Uma declaração de amor

   

 Amo livros, com a exuberância ingênua do primeiro amor, com a inquietude das paixões mais tempestuosas e com a serenidade confortante das relações consolidadas. Ah, eu os amo desde sempre, desde os quatro ou cinco anos, desde o exemplar do “Pequeno Príncipe” que fez parte das primeiras memórias da minha vida, desde os quadrinhos de Walt Disney, das coleções da Ediouro e da singela biblioteca que repousava em minúsculas estantes do meu jardim de infância.

     Amo sua forma e conteúdo. De amar assim, sinto tristeza ao ver edições apressadas e mal planejadas, com capas comercialmente apelativas, impressões descuidadas ou mal revisadas. Sinto asco e desgosto dessas obras condensadas e resumidas, que a mim parecem a amputação dos membros de uma criança à revelia de seu pai; e não posso evitar a frustração que sinto ao ver pessoas sem deficiência visual comprando audiobooks, como quem só vê o destino e não o prazer da própria estrada.

“Sempre imaginei que o paraíso deve ter algum tipo de biblioteca” (Jorge Luis Borges)

    Amo seu design elegante – o formato de páginas unidas por lombadas já tem mais de dez séculos com ajustes mínimos de engenharia. Às vezes paro extasiado em frente a um belo e conservado exemplar, seja ele qualquer coisa, até mesmo a tradução do código penal checo para o búlgaro, admirando a estética e as marcas do tempo. Dos autores e obras mais clássicos, prefiro comprar edições usadas, patinadas pelo uso e pelos anos, como se emulassem a dignidade e a vitória que obtiveram sobre a prova do tempo. Adoro os livros velhos, manuseados, feito mulheres com história e com lembranças. Sou uma traça de sebo, um explorador das selvas de pó e celulose carcomida dos becos urbanos, que para mim são pontos turísticos feito praias ou montanhas.

    Amo livros. Amo também o cheiro de tinta, de papel, de livro novo que exala destas modernas livrarias megastores. Perco -ou ganho- horas distraído entre as estantes metodica e sempre inexatamente classificadas, aborrecendo companhias menos pacientes. Gosto de livros novos com idéias novas ou releituras de idéias antigas, desta moderna revolução infográfica e do resgate de iconografias do passado, das edições feitas com aprumo estético que ecoa a devoção devida aos livros, como quem se veste com cuidado e reverência a quem lhe sabe admirar. Gosto de livros de poesia, gosto de quadrinhos, gosto de textos científicos, gosto de livros de arte, gosto de guias de viagem, gosto de romances esquecidos, gosto de coleções, gosto de livros de culinária, gosto de dicionários e guias lingüísticos, gosto de tratados e de contos, gosto de livros místicos, gosto de livros grandes e desafiadores, gosto de obras completas…

    Amo livros. Mas mesmo assim não sinto atração alguma por textos que pretendem ensinar-me alguma coisa mastigada e terapêutica. Ignoro a seção de auto-ajuda, para não exasperar-me. Fico decepcionado com quem rouba destes livros uma ou duas citações de obviedade que lhe sirvam de momento, e vai embora feito um tolo que saciou-se da primeira erva que encontrou em um vastíssimo pomar. Tenho também uma relação meio dúbia com as biografias, em especial as de gente duvidosamente célebre.

“Às vezes sentava-me na rede, balançado-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”. (Clarice Lispector)

    Amo livros. Algumas vezes encontro velhos “amores” de infância e adolescência, livros que em algum momento tive em minhas mãos, e toda a nostalgia dos momentos agradáveis que tivemos juntos vêm à mente em sobressalto. Já levei para casa livros sem qualquer valor literário, apenas porque me lembravam um dia de outono na biblioteca da Escola da Paz em Santa Rosa, ou um livro emprestado que fui obrigado penosamente a devolver. Com isso, às vezes, me sinto um polígamo sultão a cultivar o seu harém.

    Não consigo me adaptar ao formato e-book. Mesmo com a vantagem da disponibilidade (praticamente tudo o que não tem mais direitos autorais, e até o que ainda tem, está disponível na web), os e-books não me cativam: ainda que a essência esteja ali, é como se faltasse alguma coisa, falta o peso e a textura de um livro. Ler um e-book me causa uma sensação de onanismo, uma incompletude emocional, um quê de mulher inflável.

    Amo livros despudoradamente, e acredito que amarei até o fim. Amo as pessoas que comigo compartilham essa adição: por coincidência ou não, jamais encontrei uma pessoa que amasse livros e que fosse mau caráter. E as mulheres mais belas que já conheci amavam livros, ou talvez me fossem belas porque amavam livros… meu amor pelos livros é puro o suficiente para não ser egoísta, ao contrário: sinto vontade de partilhá-lo com o mundo todo. Hei de respeitar quem não os ame, pois a beleza da humanidade está na diferença, mas feito um devoto apaixonado nunca vou deixar de apregoar a maravilha dessa fé…  amo livros!

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4 respostas para Uma declaração de amor

  1. Sabrine disse:

    Partilho deste mesmo amor pelos livros! Amo o cheiro dos livros novos daqueles bem antigos guardados por muito tempo… Amo bibliotecas e as raridades que nelas encontramos…
    “Quem escreve constrói um castelo, quem lê passa a habitá-lo” (não me lembro o autor)

  2. Cris disse:

    Escrevi tanto aqui e… deu erro na hora de enviar…rs
    Volto outra hora para postar novamente!

  3. Vanessa disse:

    Divido essa paixão contigo desde sempre, não me lembro quando comecei a minha paixão por leitura, mas desde pequena eu já “devorava” a seção infantil da biblioteca do colégio. E na profissão que escolhi, vou passar o resto da vida tendo que ler muito, e rodeada pelos livros.. e isso me deixa muito saisfeita!
    Penso que se mais pessoas fossem assim, apaixonadas pelos livros e pela literatura, o mundo seria um lugar bem melhor.

  4. arleiro disse:

    Sabrine, Cris, Vanessa!
    Sinto muito carinho por quem gosta de livros, como vocês manifestaram! Acho que existe uma fé ainda não catalogada, pouco dogmática e muito poderosa, o culto dos adoradores de livros – e seus membros se encontram pelos sebos, bibliotecas, livrarias… e nos blogs da vida! Recebam meu abraço de irmão-de-fé! Sabrine, acho que é de uma autora chamada Silvana Duboc. Vanessa, assino embaixo do teu pensamento.
    Abraços!!

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