O Demônio do Dia-a-Dia, de Solomon, Vinícius e Chopin

Nos mosteiros medievais, chamava-se a melancolia de “O Demônio do Meio Dia”, porque neste horário os monges tinham a tendência a perder disposição para qualquer atividade e a ver sentido na vida. No final do século XX, a expressão “Demônio do Meio Dia” passou a ser usada como um sinônimo para a Depressão, principalmente a partir da obra homônima do jornalista americano Andrew Solomon, que trata da visão pessoal de quem enfrenta a Depressão.

O próprio significado de “depressão” é um pouco mutante, e ainda há extensos debates sobre a natureza do problema. De toda discussão médica sobre distúrbios de humor até o momento, de todas as classificações e subclassificações, o conceito mais simplista é de que “depressão” enquanto doença é sentir-se triste sem motivo aparente (e o “aparente” aqui é a grande armadilha semântica).

Sem motivo aparente? Normalmente, isso leva em conta a opinião externa, segundo a qual um motivo aparente para tristeza teria de se encaixar em estereótipos como perda de familiares, ruína financeira, doença incurável… Mas às vezes o ser em questão acredita que a motivação existe, só é invisível aos outros. A tristeza de não sentir-se adequado ao local de trabalho,  ao estilo de vida, ao cônjuge, etc… parece tolice àqueles que acham que o depressivo não tem nada do que se queixar quando outros passam por maiores dificuldades.

E assim surge uma forma de tristeza peculiar, o  demônio do dia-a-dia… vivemos em uma sociedade com pressão para o consumo e busca por felicidade, que nos força a uma seletividade constante, e isso acaba refletindo-se em alvos não programados, não apenas materiais. Reavaliamos nossa vida muito mais do que faziam nossos antepassados. Assim, todos estamos sujeitos a encontrar motivos de instatisfação no cotidiano.

A psiquiatria estuda com afinco, há muitos anos, as desordens da bioquímica cerebral que predispõem a graves transtornos de humor. Não devo tecer comentários sobre este campo do conhecimento, porque não sou psiquiatra, embora já (sem constrangimentos em assumir) tenha sido  paciente de bons profissionais que muito me ajudaram a conduzir certos rumos da minha vida. Mas, por ter travado algumas quedas-de-braço com o Demônios de Meio Dia e Demônios do Dia a Dia, e com minhas experiências de vida, o que arrisco dizer é que muitos que padecem das tristezas cotidianas, sejam fruto da verdadeira doença Depressão ou não, prezam muito mais o conforto da compreensão do que as desajeitadas tentativas de ajudar a “alegrar” – que quase sempre provocam o efeito contrário.

Quando se está triste, quase sempre se tem a sensação de que a tristeza vai durar para sempre, mesmo sabendo que em algumas horas ela pode ir embora. Os Demônios tem armadilhas, e esta é a pior delas. Suas vítimas, mesmo com anos e anos de experiência ao contrário, sempre acreditam que aquele momento de tristeza não vai passar, e este é um sentimento muito poderoso e resistente à elucubrações mentais – por isso é mais eficientemente combatido com outros processos, incluindo os químicos. Tentar entender o porquê de estar triste e ficar pensando em maneiras de resolver uma suposta causa dela pode ser o caminho mais fácil para prorrogar ainda mais o sofrimento – e às vezes é exatamente isso que os outros, bem intencionados, tentam fazer…

Esta tristeza moderna, este demônio do dia-a-dia associado ao inconformismo e à inadequação, nem sempre é um transtorno de humor autêntico- este diagnóstico apenas um profissional é capaz de realizar.  Aqueles acometidos de tristezas repetitivas acabam estabelecendo suas próprias estratégias de sobrevivência (que podem envolver até o paradoxo de procurar a solidão em alguns momentos), mas geralmente são sensíveis à empatia e ao aconchego incondicional, aquele que não questiona e nem remexe nas feridas – o amor e o conforto de quem apenas lhe aceita. O próprio Solomon lembra em seu livro que o amor não impede a tristeza depressiva, mas ajuda a diminuir seus efeitos – quem desconhece esta verdade não compreende como alguém que diz amá-lo pode ficar triste, e às vezes essa incompreensão causa um afastamento que priva o entristecido do amor incondicional, quando ele mais precisa dele.

