Eu não sou dentista

Em 1992, concluí o curso superior em Odontologia, e em 1996 uma especialização em Periodontia. Como profissão, exerço a função de cirurgião-dentista, especialista em Periodontia. Mas eu não sou um cirurgião-dentista.

Isso não resume o que eu sou. É um hábito tão banal que não nos damos conta da carga de preconceito que ele encerra: as pessoas nos falam que conheceram alguém, e instintivamente perguntamos “e o que ele é”, para ouvir como resposta “ele é um médico”, “ele é um empresário”, “ele é um advogado”.

Sou muitas coisas, ser dentista é uma delas, apenas uma delas, talvez nem mesmo a mais importante. Mas certamente muitas e muitas pessoas constroem suas impressões de mim, alteram até o modo de tratamento e já definem alguns conceitos, apenas ao saber minha profissão. É um dentista, portanto age como se espera de um dentista, gosta das coisas que os dentistas gostam, tem a posição social e financeira que os dentistas deveriam ter, tem o olhar e os interesses que os dentistas costumam ter.

Você, leitora e leitor, não “é uma arquiteta”, você não “é uma advogada”, você não “é um administrador”, você não “é um jornalista”, você não “é uma psiquiatra”. Você, assim como eu, é um universo vasto e riquíssimo, único, cheio de segredos e surpresas, pleno de defeitos inimagináveis e manias pessoais, capaz de produzir coisas que encantariam outras pessoas, e sofrendo com a necessidade de ter de sofregar alguns impulsos que fazem mal a si ou aos outros. Você faz coisas que nada tem a ver com o universo limitado de sua vida profissional, e alguns de vocês até consideram estas coisas um sonho jamais realizado. Então, vocês não são, e eu nunca os considero assim, um mero representante de uma categoria profissional, um sócio numerado de um clube de ofício, um número serial de sua ordem ou conselho de classe.

Amo ouvir os sonhos profundos das pessoas, conhecê-las de verdade. Gosto de esquecer por completo o que elas fazem para ganhar a vida, e perguntar que filmes mais gostaram de assistir, que música lhes toca, descobrir gostos em comum, aprender com experiências inusitadas, rir de desventuras e aventuras, ver o mágico do humano que há por trás de cada um.

Amo contar histórias… tenho uma memória muito boa, e um apetite voraz por tudo o que está escrito, de rótulo de xampu a JamesJoyce. Sei coisas que nem lembro que sei, sei coisas pouco profundas sobre quase tudo que passou à frente dos meus olhos. Sou um pouco arredio a expressões muito generalistas de afeição, de grandes turbilhões de alegria vazia, de convenções sociais, de máscaras e fachadas. Gosto de falar, gosto de enternecer, de dividir o universo que cabe dentro desta mente irriquieta, gosto de aprender e ensinar, gosto de cativar e ser cativado, de aprender a difícil arte de confiar em alguém, e merecer a confiança destas pesoas.

Em minha infância, fascinado pelos livros e pelas letras, sonhei abobadamente em ser um escritor, assim como meus amigos sonhavam em ser Zico ou Falcão. Depois, na metade da adolescência, descobri o mundo da música e fui fascinado por ela, pelas possibilidades de traduzir e expressar o mundo que ela oferece, e (óbvio) pelo reconhecimento que ela me proporcionava ao meu esforço em mergulhar no seu oceano. De qualquer modo, sempre fui um curioso, um inquieto pesquisador do universo, das artes e da beleza estética. Então, abruptamente, fui forçado a abandonar as partituras e a escolher uma profissão, um portal sério pelo qual eu poderia entrar no mundo que consideravam adequado para mim, um mundo onde eu ganharia dinheiro e seria feliz de um modo seguro e convencional, à moda da classe média da época. Poderia ter escolhido qualquer coisa, porque os sonhos desfeitos não tornavam nada mais atraente. Poderia ter feito Medicina, um desejo secreto de meu pai… por mero acidente, por uma decisão momentânea no dia da inscrição para o vestibular, tornei-me um dentista.

