Sociedade dos Poetas Mortos

            A igualdade só existe na mediocridade.   A imagem aí acima é uma das mais pungentes que guardo na memória. É um frame da cena final do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, e tocou meus olhos pela primeira vez em uma noite de 1990, na sala do falecido cinema Glorinha. Rendeu duas lágrimas pelo rosto e algumas inquietações que nunca mais me abandonaram.
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    Não é um filme indiscutível, apela até para alguns lugares-comuns, mas tem grandes méritos: a fotografia e as atuações dos atores adolescentes entre eles. Esta cena parece ter sido desenhada pelo diretor Peter Weir como se fosse um quadro (me lembra até alguma coisa do pintor René Magritte). É tão simbólica, tão alegórica, que chega a parecer um corte de videoclipe.

    É impossível explicar a grandeza  e a emoção que ela representa sem fazer um spoiler do filme… em linhas gerais, a cena traduz uma verdade óbvia, mas tão embaraçosa que a maior parte da humanidade nascida após a Revolução Francesa tem dificuldade em admitir:  alguns seres humanos conseguem atingir a própria grandeza, mas outros (ainda que expostos às mesmas influências) nunca o farão. Weir acentua essa dicotomia na atitude altiva de alunos em pé nas carteiras – em contraposição aos demais, sem coragem e sem personalidade, que emblematicamente mantém suas cabeças abaixadas (contar o motivo do gesto é contar o final do filme, para quem ainda não o viu).

    A igualdade só existe na mediocridade. Quanto mais sabemos, mais angustiados nos tornamos  ao perceber imensidão que ainda há para aprender. Sociedades totalitárias tem uma certa aversão à profundidade de conhecimento, pois quanto mais o homem se torna culto, mais quer se diferenciar da massa. Uma nação de livre-pensadores seria eternamente questionadora, o que é um perigo para qualquer regime que pretenda ser dono de verdades absolutas. Por isso educação verdadeira só é compatível com democracia, do contrário torna-se DOUTRINAMENTO.

    A igualdade só existe na mediocridade. O líder comunista chinês Mao Zedong pintou esta frase com sangue no mapa da China, através da sua monstruosa “Revolução Cultural” – para tornar todos iguais, foi necessário esmagar os diferentes, através da prisão, tortura e assassinato de intelectuais, da condenação das vaidades intelectuais e da supressão de toda a forma de expressão que não servisse aos propósitos sociais. Quando a ideologia socialista deixou as páginas dos livros, o individualismo (sem o qual, curiosamente, não haveria um Marx ou um Lenin) foi duramente reprimido. A obra “Doutor Jivago” traduz de forma dolorida este sentimento na Rússia comunista.

    Lembro uma crônica em que o Luís Fernando Veríssimo (ou pode ser outro, a memória às vezes me trai) manifesta seu medo com o crescimento da literatura de auto ajuda – que faz qualquer leitor acreditar que ele é poderoso, senhor de seu destino, que vai se dar bem na vida. Veríssimo diz, brincando, que tem medo de sair na rua com tantos super-homens e super-mulheres andando nas calçadas. Abstraindo o humor e o exagero, também não concordo com a idéia de que todos os seres humanos são igualmente geniais e que todos têm o mesmo poder interior dentro de si. Acredito que essa idéia, tentando estimular a auto-estima, banaliza o que é grandeza! Defendo que cada um pode ter uma singularidade genial, específica, que pode torná-lo grande por ser diferente, e penso que é nessas particularidades que se deve buscar a realização, não em bulas ou tratados escritos para consumo geral. 

   Igualar os seres humanos em seus direitos fundamentais é uma coisa justa e inquestionável, mas impor a igualdade de mérito e de pensamento é, além de uma violência contra a alma, um retrocesso em milênios de cultura acumulada. 

    “Sociedade dos Poetas Mortos” foi um filme que marcou minha geração, mas depois aparentemente ganhou o esquecimento. Contudo, é um filme que ainda não envelheceu e pode agradar até quem nasceu depois de 1990, há muito mais riquezas ocultas em seu enredo do que esta que abordei aqui. De modo muito curioso, existe uma versão feminina e um pouco mais adocicada deste filme, “O Sorriso de Mona Lisa”, com Julia Roberts – onde as referências à literatura são trocadas pela arte em geral, mas é espantoso perceber como o roteiro é similar, provavelmente influenciado pelo filme de Weir.

    E há outros motivos para emocionar-se neste filme, momentos que sem dúvida tocam a sensibilidade (e provocam lágrimas) de qualquer um – além de uma plêiade de citações que vão de Shakespeare a Walt Whitman, Thoreau, Byron e… Carpe Diem! 

