Evita, a da Broadway e de Buenos Aires

   Não sei se Andrew Lloyd Weber, compositor de grandes musicais da Broadway, já esteve em Buenos Aires. Talvez não – insinua-se que a partitura de sua obra-prima Evita foi escrita totalmente em Londres, buscando inspiração apenas no rádio, jornais e documentários da BBC. Seu colega Tim Rice (autor das letras da dupla) contudo, realmente chegou a visitar Buenos Aires para melhor escrever o enredo e os versos das canções.

    Conheço superficialmente Buenos Aires, não como gostaria (e como pretendo), e nunca vi o musical Evita tal como é encenado na Broadway, apenas o filme de Alan Parker, que mantém as canções originais. Mas pelo que pude conhecer de ambas, penso que a capital argentina e o musical Evita de Weber/Rice tem tudo a ver um com o outro.

    A maior parte dos argentinos não simpatiza com a Evita da Broadway, que não trata Eva Perón do modo como gostariam, como uma santa patriota. Bem no espírito contestador dos anos 70, o musical de Rice e Weber é narrado pelo conterrâneo argentino de Eva, Che Guevara (na verdade, não há indícios de que os dois personagens alguma vez tenham se cruzado na vida real), e o modo como Guevara conta a história de Evita nem sempre é lisonjeiro. Em vários momentos, chega a insinuar que Evita nunca passou de uma aproveitadora e alpinista de alcova, com um cinismo que se esperaria de um futuro comunista.

    Mas o maior mérito criativo de Evita é que a peça não se detém em um único ponto de vista: se muitas vezes o foco é direcionado para desmistificar a pessoa Eva Perón, em outros cede à grandiloquência que ela inspirava, e torna-se uma celebração artística do mito Eva Perón e do que ele representou para os argentinos. E assim me parece ser Buenos Aires, uma cidade que conjuga a grandiosidade solene e teatral dos séculos passados com um ambiente sempre inquieto e marcado por ativismo popular – Buenos Aires inspira reverência mas também inspira contestação. Difícil imaginar tal sentimento em um lugar como o Rio, por exemplo, que apesar de também ter séculos de história é uma cidade cujo espírito volta-se para a alegria de viver.

   A música de Evita também remete a esse mesmo feeling portenho. É maravilhosa, para mim o melhor trabalho de Lloyd Weber. Há momentos em que a melodia acompanha galhofas da letra, principalmente quando narra as artimanhas do casal Perón, mas na maior parte do tempo ela é ou imponente como um hino ou de uma ternura comovente.

     Beware of the City e Another Suitcase in Another Hall (sugerindo a amargura de quem perde algumas ilusões) poderiam estar em qualquer outro musical, mas ambas tem a cara da melancolia filosófica e aguerrida dos portenhos, que se percebe em qualquer conversa, e do qual o tango é a expressão máxima. Aliás, Weber e Rice poderiam ter cedido à tentação musicalmente óbvia de compor uma trilha sonora sobre este ritmo próprio da Argentina – mas não o fizeram, e por isso Evita tem um quê humanista universal. Aliás, Shakespeare (que escreveu sobre reis dinamarqueses, generais venezianos, imperadores romanos, fadas e comadres) certamente teria adorado o personagem Evita.

   E o tema principal (Don’t Cry for Me Argentina) que aparece em vários momentos com vários versos diferentes, é uma jóia – é melancólico, nobre e forte como Buenos Aires.  Essa melodia simples me arrepia frequentemente, e confesso que a visão de certos locais da cidade e a percepção do “clima” portenho também me provocaram uma emoção inesperada. Evita de Lloyd Weber e Buenos Aires, ainda que os argentinos não gostem, têm muito em comum.

   Para finalizar, uma curiosidade: apesar das letras e do enredo não serem muito queridos no país, nem os argentinos resistem à beleza melódica de Evita. Na Argentina canta-se muito “Don’t Cry for Me Argentina”, mas com uma versão em espanhol na qual não há referências depreciativas a Evita. A letra do tema principal é para ser um canto final de Eva, onde ela abraça o destino sem deixar de confessar a humanidade de seu passado. Na original, por exemplo, pode-se ouvir Eva cantando “eu preciso de seu amor apesar de tudo o que eu fiz”, “tive meus dias selvagens, minha louca existência”, etc. Mas na versão portenha da letra de Tim Rice ( feita por Ignacio Artime e Jaime Azpilicueta), Evita transparece como uma abnegada que diz “minha vida inteira eu te dedico” e “mentiras disseram de mim”.

   Comprendo o orgulho ferido dos hermanos, mexer com sentimentos pátrios é complexo… mas nem eles podem negar a grandeza da obra de Weber e Rice, que vive por si só – e, em minha opinião, a Evita da Broadway pertence tanto a Buenos Aires quanto a verdadeira!

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