De Sol e Morangos

Somos, como lembrava Carl Sagan, poeira de estrelas… todos nós, reis ou mendigos, somos insignificantes na escala cósmica. Mas do alto do pedestal de nosso universo interior, não percebemos bem essa dimensão das coisas – e consideramos que uma vida humana é uma enormidade, e que os eventos dramáticos que pontuam nossa vida são tragédias de escuridão infinita.

A natureza nos é indiferente, na maior parte do tempo. Somos uma espécie biológica a mais no ciclo do planeta, e mesmo levando em conta o grande estrago que (infelizmente) somos capazes de fazer no atual ecossistema, uma ordem universal das coisas já existia antes de nós e vai continuar existindo depois que o último humano deixar de respirar. Assim, no atual panorama do planeta Terra, nenhuma tempestade é eterna, e sempre, sempre o sol volta a brilhar mesmo depois do mais devastador dos furacões, como se nada houvesse acontecido.

George Harrison (será que não era ele o mais talentoso dos Beatles?…) compôs algumas obras primas entre 1968 e 1973, algumas incluídas nos últimos álbuns dos Beatles, outras em seus primeiros álbuns solo. Dentre estas, a esperançosa canção Here Comes the Sun:

Here comes the sun,
Here comes the sun, and I say
It’s all right
Little darling
It’s been a long cold lonely winter
Little darling
It feels like years since it’s been here

Como metáfora, “aí vem o sol, depois de um longo e gelado inverno” teria sido usada para expressar o estado de otimismo de Harrison no final dos anos 60, após uma grande crise com os Beatles e em sua vida pessoal. A letra e o toque de guitarra bem ao estilo Harrison sugerem  alívio e esperança. É uma das canções mais populares dos Beatles (tendo recebido inclusive uma versão em português feita por Lulu Santos, Lá vem o Sol). A canção endossa com uma singela melodia em Lá maior um ditado popular e universal: “depois da tempestade, sempre vem a bonança”; ou seu equivalente “não há tempestade que dure para sempre”.

Os povos antigos aprenderam com a observação da natureza a incorporar em suas culturas um pouco da serenidade e da compreensão do caráter cíclico vida, em especial os orientais. O sol sempre brilha depois das tempestades – e às vezes mais forte e mais belo POR CAUSA das tempestades que o antecederam. Por isso lembro aqui uma fábula japonesa que li em um belo livro para crianças, recontada pelo grande Rubem Alves, chamada singelamente de “Morangos”.

O livro (Estórias para Pequenos e Grandes), infelizmente, se perdeu em alguma mudança… mas a fábula é curta e nunca mais saiu da minha cabeça. Mesmo sem conseguir reproduzir o belo texto do Rubem Alves, vou tentar recontar sua essência:

“Certa vez, um homem andava em meio à selva quando deparou-se com um leão. Incapaz de outra coisa, desatou a correr da fera, que seguia rugindo em seu encalço. Ferido pelas pedras da estrada e pela vegetação que lhe cortava o rosto, e cansado da perseguição implacável, não viu por onde ia e caiu em um abismo. Por sorte, na queda, agarrou-se a um arbusto que crescia no desfiladeiro, e assim conseguiu apoiar os pés em uma saliência da rocha. Olhando para cima, o homem ferido viu o leão que rondava a beira do penhasco, impossibilitando que o homem voltasse por aquele caminho. Então, acuado, com frio, cansado e ferido, o homem maldisse sua sorte. De repente, reparou melhor no arbusto que salvara sua vida – era um pé de morangos, que exibia dois belos e maduros frutos prontos para serem colhidos. Extasiado com o momento, com o convite para aquela maravilha, ele esqueceu de todo o resto e provou os morangos – descobrindo então que eram os morangos mais tenros e saborosos que já provara em toda a vida. E o homem riu de compreender que na vida podem existir coisas tão maravilhosas…”

Sempre haverá sol e morangos.

Anúncios
Esse post foi publicado em Música. Bookmark o link permanente.

2 respostas para De Sol e Morangos

  1. Vanessa disse:

    Adoro Beatles, e adoro essa música.
    Verdade tudo o que disseste. E ainda bem, assim mantemos as esperanças quando tudo está ruim.

  2. Natacha Lamounier disse:

    Já tinha vista esta parábola ou sei lah o que. Muito bonita e verdadeira.
    Outros artistas já haviam falando do sol, como o the doors na musica waiting for the sun.
    incrivel como coisas da natureza influenciam os homens e sao tao comuns nas musicas e poemas, além do sol, as estrelas tambem sao bastante citadas. bem, o sol eh uma estrela, e teve ate algum poeta que disse q todo poema tem q ter estrela para ser um poema, jah ouviu falar nisso? a lua tbm me fascina (escrevi certo??) , mas a lua jah trata dos poetas bebados e apaixonados. acho que vc deveria falar deles um dia.
    adoro oq vc escreve…e e eu escrevo tudo errado
    enfim,
    bjus.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s