O Rei era um homem de verdade

    Escolher é um jogo com duas regrinhas: perdem-se algumas coisas e abrem-se os braços para outras. As crianças têm muita dificuldade em realizar escolhas, porque não compreendem bem a regra da perda. Crianças crescidas também sofrem a angústia da escolha, porque não se permitiram sofrer a maturidade, e adquirir a serenidade que ela proporciona. Depois de algum tempo, e algum inevitável sofrimento, entende-se que as perdas fazem parte da vida na mesma medida em que os ganhos. Ao contrário do que possa parecer, ser feliz está muito mais relacionado ao modo como lidamos com as perdas do que com os ganhos.

    Esta breve introdução à la Lya Luft (recomendo seu livro Perdas e Ganhos, por sinal) é para manifestar minha admiração por aqueles que tomam decisões que desafiam o dito senso comum, e permitem-se perdas aparentemente inacreditáveis em nome do ganho mais singelo (e mais precioso) de todos: o coração de outro ser humano.

    1936. Edward VIII é o Rei da Inglaterra. Wallis Simpson é uma socialite americana, duas vezes divorciada, que frequentava a corte britânica. Edward, primogênito de seu pai, foi preparado por toda a vida para ser Rei, o Rei da Inglaterra, em uma época em que este título ainda exalava poder e arrastava consigo o orgulho e a vaidade (além das compensações materiais) de ser um dos homens mais poderosos do mundo. Mas Edward apaixonou-se pela bela e ousada americana, plebéia, divorciada… da mesma forma que incontáveis homens poderosos antes e depois dele se apaixonaram por mulheres além do seu círculo de autoridade (porque os poderosos são tão humanos quanto nós). A imensa, quase unânime maioria destes homens, escolheria simplesmente persistir em seu destino glorioso, com todas as benesses que o acompanham, e manter a amada discreta e servilmente a seu lado. Inúmeras amantes de reis e presidentes viveram e vivem esta vida, que a elas quase sempre soa dolorosa e imperfeita.

    Edward queria ficar com Wallis, mas não aceitava relegá-la a um papel de concubina. O parlamento inglês lhe colocou contra a parede: era inaceitável que o Rei casasse com uma plebéia que ia para seu terceiro casamento. Edward foi submetido a um impasse, e agiu como um homem, fazendo uma escolha: abdicou do trono da Inglaterra para poder casar, oficial e inquestionavelmente, com Wallis Simpson. Seu gesto chocou o mundo da época, causando um rebuliço na aristocracia (imagina se a moda pega…!) e na geopolítica mundial. Notavelmente, ele o fez não por si próprio, mas por ela, para dar-lhe a dignidade de esposa e não a pecha de amante. Edward, cujo coração já era de Simpson, deu a ela o maior presente que ainda poderia dar (e o único que realmente importava): a confissão de que ela era a sua escolha, ela era o ganho que compensava todas as demais perdas.

    O Rei da Inglaterra podia dar quase tudo a Wallis Simpson, até estrelas que seus astrônomos descobrissem e que fossem batizadas com seu nome, mansões, quilômetros de alta-costura, até mesmo um pequeno país na África ou na Ásia. Mas deu o único presente que realmente lhe causaria uma perda. O Rei passou o trono a seu irmão mais novo, tomou Wallis nos braços, acenou sem constrangimento para a multidão, recebeu um título de duque (que ninguém é de ferro na aristocracia…) e foi viver por mais trinta e tantos anos com a mulher de sua vida no exílio, enfrentando com altivez o eterno desprezo do resto da família real. Alegam quase todas as fontes que o casal viveu feliz, muito mais que a maioria dos soberanos da Europa, e em um amor profundo e verdadeiro até que a morte os separasse.

    Amar não exige nada, além de um coração aberto… amar não é uma escolha. É impossível escolher a quem se vai amar… mas permitir-se viver um amor plenamente implica em escolhas, sim – ganhos maravilhosos e perdas inevitáveis. Pode-se viver um amor pela metade? Discussões metafísicas à parte, até acredito que sim… é o amor de mornidão que cabe à maior parte das pessoas, o amor que é inicialmente bem-vindo porque não exige escolhas – com um colega de trabalho, com alguém que a família aprove, que não exija muitas mudanças de vida, que não exija viagens ou sacrifícios… ainda será um amor -mas um amor que normalmente acaba morrendo esturricado pelo sol a pino, que incide diretamente em tudo o que fica em cima do muro.

    A maioria das pessoas foge dos amores que exigem escolhas, que implicam em perdas – não importando os ganhos. Os que não o fazem são chamados de loucos, ou, em uma perspectiva um pouco mais sutil, românticos. Há muitos anos atrás, eu cheguei a pensar que loucuras de amor significassem imaturidade, falta de bom senso. Hoje… claro que há atos de desatino instintivo que não merecem este parágrafo, tolices impensadas e inúteis… mas hoje penso que só aqueles com grande maturidade para aceitar perdas são capazes de fazer as escolhas mais arriscadas (as que mais valem a pena). E, muito mais do que aqueles que arrebentam sacos de areia em academias, penso que homens de verdade são os que fazem escolhas e assumem as perdas que elas acarretam.

   Viva este Rei que a Inglaterra não teve: apesar de várias posições controversas que ele assumiu durante a vida, eu o saúdo com a simpatia dos que fariam o mesmo. Amar é viver. Sem amor, que nos resta?

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