… e Rebecca era brasileira…!!!

A escritora inglesa Daphne du Maurier escreveu seu melhor romance, “Rebecca”, em 1938 – o livro fez  um enorme sucesso em todo o mundo, inspirando inclusive o filme de mesmo nome, dirigido por  Alfred Hitchcock, que ganhou o Oscar em 1940.

“Rebecca” é uma senhora história, um romance daqueles de nunca esquecer – pode ter alguns clichês, mas é um enredo muito bem construído: é escrito em primeira pessoa por uma mulher jovem, que acaba de se casar com um nobre inglês (Max), viúvo de sua primeira esposa- a Rebecca do título, falecida em um acidente no mar. A princípio tudo são rosas, incluindo um breve romance sob a paisagem de Monte Carlo- mas quando, passada a lua-de-mel, o casal volta à propriedade de Max (uma mansão à beira-mar chamada Manderley) a narradora descobre que tudo ali lembra Rebecca, que sua presença está em toda a parte.

Todos fazem questão de lembrar que Rebecca era uma mulher linda e formidável, poderosa, exuberante. Todos os empregados ainda amam a ex-patroa, todos falam dela o tempo todo, seu quarto ainda está lacrado, a decoração é a mesma que ela deixou, até os cães dela arrastam-se pela casa à sua procura: é como se algum modo ela estivesse viva, porque ninguém a quer deixar morrer. E, naturalmente, a nova esposa enfrenta os olhares tortos daqueles que amavam muito mais a primeira. Em certa altura, parece que até mesmo Max não consegue esquecer a lenda que foi sua primeira mulher.

Mas não fica apenas nisso… a história tem uma densidade psicológica envolvente, um clima de sobrenatural (“…quando a brisa sopra do oceano, é como se ela renascesse outra vez…”), romance e… um dos melhores finais que eu já li em qualquer obra literária, digno de ficar de boca aberta por alguns dias.

Pausa. Rebecca é um romance surpreendente… mas agora vem o mais surpreendente.

Ao ler Rebecca pela primeira vez, senti uma sensação de familiaridade… então lembrei de uma telenovela da rede Globo, dos anos 70, chamada “A Sucessora” (com Suzana Vieira), muito parecida. Eu lembrava muito vagamente da trama, e por isso pensei o seguinte: “mas que cara de pau da Rede Globo, fazer uma telenovela baseada em um romance e um filme tão conhecidos”.  Alguns anos mais tarde, por acaso, descobri como as pontas do nó se atam… e a verdade sobre quem imitou quem é tão surpreendente quanto o final do livro.

A escritora brasileira Carolina Nabuco escreveu seu romance “A Sucessora” em 1934, descrevendo a angústia da segunda mulher de um rico fazendeiro, ao descobrir que tudo em sua fazenda, inclusive os empregados, lembra e venera a falecida – como se um fantasma da primeira mulher assombrasse esta que veio sucedê-la, esta sucessora. Com esperança de ver seu romance alcançar maior celebridade, a própria Carolina (que era uma talentosa tradutora) traduziu-o para o inglês e enviou a tradução para uma agência literária em Nova York, da qual não obteve resposta. Carolina conformou-se.  Três anos depois… o romance Rebecca, de Daphne du Maurier, explodia em sucesso no mundo todo.

Assim que Carolina, estupenfata, leu o romance inglês, escreveu para a agência de Nova York, que negou qualquer envolvimento em um suposto plágio, mas Carolina descobriu que cópias da tradução efetivamente haviam chegado à Inglaterra. Mesmo com alguns questionamentos de críticos literários da época, não havia ainda instrumentos jurídicos internacionais eficientes para levar adiante uma acusação de plágio, e Daphne du Maurier negou vigorosamente que tivesse baseado sua obra no romance de Nabuco, mesmo com algumas evidências em contrário. A única iniciativa para um acerto com Carolina Nabuco veio da United Artists, que em 1940 lançou o filme Rebecca mundialmente, e temendo complicações jurídicas ofereceu um acordo financeiro com Carolina Nabuco – mas o acordo não chegou a ser assinado, e Carolina jamais conseguiu nada com a suspeita do plágio.

