O mito de Tirésias

     Quem desfruta mais do encontro da carne, o homem ou a mulher? Os gregos tinham uma história sobre isso, o mito de Tirésias: segundo eles, Tirésias era um profeta de Thebas que havia atrapalhado um ato sexual entre duas cobras místicas, matando a cobra fêmea: ao fazer isso, foi transformado imediatamente em uma mulher, e assim viveu por sete anos – até que, em outro incidente semelhante, matou uma cobra macho – e voltou a ser homem.

    Conta-se que então, pediram a Tirésias para responder à pergunta que inquietava os corações de todos – Tirésias, que havia sido homem e mulher na mesma vida, era o único que realmente podia responder quem tem mais prazer. E Tirésias respondeu assim: se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma.

   Shere Hite, uma das grandes pesquisadoras da sexualidade feminina, analisou milhares de depoimentos e observações em mulheres norte-americanas para concluir que os relatos de dificuldades na obtenção de satisfação sexual por parte das mulheres americanas estavam ligados muito mais aos mecanismos de repressão social e cultural do que a fatores fisiológicos (a autora, aliás, conclamava as mulheres à  rebelarem-se e conquistar o direito a usufruir do magnífico potencial do próprio corpo).

    Uma vez que o mito de Tirésias sugeria ser a mulher capaz de usufruir melhor do sexo, e Hite (e outros) constatarem que no cotidiano era o homem o mais satisfeito, a resposta mais óbvia a que Hite chegou é que a mulher seria um vulcão arrolhado pelas sociedades machistas, pelos preconceitos culturais e religiosos, que a impediam de vivenciar tudo o que seu corpo poderia lhe proporcionar.

    Na verdade, embora Hite estivesse certa quanto à repressão feminina, os homens também sofreram uma espécie de repressão de suas possibilidades de satisfação: a maior parte dos homens encara o sexo como uma disparada em linha reta, cega e obsessiva, nem muito curta nem muito longa, rumo a um destino final. Não há grandes preocupações com sutilezas da estrada. Não sei dizer a proporção de influência biológica ou cultural que há neste comportamento, provavelmente um pouco de cada. E, ao contrário das mulheres, homens não discutem detalhes de suas vidas sexuais entre si, exceto para expressar de modo grosseiro suas vitórias. Nenhum homem costuma perguntar ao outro o que ele sentiu com a fulana, no máximo um “e aí, pegou ou não?”. Penetrar ou não penetrar resume tudo.

    Desde a década de 70, quando Hite lançou seu relatório original, as mulheres (com maior ênfase nas classes mais altas, infelizmente) descobriram e consolidaram o direito de desfrutar melhor de seus próprios corpos. Mas mulheres que tenham tido a chance de conhecer homens de gerações diferentes devem ter percebido que os homens também não são mais os mesmos. Ainda que o biológico (provavelmente aquilo ao qual Tirésias se referia) continue impondo os mesmos instintos, e talvez realmente as mulheres possuam um corpo mais afortunado para desfrutar as sensações amorosas, o acesso à informação sobre nós mesmos e sobre as mulheres parece ter provocado mudanças de nosso comportamento masculino que nos abre algumas portas para diminuir a proporção de Tirésias. 

     Trabalhos como o de Hite e suas congêneres, que lutaram para libertar o corpo feminino, ironicamente também produzem algum efeito benéfico nos homens.  Ainda que não conversemos com o detalhismo feminino sobre as particularidades de uma noite anterior, nós também já arriscamos algumas “dicas” que anos atrás seriam consideradas ofensivas (como se questionassem a masculinidade). E é possível ler cada vez mais homens escrevendo sobre a experiência de desfrutar de um encontro amoroso em extensão e variedade muito maiores do que a fórmula tradicional (tradicional no mundo ocidental – ironicamente, os hindus e arábes da antiguidade já haviam atingido este nível quando o peso da religião e da influência ocidental os fez regredir).

   Não há dúvida que esse paradigma é benéfico para ambos, mulheres e homens. E é de se perguntar (porque a lenda não diz) se Tirésias encarou sua transformação em homem novamente como uma libertação ou como um castigo…

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2 respostas para O mito de Tirésias

  1. Cris disse:

    Lendo Arlei e aprendendo!
    Não conhecia esse mito. Não tinha idéia que o o mito de Tirésias era uma guerra de sexos!

    Arlei sempre vou pelo mais primitivo, simples, sempre vou aprendendo com os animais.
    No seu texto você deixa claro que a mulher transformou o homem e transformou pra pior. Não pode reclamar. Segundo Pondé, filósofo atual, escritor e professor do meu filho, a mulher detonou muitos sonhos dos homens. Não nego.

    Minha opnião? É a mais simples possível: só irá desfrutar do corpo de uma mulher ou de um homem aquele ou aquela que souber se dar na mesma proporção e desejo. Não há segredos.
    A troca justa nessa saciedade é o segredo para beber na dose certa sem enjoar e sem ter a sensação que alguma gota se perdeu!

    Seus textos são viciantes!

    beijos.

    • arleiro disse:

      Cris;
      não sei se o transformou para pior… talvez quem possa responder sejam as mulheres – como tenho duas filhas, acho que desejaria para elas o homem de hoje e não o homem de ontem.
      Obrigado pelo teu prestígio!
      Abração.

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