Para amar uma mulher

    Como deve um homem navegar numa mulher? Com a firmeza exigente e objetiva de uma flecha rumo ao alvo? Com a paciência e o cuidado que um jardineiro tem por suas flores? Os homens (os verdadeiros) preocupam-se com isso há  muitos séculos, desde fontes sumérias, dos Salmos de Davi, do Kama Sutra (que não é um manual de posições sexuais, ao contrário do que pensam os mais apressadinhos), do Decameron e dos contos de Sherazade; de Shakespeare a Henry Miller, e até no não verbal que há num Klimt ou Tom Jobim. O cuidado e o respeito pelo corpo feminino são tão antigos quanto a escrita.

    O corpo de uma mulher tem muito mais do que obviedades côncavas e convexas. O homem que não percebe esta verdade viverá uma eterna peregrinação, uma perpétua diáspora da carne: se uma mulher lhe é tão somente um par de coxas, sempre haverá um par de coxas diferente a lhe tentar. Os maiores encantos podem estar nos detalhes escondidos, aqueles que se não se busca a priori, que se revelam feito súbitas cachoeiras nas montanhas, e cativam a fidelidade do viajante.

   Em uma mulher há um banquete refinado para os sentidos de um homem. Os olhos oferecem pouco mais do que um prelúdio; uma reles overture – mas mesmo assim há mais que curvas e ressaltos para o encanto das retinas: tantas cores possíveis, tantas linhas caprichosas mal percebidas… como costuma ser belo o traço que demarca as fronteiras do púbis, ou a linha descendente que une o dorso ao glúteo; o degradê sutil que há entre o mamilo e a pele do seio, as infinitas variações que a moldura dos cabelos traz ao rosto, o contorno arredondado que as mulheres têm nas unhas, nos dentes e nos cílios…

    Uma mulher não tem um só cheiro, uma mulher tem várias notas, acordes e aromas. Como pode um homem apaixonado deixar de aspirar a nuca e o colo de sua mulher? Há um buquê atrás da orelha, outro nas espáduas. Há a aguda comoção dos feromônios, mais que óbvia – mas não tão homogênea, em nuances mais ardentes junto ao sexo e em ecos dissimulados pelos sulcos e arabescos de sua pele, no seu ventre e na raiz de seus cabelos.

    Um corpo feminino é o sucedâneo de uma fruta, de uma fonte cristalina: precisa receber a boca de um homem. Não há recôndito algum que se deva evitar, há um sabor precioso e único em cada poro de epiderme, cada tépida mucosa ou penugem delicada. Uma mulher precisa ter os pés beijados, desfrutar dos lábios de seu homem a tentar desvendar o paladar de especiarias de seu vale mais secreto,  e sentir o ardor da pele acariciada entre dentes que se esforçam para conter ímpetos primitivos.

    Os homens precisam aprender a ouvir suas mulheres. As palavras de uma mulher podem conduzir um homem às janelas de um mundo velado à percepção masculina, a ângulos insuspeitos e à sensibilidades suprimidas. A voz de uma mulher é bem mais rica em sutilezas, mais expressiva e comovente. Não há doçura maior que o tom dos verbos de uma mulher apaixonada, nem sensação mais gratificante que os murmúrios que escapam do interior da alma de uma mulher bem satisfeita.

    E a mulher que se ama nasceu, mais do que tudo, para ser tocada. Deve ser abraçada com vigor (não para impor a dominação, mas para ofertar a segurança); e manuseada com uma mistura de ternura e de entusiasmo. As mãos do homem precisam percorrer cada contorno com reverência, sem pressa e sem receios. É preciso apertar, acariciar, traçar sonetos sobre a seda de suas pernas, tomar-lhe com firmeza os músculos vigorosos e com carinho as saliências delicadas. Uma mulher não é um arquipélago ao qual se ancora em poucas ilhas, é um continente que se envolve por inteiro.

     Um homem jamais será dono de qualquer corpo de mulher, mas esta é a maior e menos óbvia singeleza que seduz os homens. Na cotidiana reafirmação que faz de uma mulher um vício e na eterna descoberta que faz dela a excitante desconhecida está a magia da união de um masculino e um feminino, o paradoxo da harmonia entre os opostos sem o qual um homem tem uma vida mais insípida, privado da maior das riquezas que a existência  pode lhe oferecer.

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3 respostas para Para amar uma mulher

  1. NADIA CRUZ disse:

    Lindo, sensual , intenso! Como o corpo feminino…
    Saborear uma mulher é pra bem poucos, infelizmente.
    Tenho pena dos homens que apenas “transam” suas mulheres, numa busca de prazer unilateral.
    O verdadeiro encontro de homem e mulher tem muito com o sentir do outro, da descoberta desses caminhos, do encantamento do durante, e o êxtase do depois…
    Vc sabe disso tudo!
    Abração
    Nádia

    Adorei essa parte…
    “Um corpo feminino é o sucedâneo de uma fruta, de uma fonte cristalina: precisa receber a boca de um homem. Não há recôndito algum que se deva evitar, há um sabor precioso e único em cada poro de epiderme, cada tépida mucosa ou penugem delicada…”

  2. Cris disse:

    “Uma mulher precisa ter os pés beijados, desfrutar dos lábios de seu homem a tentar desvendar o paladar de especiarias de seu vale mais secreto, e sentir o ardor da pele acariciada entre dentes que se esforçam para conter ímpetos primitivos.”

    “Uma mulher não é um arquipélago ao qual se ancora em poucas ilhas, é um continente que se envolve por inteiro.”

    “Na cotidiana reafirmação que faz de uma mulher um vício e na eterna descoberta que faz dela a excitante desconhecida está a magia da união de um masculino e um feminino, o paradoxo da harmonia entre os opostos sem o qual um homem tem uma vida mais insípida, privado da maior das riquezas que a existência pode lhe oferecer.”

    Arlei, com toda a certeza Fernando Pessoa conseguria comentar seu texto. Escrever algo que se encaixasse aqui e não destoasse de tanta beleza, fome de amor, fome de prazer, tranquilidade quando se sacia!

    Estou a anos luz de Pessoa e só posso lhe dizer uma coisa: essa mesma viagem que o homem precisa fazer no corpo de uma mulher, ela necessita fazer no corpo do homem. Essa é a única forma que conheço para que ambos possam saciar o desejo do outro em si mesmo.
    Cada curva, cada linha, cada poro, cada som , movimento e cores do homem que ama.
    Redundante.

    Beijos !

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