Quer jogar comigo?

    Vamos brincar, então? Comecemos assim: podes jogar os dados. Teus números serão maiores que os meus, darás a partida. Eu te seguirei. Vou contemplar-te um pouco antes, será o nosso início e quero desfrutar da sensação de quem descobre uma flor rara; tu vais me devolver o olhar, mas desviando o rosto um segundo ou dois depois do choque das retinas. Avanço cinco casas no tabuleiro, e ficaremos lado a lado pela primeira vez. Jogarás os dados, se caíres na casa vermelha tens de vestir o teu melhor sorriso, e ouvir com tolerância minha conversa desajeitada – mas se os dados te ofertarem o número doze, irás ultrapassar a linha branca e sumir na noite, eu deverei pagar alguns dias de angústia tentando descobrir teu telefone.

     Está nas regras: se eu obtiver dois dados com números iguais, poderei jogar duas vezes seguidas: aí me adiantarei a ti! Na bifurcação do tabuleiro, poderei ir pela esquerda, tendo o direito de escolher uma carta do baralho da sorte – se for a carta certa, tu jantarás comigo, e terás de me falar das cicatrizes de teus amores antigos, inclusive daquelas que ainda teimam em não fechar. Também poderei escolher a trilha à direita, que é menos sinuosa, e esperar em um silêncio proposital que tentes me alcançar nesse caminho- mas assim posso cair naquela casa que ordena voltar ao início, e nesta fase da vida tenho tanto receio do tempo perdido!

     Então haverá outra escolha: número par, devo te amar pelo troar de teus vulcões, pelo arrebatamento de teus saltos e teus lábios – número ímpar, te amarei pelo brilho das brasas que ardem quietas por entre as frestas do teu coração, pelo aconchego derramado que há nos teus braços e no lóbulo das orelhas. Deverei ficar parado uma rodada, imóvel e impotente enquanto me conquistas e demarcas teu terreno com uma escova de dentes ou um soutien esquecido. Já estarei admirando o modo como lanças os dados, seja com a  precisão de mulher segura ou com a doçura de menina envergonhada.

    Haverá aquelas casas com as pontes, tu te lembras? Fica-se nelas até que se obtenha um número certo. São rodadas preciosas de atraso. Tu terás um curso, alguma viagem, tua carreira. Eu terei meus medos de menino crescido, talvez jogue os dados até chegar ao número pretendido em meu extrato bancário; e nessas rodadas perdidas pode ocorrer de ver o outro afastar-se cada vez mais. Perde-se tão fácil uma partida nestas pontes…

    Vez ou outra, nossos peões deverão repartir a mesma casa, enroscados sob os cobertores ao fim do outono, ou a imprimir pegadas simultâneas na areia quente de uma praia. Espera um pouco, pausa nosso jogo, vou buscar-te uma pipoca, uma bala… talvez uma taça de vinho, uma massagem demorada nos teus ombros. É um jogo longo, tu sabes e também eu já sei disso. Mas talvez nem importe muito ver quem chega primeiro ao ponto de destino. Vamos rir juntos, talvez discutir um pouco (foi três ou cinco aquele dado que caiu de lado?), quanto mais adiante estivermos mais bonito ficará o tabuleiro, e à noite partilharemos o sono doce das crianças extenuadas.

    Só combinemos uma coisa: não desistir do jogo por pirraça, no melhor da brincadeira. Não tenho outros brinquedos, mas sei que os há melhores noutras mesas – então, se decidires que é tua hora de partida, dá-me um beijo, diz que valeu a pena e peça que eu não chore. Aí então te deixarei ir embora, triste mas te querendo bem; talvez complete sozinho este percurso, ou vá sentar quieto num canto, a te olhar brincando um pouco… se me jurares, eu te juro o mesmo, sem cruzar os dedos.

    Então, quer jogar comigo?

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3 respostas para Quer jogar comigo?

  1. Cris disse:

    Pueril!
    Se não fosse o toque lindo de sensualidade e a evidência de uma maturidade clara e objetiva em seus desejos, seria um jogo pueril !

    Quem sabe, se todos nós adultos, pudéssemos jogar esse jogo com um quê de pueril, com certa inocência que nada mais é que sinônimo de simplicidade e verdade conseguiríamos no tabuleiro encontrar sempre o caminho certo.

    E é tão fácil ser feliz!
    beijos.

  2. NADIA CRUZ disse:

    Somos a soma de todas as nosssas idades…
    Brincar! Buscar no lúdico essa felicidade tão latente nas crianças…
    Um super texto, suave, gostoso de ler, sensual…
    Abração
    Nádia

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