corre mais cem metros sem desmaiar ou entrar em coma? É, acontece. Mas quando isso era possível, não sabíamos dar a um beijo na boca o sabor que ele pode ter;  nem sabíamos beber na mansa embriaguez do encantamento as palavras cúmplices de uma conversa interminável em uma noite eterna.

Cada fase da vida permite momentos únicos, que nem sempre são possíveis nas outras. E a memória pode pregar algumas peças: a nostalgia faz esquecer muitas das angústias de ser criança ou adolescente, em detrimento das angústias do momento presente. A vantagem das fases posteriores é o acúmulo de memória, experiência e refinamento oriundo das fases anteriores – o que permite desfrutar mais e melhor daqueles pequenos momentos dos quais, enfim, é construída a verdadeira felicidade. Ocasionalmente, confunde-se a alegria juvenil com a felicidade, mas a primeira é apenas uma sala da casa imensa que é a segunda, cheia de corredores e alguns cantos escuros – mas mesmo assim muito maior e acolhedora do que a primeira.

A vida tem menos certezas do que imaginamos – trabalhando em um hospital, posso constatar que não há nem mesmo uma associação tão óbvia entre saúde e juventude, até porque saúde é um conceito muito maior que ausência de doença. Beleza? O que é beleza? Jovens são belos pelo parâmetro de beleza juvenil, ponto. Nada é mais ou menos belo na natureza por ser mais ou menos jovem. Rugas não são belas? Por quê? Uma cachoeira de mil anos, que escavou à força uma trilha áspera entre as pedras é menos bela que o jovem filete de ribeirão que recém começa a fazer o mesmo sobre as rochas íntegras? O magnífico hotel de um emirado árabe é belo em sua própria categoria de assombro tecnológico e arquitetônico, mas não é mais ou menos belo que um castelo ancestral da Baviera.

O calor das brasas é mais confortante e duradouro que o da fogueira. Aves de asas feridas reaprendem a voar: voam menos alto, mas com mais segurança. E de metáfora em metáfora, acabamos compreendendo que todos os sofrimentos, todas as decepções, as angústias e os castelos desmoronados, todas as coisas que um dia pareceram sem sentido repentinamente fazem-se pontes pelas quais se atravessa até a margem desconhecida do rio: o lugar que não se sabia belo porque ainda era ausente, tanto como serão belos outros lugares ainda hoje ausentes. Ah, Pablo Neruda disse bem melhor…:

Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.
.

Com sapatos velhos e reconfortantes, sapatos que já trilharam tantos caminhos e venceram tantas pedras, escalam-se montes que ficam escondidos além das trilhas cotidianas, justamente aqueles montes que propiciam a melhor e mais serena visão do horizonte…

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Uma resposta para Sapatos Velhos

  1. Gi Cano disse:

    Pôxa Arlei, que texto lindo!
    Eu estava justamente pensando nisso essa semana, como dá saudade de algumas coisas…mas como não queria voltar no tempo de jeito nenhum, rs
    Ai as agonias, as dores, tudo era muito intenso, provavelmente fruto da imaturidade, o hoje é muito melhor, com as rugas e tudo o mais, rs

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