Um casal que desafiou a lei

    Nós, ocidentais, às vezes acusamos outras culturas de bárbaras, nem sempre respeitando seus valores culturais – e o diferente sempre pode nos ensinar muito. Mas eu, pessoalmente, rejeito a posição de que o relativismo cultural possa justificar todo e qualquer ato (como a mutilação genital de meninas na Somália, por exemplo). Entre os costumes que me recuso a perdoar em nome dos preceitos culturais, está a proibição de casamentos entre pessoas de diferentes etnias ou religiões, comum em culturas do Oriente Médio. Mas… espere um pouco. Apenas no Oriente Médio? Oh, houve Hitler na Alemanha até 1945. Ah é? Só os nazistas? No estado norte-americano da Virginia, até 1967 uma lei degradante chamada “Ato da Integridade Racial” proibia o casamento entre pessoas de diferentes “raças”.

    Richard Loving era americano, de descendência européia e pele clara. Mildred Jeter era americana, de descendência africana e pele negra. Conheceram-se quando ele tinha 17 anos e ela 11. Sua amizade tornou-se um romance com o passar do tempo, e Mildred acabou grávida aos 18 anos. Como não podiam casar-se em seu estado natal, a Virginia, os dois viajaram para Washington e casaram-se lá, voltando depois para a Virginia.

     Cinco semanas após o casamento, foram acordados às duas da manhã pela polícia, que recebera “denúncias anônimas” e presos sob a acusação de violar a lei estadual sobre casamentos mistos, “conspirando contra a paz e dignidade da comunidade”. Foram condenados a 1 ano de prisão em 1959, sentença suspensa com a condição de deixarem o estado e não voltarem por 25 anos.

   Assim, os Loving foram escorraçados, obrigados a deixar casa, família e empregos para manter a “dignidade” da comunidade – ou desistir de seu casamento, o que estava fora de questão para o casal de nome muito adequado (LOVING). Inconformados com a brutalidade da justiça, ofendidos e proibidos de ficar próximos de seus pais, mudaram-se para Washington e escreveram uma carta para o Procurador Geral (na época, Robert Kennedy), que encaminhou o caso à associações de defesa dos direitos civis.

   O caso dos Loving despertou simpatia da União Civil para a Liberdade, e sua causa foi retomada na justiça. No estado da Virgínia, foi como bater em portas fechadas, mas com a insistência da associação, do casal e de advogados verdadeiramente imbuídos do sentido de humanidade, após muitas reviravoltas jurídicas, sua sentença foi finalmente questionada na Suprema Corte em 1967. Enfim, obtiveram ganho de causa – e o execrável Ato de Integridade Racial foi finalmente revogado.

   Mildred, ainda em 1965, declarou à imprensa: “eu e Richard nos casamos um para o outro, e não para nenhum Estado“.  Richard, após a decisão, teria dito: pela primeira vez em muitos anos, posso passar o braço ao redor de Mildred e chamá-la legalmente de minha esposa. Todo aquele que já se sentiu ferido na dignidade sabe muito bem a que Richard estava se referindo.

     Infelizmente, o casal não teve muitos anos para desfrutar deste privilégio. Os dois sofreram um acidente em 1975, quando um motorista bêbado atingiu o carro onde estavam. Richard morreu e Mildred perdeu um dos olhos.

     Mildred morreu em 2008, deixando três filhos, oito netos e onze bisnetos, e uma história de amor que se converteu em ícone da dignidade e de valores humanos. O dia da decisão da suprema corte foi 12 de junho de 1967 – no Brasil, dia dos namorados (nos Estados Unidos, o Valentine Day é comemorado em 14 de fevereiro).

    O amor do casal Loving talvez não seja diferente de tantos outros mundo afora, independente da semelhança ou diferença das cores de pele. Mas para mim ele traduz, além da força dos sentimentos, uma outra verdade: o de que a grande questão racial é que não existe questão RACIAL. Somos todos da raça humana, a única que existe. Sinto-me muito mais tocado por histórias como esta, de integração étnica, que de iniciativas de valorização “racial”. Tenho um pouco de reserva com relação à linha de conduta “orgulho de sua raça” – os americanos são vítimas dela, pois cada vez mais “negros” agem de uma forma a se diferenciar de “brancos” e vice-versa, e lá casamentos “interraciais” ainda são vistos como aberrações. Hannah Arendt escreveu um artigo instigante sobre isso (Reflexões sobre Little Rock) que eu gostaria de abordar outro dia, porque o assunto é muito mais complexo.

   Por hoje, faço deste post uma homenagem ao amor de Richard e Mildred Loving, e tudo o que ele tenha para nos ensinar. Nas palavras de Mildred, antes de morrer:

 I am proud that Richard’s and my name is on a court case that can help reinforce the love, the commitment, the fairness, and the family that so many people, black or white, young or old, gay or straight, seek in life. I support the freedom to marry for all. That’s what Loving, and loving, are all about.

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4 respostas para Um casal que desafiou a lei

  1. Cris disse:

    Realmente um tema polêmico e … triste !
    Triste quando uma vida se sobrepõe a outra pelo motivo que for e julga que seus direitos possuem mais “direito” e importância porque grita em seus medos a cor da pele, o sexo genital, a posição econômica, as formas do corpo ou do rosto, a influência entre os poderosos ou qualquer outra coisa que considere capaz de subjulgar, julgar e decidir vidas.

    Eu que não vejo diferença entre a vida de uma minhoca e a minha, que não consigo encontrar opostos entre a minha dor e a dor de uma cadela, sinceramente não entendo como alguém pode dividir o planeta em limites, os sonhos por condições de pele, língua, religião, opção sexual ou qualquer outra coisa que nada mais é do que a imensidão eloquente e maravilhosa deste mundo que julgamos tãooooooooooo grande, mas que é apenas um grão de areia em meio a este vasto universo sem fim.

    Nada somos ou somos tudo, mas somos iguais. Compartilhamos do mesmo ar, do mesmo ritual de vida e morte. Isso basta para que eu chame qualquer outra vida de: minha irmã.

    Não morreria por qualquer vida, mas jamais tiraria a vida de qualquer um ou impediria qulquer vida de ser o que desejou; incluindo meus filhos.

    Uauuuuuuuuuuuuuuu…falo muito por aqui….rs
    Sorry!

    beijos!

  2. Kelly disse:

    Oi Arlei!
    Obrigada por compartilhar essa matéria! Eu ainda não conhecia essa história, aliás, muito bonita!
    Beijos!

  3. Adorei o que a Cris escreveu e concordo totalmente, como vc tb falou Arlei: acima de tudo somos da raça humana, não deveria haver classificação por raça que não essa.
    Adorei o post, adoro histórias como essa, especialmente por serem reais demonstrações da força do amor e do desejo de viver dele seja como for.

  4. NADIA CRUZ disse:

    Sempre achei uma aberração qualquer tipo de discriminação…conhecia essa história, e ela não foge muito das loucuras que ocorrem no mundo, por diferenças raciais e religiosas.
    Somos todos da raça humana. Cor da pele, opção sexual, local de nascimento, religião, etc., são detalhes que fazem cada pessoa singular.
    O incrível é que, algumas culturas, em nome da manutenção das regras religiosas ou raciais, ainda “impeçam” casamentos ditos “mistos”.
    Belo texto!
    Abração!
    Nádia
    Nádia

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