 
 
 
 

 

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11 respostas para Sociedade dos Poetas Mortos

  1. Fred disse:

    “To be nobody-but-yourself – in a world which is doing its best, night and day, to make you everybody else – means to fight the hardest battle which any human being can fight… and never stop fighting.” (E. E. Cummings)

    Lembrei na hora. Muito bom, mestre! Abraços!

    • arleiro disse:

      Fred;
      ótima lembrança!
      E do Robert Frost, citado no filme:

      “Two roads diverged in a wood, and I—
      I took the one less traveled by,
      And that has made all the difference.”

      Grande abraço!

  2. NADIA CRUZ disse:

    Esse é um dos filmes da minha vida, ou melhor, da nossa geração…
    Lembro do dia que assisti, e sai tão emocionada como vc.
    Quase 20 anos depois, meu filho adolescente teve a mesma reação…lágrimas
    Obrigada por tantas lembranças…
    Beijos
    Nádia

    • arleiro disse:

      Nádia;
      que bom saber que outra geração ainda se emociona com esse filme, ele merece ser mantido vivo.
      E escrevendo aqui, compartilho lembranças e sentimentos com vocês.
      Abração!

  3. Ronaldo disse:

    Arlei – ótima lembrança de um filme ainda tocante. Lembro um outro momento inesquecível: o final da partida de futebol, quando Mr. Keating é carregado pelos seus alunos ao som na Nona de Beethoven.

  4. arleiro disse:

    Ronaldo;
    é cheio de momentos inesquecíveis… belas imagens também, como a do gaiteiro de foles ao por do sol e do Neil abrindo a janela para a neve… são muitos.
    Abraço.

  5. Greize disse:

    Amei esse filme, era bem nova na época entendi, pouco.No final do ano passado peguei para ver novamente, e a cena que me tocou de novo, foi a mesma de qdo assiti pela primeira vez .. alunos em cima das mesas, gritando:”Oh capitão! Oh Meu capitão!”
    Acho que a Pedagogia ja estava no meu interior, sei lá…rs.Abraços

  6. arleiro disse:

    Greize;
    O Captain! My Captain!… é um poema de Walt Whitman,

    “My Captain does not answer, his lips are pale and still;
    My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;”

    é sobre a morte de Lincoln -acho que o diretor quis usá-lo como metáfora, já que o professor Keating acaba sofrendo uma espécie de “morte” dentro da escola.
    É um filme belíssimo, para ver muitas vezes!
    Abração!

  7. Pôxa, agora fiquei aqui me coçando para rever o filme que vi há muitos anos e que me lembrava somente de ser “triste”, rs
    Com certeza vou ter que ir atrás de alugar agora, rs
    Mas sabe Arlei, eu realmente sinto isso que vc fala no texto, qto mais leio e aprendo e descubro mais angustiada me sinto, como se eu tivesse desperdiçado toda minha vida, como se os anos que ainda tenho pela frente não fossem suficientes para eu ler todos os livros que ainda não li, para aprender tudo que há de se aprender nesse nosso gigante e idoso mundo.
    Eu sempre fui uma pessoa de opinião mas infelizmente a insegurança e a timidez me impediram se ser uma jovem/adolescente mais decidida, por muitas vezes me privei de expor o que pensava e acabei não seguindo um caminho de estudo superior especial e principalmente pq eu não sabia o que queria, queria nada e tudo ao mesmo tempo.
    Quem sabe daqui pra frente eu me inspiro, tomo coragem sei lá, rs, meu sonho era estudar a literatura inglesa pelo qual sou apaixonada apesar de admitir não conhecer a fundo…uma pena que por aqui não se pode estudar somente uma disciplina, rs, estudei Letras e acabei largando pq vi que não era pra mim lecionar.
    Nossa, hoje eu tô que tô com esses posts cumpridos, rs
    Peguei todos os seus posts pra ler (que não li enqto estava de férias) e por isso tantos coments nos seus textos.
    Bjos
    Gi

  8. luh disse:

    geeeente, eu to c um trabalho de escola para afzer sobre esse filme. Eu queria que vcs me ajudassem na interpretação de uma das questoes.
    Qual foi o significado do gesto de todd anderson ao subir na cadeira diante do diretor da escola.
    brigaaaaaaada, bjs

    ps: amei o filme, é lindo

    • arleiro disse:

      Luh;
      como sugerido no post, o gesto dele e dos demais pode ser interpretado como uma manifestação de incorformismo, do desejo de pensar por si só e confrontar a ordem estabelecida arbitrariamente- em especial quando ela sufoca o próprio DESEJO de pensar e contestar (coisa que os regimes totalitários buscam cortar ainda na raiz).
      Boa sorte no trabalho, que bom que gostou do filme – junte-se a uma legião de outros admiradores da geração anterior!
      Abraço.

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