Caminhos paralelos

    Há várias formas de conduzir um relacionamento, desde as tradicionais até as inclassificáveis – como sugeria o Lulu Santos, qualquer forma de amar vale pena. Mas a mais comum é aquela em que duas criaturas constituem um “casal” (não necessariamente no sentido heterossexual da palavra). Até mesmo alguns notáveis indisciplinados sentimentais formaram ou formarão parte de um casal em algum momento da vida.

    E em nossa sociedade ocidental contemporânea, não cabem mais aqueles estereótipos sociais e religiosos segundo os quais os casais eram compostos por dominadores e dominadas. Com as conquistas femininas e de outras expressões de sexualidade humana,  a idéia hoje predominante é de que um casal deve ser composto por duas metades igualmente fortes, igualmente importantes e imprescindíveis de um todo, imbuídos de um propósito comum.

    É uma idéia nobre, forjada a partir de ecos do “amor cortês” medieval, incorporando  visões humanistas que nascem a partir do Iluminismo, conceitos firmados pelos desbravadores da mente humana como Freud e Jung, algumas descobertas dos grandes pesquisadores da sexualidade humana como Shere Hite e Kinsey, e, mais modernamente, por uma indústria de mídia romântica predominantemente norte-americana – mais especificamente Hollywood a partir dos anos 90. Ufa!

    Mas apesar da receita parecer muito bonita e ter aceitação universal no Ocidente, será que ela realmente garante o sabor do produto final? Quando nos damos conta da pesada influência norte-americana, fica mais fácil de entender que este conceito de casal parece mais adequado para uma empresa que para uma relação humana. De fato, quem assistiu o excelente filme Beleza Americana percebe, pela exposição crua de sua antítese, o quanto o conceito americano de casal perfeito está baseado em um projeto onde os fins são mais importantes que os meios. Resumindo em um clichê de auto-ajuda, este tipo de casal é aquele que segue junto por um mesmo caminho rumo a um mesmo fim.

    Talvez seja um método de obter… hmm, hesito em usar a palavra “felicidade”…. harmonia conjugal para alguns, mas não é com certeza um método que dará certo para todos. Agora, depois de conhecer um pouco mais a mim mesmo, acho que prefiro uma variação da fórmula: um casal deveria ser aquele que segue em caminhos paralelos para fins mutuamente satisfatórios.

    Esta variação pode ser mais compensadora para muitos de nós, evadidos das gerações 80 e 90, que já passamos pela quebra de uma ou mais relações e já aprendemos algumas lições sobre os outros e, essencialmente, sobre nós mesmos. Conviver, seja com um parceiro romântico, seja em ambientes sociais diversos, exige (entre outras coisas) duas virtudes básicas: tolerância e firmeza. Tolerância para não exigir a supressão do outro e firmeza para não permitir a sua própria supressão.

    Nos dias de hoje, as individualidades são muito mais fortes que antigamente. Há todo um culto do “eu” e da personalidade individual, uma pressão da mídia de consumo para que os desejos pessoais sejam hipervalorizados. Assim, quando duas pessoas com individualidades fortes tentam seguir pelo mesmo caminho, irão perceber um inevitável sufocamento, uma pressão constante para que um ou outro encolha um pouco. Podem ser coisas tolas, como a compra do sofá da sala ou o destino das férias, ou mais vultuosas como as escolhas profissionais – que hoje em dia costumam implicar em decisões sobre locais de residência que sempre vão favorecer mais um dos lados que o outro. Quando uma mulher resigna-se a “acompanhar o marido” ou o marido resigna-se a “acompanhar a mulher”, o projeto do caminho comum segue em frente, externamente bonitinho, mas a felicidade e a harmonia interna começam a ruir em rachaduras de frustração. A fronteira entre o ceder e o anular-se nem sempre fica nítida antes que seja tarde demais.

    O personagem de Kevin Spacey, no filme Beleza Americana, percebe em dado momento que o romantismo e a magia dos primeiros anos do casal foram esmagados, não tanto pelo peso da rotina em si, mas pelo peso de enquadrar-se em um projeto que não foi desenhado por eles e nem para eles. Por mais que a “vitória” obtida em levar o projeto adiante, como quem conduz uma empresa ao sucesso financeiro, proporcione algum grau de satisfação mútua, os sentimentos iniciais podem ter sido assassinados no trajeto.

    O caminho paralelo implica basicamente em manter um relacionamento mais pelo que há de presente, e menos pelo que houver de futuro. Um elemento freqüente é a não exigência da coabitação – o que pode implicar até mesmo em casas separadas, ou ao menos a convivência restrita a finais de semana. Neste tipo de visão, os sonhos pessoais podem até ser acomodados aos sonhos do outro, mas não são nunca suprimidos pelo sonho do outro. Ao contrário do caminho comum, onde estabelecem-se os amigos do casal (e sempre há perdas de ambos os lados), costuma haver um pacto de não interferência na rede social de cada um. Estes espaços para respirar podem manter o clima de um eterno namoro, reservando inclusive um espaço para um grau muito bem-vindo de saudade, e por mais paradoxal que pareça, ressaltar o que une e não o que separa.

   Algumas pessoas podem construir vidas muito felizes com o caminho comum, irá depender de tantas sutilezas e nuances das personalidades envolvidas, que sempre é complicado tentar exercer o dom da profecia matrimonial. Mas a idéia do caminho paralelo parece-me mais favorável à manutenção do romantismo que considero essencial para qualquer relacionamento. Não tenho estatísticas oficiais a respeito, mas arriscaria dizer que o número de traições, por exemplo, pode ser menor nos caminhos paralelos que nos comuns – até porque muitos dos motivos indutores de traição estão ausentes.

     Finalizando, talvez haja um ângulo muito interessante do assunto: caminhos paralelos sempre podem tornar-se comuns em determinado ponto do trajeto, de modo bem satisfatório (e talvez seja o caminho adequado após uma certa fase da vida, quando certos anseios individuais foram resolvidos). Mas a eventual separação de um caminho comum costuma ser sempre muito mais complicada. Enfim…

Anúncios
Esse post foi publicado em Outras. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Caminhos paralelos

  1. Aline disse:

    Este tema é e sempre será complicado ao meu ver. Concordo em muitos pontos e discordo em outros. Garantir a sua individualidade sem ser individualista quando se está num relacionamento é algo difícil, porém necessário. Não se deixar absorver pelos anseios do outro e não se anular.
    Se esta “receita” garante um bom produto final? Pode ser, como pode não ser. O que também pode ocorrer com qualquer outro tipo de modelo de relacionamento.
    Arriscar a dizer que o número de traições poderia diminuir, eu não o faria. Muitos dos motivos dados para traições podem se enquadrar na categoria de desculpas, o que para mim faz uma grande diferença.
    Estou lendo os textos aos poucos. Uma amiga me indicou e tenho gostado bastante.

    • arleiro disse:

      Aline;
      talvez qualquer tipo de “receita” seja complicada. Cada um há de ter a sua, ou até mesmo o seu momento para qualquer uma delas.
      Mas confesso que hoje, simpatizo mais com esta.
      Obrigado por tua visita, seja sempre bem-vinda!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s