Inesquecível

Unforgettable, that’s what you are
Unforgettable though near or far
Like a song of love that clings to me
How the thought of you does things to me
Never before has someone been more
Unforgettable in every way
And forever more, that’s how you’ll stay
That’s why, darling, it’s incredible
That someone so unforgettable
Thinks that I am unforgettable too…

.

Um minuto, ensina-se no primário, tem sessenta segundos de igual duração – uma hora, sessenta minutos, um dia 24 horas. Embora a Física moderna já não considere o tempo como algo inflexível, e distorções de tempo/espaço já constituam possibilidades teóricas, em nosso cotidiano continua sendo assim – exceto no reino da memória.

(quantos minutos dura um beijo que se aguardou por mais de vinte anos e que perdurará para sempre no recanto mais querido da memória?)

Similar à dualidade do copo cheio/vazio, é possível dizer ao final de um dia que perdemos vinte e quatro horas de vida (o que às vezes realmente acontece) ou constatar que destas mesmas vinte e quatro horas podemos ter ganho minutos ou horas que valeram por dias e dias dos quais não lembraremos de um segundo qualquer. Os momentos inesquecíveis são uma conquista humana, nossa capacidade de enganar o tempo e roubar da futilidade das coisas físicas uma eternidade que é negada ao nosso corpo. Com estes momentos inesquecíveis se constrói uma vida inteira, tenha ela durado fisicamente vinte ou cem anos.

(quantas horas dura uma madrugada que se passou a acalentar nos braços o sono de uma pessoa tão preciosa; quão grande é a indiferença que se dedica à luz neon de um relógio quando as mãos traçam um trajeto infinito nessa pele?)

Então, eis que somos brindados com um momento em que se pode dizer “valeu a pena viver apenas para estar aqui” – e por mais que o mundo pare e os sentidos sejam encharcados da plenitude, fatalmente ele acabará, na linha inexorável e incessante do tempo cronológico. Mas a memória, tão tênue dom de uma espécie perdida em um planetinha deste cosmo infinito, não cede às imposições de forças tão poderosas que regem o universo inteiro: os momentos inesquecíveis revertem o fluxo de quarks, mésons, bósons e outras partículas de nomes grosseiros, ampliam o tempo até o infinito, distorcem o espaço para que qualquer coisa caiba inteira em um só cerrar de pálpebras.

(quanto tempo dura a pronúncia de uma frase sussurrada ao pé do ouvido, se ela vai ecoar indefinidademente mesmo entre a balbúrdia dos sons mais duros da mais árida das rotinas?)

A felicidade é uma brincadeira, é a ingênua expectativa de quem assiste a fogos de artifício explodindo em clarões efêmeros no céu que deixam rastros duradouros nas retinas. A felicidade é um sorriso feito de momentos inesquecíveis, eternas bolhas de sabão que nunca cessam de estourar e renascer.

(quanto tempo dura o instante em que dois ou três sonhos inconfessos são partilhados num sorriso, se o sabor do vinho que os lavou da crosta acinzentada do impossível nunca mais sairá do fundo das gargantas?)

O inesquecível é o que faz a eternidade.

(como UNFORGETTABLE de Irving Gordon, na voz de Nat King Cole)

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7 respostas para Inesquecível

  1. Kelly disse:

    Como sempre, um texto cheio de sensibilidade. E mais uma vez me vejo sem palavras para elogiar seus textos tão simples, mas profundos.
    Adorei!

  2. Ana disse:

    O tempo, realmente é muito dificil falar, escrever sobre tal assunto. Não só neste sentido poético da flexibilidade temporal em relação a determinados momentos, mas no real contexto humano, no qual todos nós estamos irrevogavelmente submetidos a este carrasco que teima em seu manter presente e imparcial em cada milésimo de segundo de nossas vidas. As vezes é quase triste pensar nisso, sinceramente um tema que prefiro evitar, é torturante pensar que estamos presos, submetidos ao tempo, independente do que fizermos permaneceremos eternamente condenados a ele. Mais uma prova de quão ínfimo é o ser humano. Resta um alento em saber que apesar de tudo isso alguns momentos são tão especiais que se alheiam ao tempo real, e constroem sua própria hora, particular e única dentro de nossas mentes e profundamente enraizadas em determinados sentimentos.

  3. Cris disse:

    Arlei, li três vezes seguidas seu texto. Não que tivesse me distraído no meio da leitura ou alguma coisa não tenha ficado clara, mas é que aqui, no seu blog, isso já aconteceu duas vezes.

    O texto termina e sinto-me órfã! Sinto que a sede não foi saciada ou quem sabe água fresca provocou mais sede, mais desejo de bebê-la. Mais ou menos por ai!

    Quando o coração fala e fala sozinho é sempre fascinante. Contagiante. Palavras que também já usei para comentar seus textos.
    Não sei quanto tempo durou a leitura que fiz aqui, mas certamente está percorrendo o eco de mim mesma por um tempo sem tempo; aquele que não se conta.

    Tudo quanto você escreveu leva-me a ter mais certeza de uma verdade absoluta que levo comigo: a eternidade é um fato e a minha eternidade é feita de momentos que não conto no tempo, mas que guardo em algum lugar divino que primitivamente chamamos de alma, mas vai além de !E vai comigo, vai percorrer minha eternidade.

    Seu texto é belíssimo. Muitas pessoas deveriam ler.
    Com os devidos créditos e referências, gostaria imensamente de publicar no meu blog. Ainda acredito na parábola da estrela-do-mar !
    Beijos!

    Em tempo: A música não poderia ser outra. Linda ! Seu coração cantou enquanto vc escrevia….rs

  4. Aline disse:

    Lindo texto. Recebi por e-mail, mas me senti na obrigação de vir aqui comentar porque ele foi lá na minha memória e tocou nos meus momentos inesquecíveis e os trouxe lá de seus depósitos aos meus pensamentos enquanto lia. Revolveu-me de uma maneira tão gostosa, e texto bom é aquele que consegue mexer com a gente, não é mesmo?

    Continue escrevendo para nosso deleite.

    Abs.

  5. Cris disse:

    Super obrigada!
    Já está publicado…rs
    beijo

  6. Fred disse:

    Tchê…

    Qualquer… QUALQUER pessoa que ler isso… vai ver um filme passar na frente dos olhos com os melhores momentos da própria jornada até agora! Muitíssimo bem escrito… como disse o Jeremy Irons certa vez, “Todos temos máquinas do tempo; às que nos levam ao passado, chamamos lembranças. Às que nos mostram o futuro, sonhos.”

    Grande abraço! Tá excelente teu blog!

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