Há todo um lado compensatório em ser acometido desta tristeza, quando ela desencadeia transformações e mudanças de atitude. Mas há uma outra verdade insuspeita neste demônio do dia-a-dia: quem luta com ele vez em quando também sofre o efeito colateral de desfrutar com muito mais intensidade da beleza que se esconde nas sutilezas da vida. Vou deixar  que explique quem falou muito melhor que eu, o meu mestre poetinha Vinícius de Moares:

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão
(…)
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

E para finalizar, antes de ganhar puxões de orelha dos profissionais da área, ou de acharem que estou escrevendo auto-ajuda, deixo o lindíssimo Estudo Op. 10 número 3, de Chopin (chamado popularmente de “Tristesse“, e que o próprio Chopin considerou a melodia mais bela que compôs em toda a vida).

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5 respostas para O Demônio do Dia-a-Dia, de Solomon, Vinícius e Chopin

  1. Ruthlea disse:

    Oi Arlei,

    Seu texto não me pareceu auto-ajuda e tampouco te fez merecedor de puxões de orelha de profissionais de saúde. Conheço casos de depressivos e concordo que a pior coisa é fazer análise com a pessoa. Saber porque você está sofrendo vai amenizar o sofrimento? Mais importante para mim, é saber que não estou sozinha (ok, confesso, volta e meia o Demônio do meio-dia me atinge). E de fato, a tristeza é desagradável, mas se não fosse por ela, penso que seria meio difícil valorizar devidamente a alegria e a beleza das pequenas sutilezas.

    Como sempre, parabéns pelo excelente texto!

    Abraços!

  2. Walewska disse:

    Jamais iria te dar uns puxões de orelhas…o que escrevestes tampouco é auto-ajuda!!!Belíssimo texto,escrito certamente por quem já teve encontros com os Dêmonios do dia-a-dia e do meio-dia…por alguém que possui sensibilidade suficiente para entender a tristeza e o quanto é valioso o conforto da compreensão,do escutar,do aceitar…de quem sabe que “a tristeza tem sempre uma esperança”…Parabéns,teus textos sempre me encantam e me surpreendem!!Bjs!

  3. Sunflower disse:

    Que belo texto,sublime ,forte e verdadeiro.

    Ora me pego vindo aqui através de um outro blog e me dou com um texto maravilhoso
    que me expõe e me grita o que passo e o que sinto neste momento.
    Assim assolada pelo”Demonio do meio – dia”,em meio a uma tristeza sem precedentes, me encanto com tal leitura que me toca e me esclarece;que não seria auto-ajuda na minha ignorante concepção e sim um bálsamo a quem se consome de tristeza…
    Me deparo aqui (coincidentemente) com uma canção que ouvi repetidamente hoje pela manhã ,porque adoro – a e porque tentava me sublimar dentro da minha tristeza.(realmente é melhor ser alegre,mas nem sempre dá para ser).
    Obrigada pela leitura,parabéns pelo belíssimo texto.

    bjks sabor tardes de sol…

  4. Greize disse:

    Oi excelente texto.Se fosse auto ajuda, você começaria com 10 passos para ser feliz, ou por ai vai..rsr.Mto bom. Um relato aberto e claro sobre tristeza, algumas sérias que precisam de ajuda médica sim, outras que tdos na vida vão passar.Não tem como escapar da tristeza e também da alegria!!Abraços

  5. Marina disse:

    De fato, o efeito colateral benéfico de se conviver com o Demônio do Meio-Dia é a sensilbilidade que ele nos ensina. Arrisco dizer que só é possível entender uma poesia com uma pitada de tristeza no coração!

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