A Odontologia me trouxe muitos bons momentos, a satisfação de melhorar a vida de algumas pessoas é a maior delas. Mas causou grandes momentos de angústia, de crises de identidade e de inadequação ao meio profissional em que era forçado a me inserir. Com o tempo, aprendi a sobreviver e a dar o melhor de mim, como sempre procuro fazer – mas jamais fui um tal apaixonado por minha profissão que pudesse declarar sem outras idiossincrasias “eu sou um dentista!”. Sou um profissional que trabalha para atender o desejo de outros, recebendo remuneração em troca. Como a secretária do escritório da esquina. Ponto.

Recuso peremptoriamente o título de “doutor”– eu não fiz e nem pretendo fazer doutorado, ao menos não em Odontologia. Vejo com olhos tristes o fascínio que minha profissão ainda exerce na sociedade, e que muitos de meus colegas não tem o menor pudor em fomentar, de tal modo que um professor de Matemática parece estar em alguma casta inferior. Do mesmo modo, vejo com decepção a pequena guerrilha que minha profissão trava com outras especialidades da saúde, os médicos em especial.

Meu nome é Arlei, um pouco de mim está nas páginas deste blog porque esta expressão me faz bem e parece agradar a algumas pessoas. Mas assim como não sou apenas um dentista, também não sou  apenas o autor dos textos deste blog. Não sou apenas a imagem que está no “quem sou eu”, minha aparência externa é dependente do tempo e de muitos outros fatores. Quem eu sou realmente não caberia naquela seção, e necessitaria de atualizações constantes demais para ser viável. Reservo o que considero melhor de mim para muito poucas pessoas em quem confio, às quais tento retribuir a confiança- e espero que meus amigos sempre possam entender que, apesar de minhas muitas limitações, sempre tento ser o melhor amigo que posso.

Se perguntarem quem é esse cara… então que digam “é alguém que ainda brinca de sonhar”, e se acharem necessário podem acrescentar “às vezes também é um dentista”.

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4 respostas para Eu não sou dentista

  1. Tati disse:

    Simples e profundo! Amei, parabéns belo texto.

  2. Lys disse:

    Você simplesmente é ARLEI!!!

  3. Cris disse:

    Senti um certo incomodo em vc. Um desabafo por alguma coisa; como se estivesse respirando depois de um tempo retendo o ar.
    Acho que foi apenas impressão da leitura que fiz de uma parte desse Arlei tão plural que se deixa ser também escritor.

    Sou apenas leitora, mas é um prazer conhecer esse lado que vc mostra por aqui.

    Beijo.

  4. Gi Cano disse:

    Eu me identifico totalmente com o seu post!
    Imagina o que é então qdo vc responde a essa pergunta com um “eu não fiz/terminei a faculdade” e a pessoa pergunta se não vou voltar a estudar e eu digo que só qdo eu encontrar algo que realmente me identifique….e daí o assunto morre!!!
    Tudo são rótulos hoje em dia, se vc não tem um vc não é ninguém.
    Não vou aqui menosprezar o curso superior, mas eu acredito sim que sou muito mais que um diploma na mão poderia dizer de mim, eu sou muito mais que uma profissional de uma determinada área e justamente não sou profissional de área nenhuma até hoje pq eu não quiz brigar comigo mesma, me agredir ao concluir um curso com o qual não me identifiquei ou entrar e outro qqer só pra dizer que o fiz.
    Ainda sofro um pouco pq assim como vc falou no post anterior, hoje em dia o mundo gira em torno do que vc tem e do que vc faz e não de quem vc é.
    É difícil lidar com isso, com o sentimento que isso causa (como se vc não fosse nada, não fosse importante), mas acho que estou conseguindo, estou nadando contra a corrente eu sei, ela forte, tenta me empurrar mas eu vou vencer, rs
    Obrigada pelo post, é bom saber que não estou sozinha.

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