Não li o texto integral de “A Sucessora”, mas o que li sobre a obra me coloca ao lado da versão de Carolina: é semelhança demais… e levando em conta o quanto a literatura brasileira era considerada de quinta categoria na época, não é de se duvidar que alguém possa ter pensado que jamais se importariam se um romancezinho sul americano pouco conhecido fosse plagiado por uma grande escritora inglesa.

Não obstante, faço justiça: mesmo que a idéia tenha sido surrupiada, “Rebecca” é muito bem escrito, as descrições geográficas e o ambiente psicológico sufocante são composições dignas de uma grande escritora. Rebecca ecoa a grande tradição inglesa de unir o romântico ao fantástico, uma tradição do qual “Morro dos Ventos Uivantes” é a expressão máxima. Hitchcock era, sem dúvida, o mais indicado para dirigir um filme destes, e por sinal o filme também é excelente.

Bom, recomendo a leitura de Rebecca… garanto que não haverá decepções. É um dos livros mais populares de todos os tempos, patrimônio da cultura best-seller mundial. Mas talvez aqui caiba (de um modo bem melhor) aquele lema que os ufanistas às vezes tentam aplicar à Santos Dumont: “e tudo começou com uma brasileira…”

Anúncios
Esse post foi publicado em Cinema, Literatura. Bookmark o link permanente.

7 respostas para … e Rebecca era brasileira…!!!

  1. Rebecca Borges Santos disse:

    Amei saber que tem um bom livro, com um nome tão lindo: Rebecca.
    Modéstia a parte, esse nome é lindo…e ainda mais amei saber que pode ter sido plagiado de uma escritora brasileira, não por ser plágio ,mas porque só comprova que o povo brasileiro é criativo e inteligente.
    Fiquei morrendo de vontade de ler ‘Rebecca’ . Morro dos Ventos Uivantes, por coincidência, estou lendo, apesar de não estar gostando, mas creio que ‘Rebecca’ deve ser bem interessante…onde será que eu o encontro?
    Parabéns pelo blog!
    Rebecca Borges=)

  2. Vanessa disse:

    Arlei, eu vim te fazer a mesma pergunta da leitora acima: onde eu encontro?
    Teus textos sempre interessantes… fiquei com muita vontade de ler o livro.

    Abraço, Vanessa.

    • arleiro disse:

      Rebecca e Vanessa:

      Há várias edições de Rebecca, inclusive uma que foi lançada pela Editora Abril na Coleção Grandes Sucessos, dos anos 80 (o meu exemplar é este). Acho que em quase todos os sebos que fui, eu vi cópias deste livro, ele é bem popular. Não sei as cidades de vocês, mas se não encontrarem dêem uma olhada no link abaixo, da “Estante Virtual”, que é uma empresa que disponibiliza na internet acervos de sebos de todo o Brasil (podem inclusive comprar pelo site, é seguro). O link da pesquisa por Rebecca é o seguinte:

      http://www.estantevirtual.com.br/q/rebecca-du-maurier

      Como podem ver, há livrarias de várias cidades do Brasil. E preços bons. Espero que gostem, boa leitura!

      Abração

  3. Vanessa disse:

    Brigada Arlei!
    Com certeza vou atrás dele!

  4. Larissa disse:

    Rebecca pode até ter sido inspirado no livro da brasileira, mas a ideia original n pertence a ela. José de Alencar tem um livro cujo titulo é Encarnação que versa sobre o mesmo tema. Talvez a brasileira conhecesse a obra de Alencar, talvez não… Não conheço os outros dois, mas o de Alencar é certamente uma obra prima.

    • arleiro disse:

      Larissa;
      é provável que Carolina Nabuco tenha lido o livro do Alencar, sim. Mas, à parte semelhanças no enredo (os quartos fechados, por exemplo), a atmosfera é mais tensa nos dois livros subsequentes. Alencar também insinuou um quê de misticismo, de espiritualismo na trama, o que não acontece nas outras duas… em literatura, tudo é reciclado, o próṕrio Shakespeare fez isso em quase todas as suas peças, de Romeu e Julieta a Hamlet… enfim, para mim o certo é que “Rebecca” foi mais descaradamente emprestada de “A Sucessora”. E ambos valem a pena. Abração, obrigado pelo comentário.

  5. REBECKA disse:

    AMEI DESCOBRIR UM FILME COM O MEU NOME PERFEITO.É MELHOR QUE OS DE SHAKESPIERE

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s