Estantes

  
    Para que servem as estantes?
 
    As estantes são dispositivos construídos para brigar com a lei da gravidade, que impõe o chão como destino final de todas as coisas. Nas estantes colocamos aquilo que consideramos digno de não estar no chão, ou escondido nas gavetas. Ao adentrar uma casa desconhecida, meu olhar involuntariamente procura o que está nas estantes.
 
 
        É um hábito preconceituoso, admito – e sem nenhuma precisão científica. Por isso não  julgo alguém pelo conteúdo de sua estante, mas já percebi que às vezes as estantes podem denunciar alguns segredos de seus donos. Confesso que meu coração se alegra ao ver estantes com livros manuseados que foram lidos e relidos, com porta-retratos que contam momentos importantes e lembram pessoas queridas, e com bibelôs que tenham suas próprias histórias e anedotas. A frieza de estantes decoradas impessoalmente, apenas com objetos sugeridos por arquitetos ou adquiridos para seguir tendências e conceitos me entristece.
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 Nossas estantes pessoais são mais complexas, mas podem ser igualmente denunciadoras. Temos estantes nos olhos, no linguajar, no modo de vestir, nos sorrisos… e principalmente nas atitudes. Podemos escolher o que colocamos nelas: do mesmo que nas estantes de nossas casas, nelas podemos colocar apenas impessoalidades,  coisas que copiamos ou aceitamos de outros.  Estantes assim  são mais seguras, por isso somos ensinados desde cedo a apreciá-las. Nessas estantes, falamos como os outros esperam que falemos, nos vestimos como os outros esperam que façamos,  e agimos conforme o que se espera de nós – assim não corremos muitos riscos.

    Há também os que, equivocadamente, acreditam que a contestação total deste paradigma é a solução para o sufocamento que elas impõem, e entulham suas estantes de todo o tipo de afronta aos modelos tradicionais. Falam, vestem-se e agem de modo agressivo e mutante – mas, na maior parte das vezes, são como aquele que vai testando diversas combinações de livros e objetos em sua estante, tentando achar aquilo que realmente reflita a si mesmo (porque a afronta total e irrestrita a tudo também é um clichê).

    É claro que nossas estantes vez ou outra sofrem rearranjos, experimentações. Mesmo a estante mais pessoal cobre-se de teias de aranha se for mantida intocada para sempre. Mas, com o passar dos anos, alguns objetos consolidam seu lugar em nossas estantes: são nossas referências, nossos pilares, nossos guias a partir dos quais todos os demais livros e bibelôs serão organizados. Acabamos nos afeiçoando a eles, de tal modo que mesmo não agradando a todos os visitantes, não mais os movemos dali. Estas linhas mestras são o que nos define, nos dão a confiança para experimentar com todo o resto – como deve ser.

     Há ainda aqueles que deixam suas estantes propositadamente nuas: ou são os receosos de toda e qualquer contemplação alheia, ou são os avarentos de si mesmos. Mas ver a beleza da diversidade humana nos ensina e enriquece tanto, que sonegar totalmente um patrimônio pessoal é uma grande mesquinharia. Faz bem, a nós e aos outros, revelar um pouco de si mesmos. Se não dispuséssemos nada em nossas estantes, seríamos todos ilhas isoladas de um arquipélago humano incomunicável.

    Este blog, por exemplo, é uma estante escancarada – nela deposito coisas muito preciosas que acumulei em minha vida, e ao permitir a contemplação alheia divido meus bens e meus males com todos que por aqui passam. Claro que haverá coisas que não serão expostas na estante, que guardo em gavetas fechadas (algumas a chave), mas esta decisão do que deve ou não ser exposto também é parte de nossa construção pessoal – e nada impede que nalgum belo dia de faxina surja a decisão de trocar algum objeto por outro que estava escondido – arrumar as nossas estantes é parte da aventura que é a vida.

* e cada comentário de vocês é uma obra de arte que acrescento aqui na estante…

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3 respostas para Estantes

  1. Cris disse:

    To aqui de boca aberta !
    Como é que vc passa do norte pro sul, do gelado pro quente, da direita para a esquerda em segundos e consegue manter o equilíbrio na linha do Equador?……rs

    Impressionante!
    Ontem eu leio sobre como amar uma mulher, dias antes vc falava de um mantra e de repente, hoje, entro aqui e vc está descrevendo estantes?
    Tudo bem, que são as estantes das nossas vidas, lembranças e vivências, mas o que me espanta é justamente isso: como vc consegue mudar assim, no abracadabra e conectar a estante de uma sala com o que uma pessoa trás no coração?

    Adimirável a sua capacidade e sensibilidade para colocar em uma estante a história de nossas vidas. E essa , em palavras tão bem dispostas.
    Realmente, nossas casas falam muito sobre nós mesmos.
    Meu filho, costuma dizer que quem entra na casa do meu sítio ( lá é meu refúgio) consegue me sacar em segundos….rs Comecei a disfarçar algumas coisas na decoração!

    Arlei, como sempre, demais seu texto!
    Tomara que vc tenha muita coisa em sua estante para dividir conosco.
    Beijo!

  2. arleiro disse:

    Cris;
    obrigado por considerar que eu mantenho o equilbrio… eu mesmo às vezes acho que não… mas um blog é um ótimo balão de ensaio, não é verdade? Ô estante larga essa!
    Abração!

  3. Eu adoro uma estante!
    Desde pequena sempre tive fascinação especialmente pelas recheadas de livros, rs
    Aliás a minha já está lotadinha, preciso de mais uma pra comportar tanta coisa (meus livros e os gibis do marido, rs).
    Bjos

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