Piegas? Ah, de vez em quando…

   Eu sei que são feitas sob encomenda, que são versões mais melosas das baladas típicas da Broadway, sei que são muito parecidas entre si… mas mesmo assim eu sempre acabo simpatizando com as músicas-tema dos filmes da Disney (When You Wish Upon a Star, do filme Pinóquio, é minha preferida).

 Acompanhei minhas filhas em uma sessão do filme Enrolados (Tangled), que é uma divertida “releitura” da história de Rapunzel (depois do Shrek, nem a Disney faz mais animações maniqueístas como antigamente – ainda bem!). E fiquei com a música-tema “I see the light” na cabeça… podem me chamar de piegas, porque serei forçado a concordar. Talvez seja por ter ouvido esta melodia abraçado nas duas criaturas que eu mais amo no mundo… ou porque guardo um tonto sentimental no fundo de meu coração. Mas gostei.

   É uma canção do Alan Menken, que já compôs outras trilhas da Disney (e ganhou Oscar de melhor canção com os temas de Aladdin, Pequena Sereia, Pocahontas e Bela e a Fera), profissional do ramo (que nem disfarça imitar o Andrew Lloyd Weber), e letra de Glenn Slater:

All those days watching from the windows
All those years outside looking in
All that time never even knowing
Just how blind I’ve beenNow I’m here, blinking in the starlight
Now I’m here, suddenly I see
Standing here, it’s all so clear
I’m where I’m meant to be

And at last I see the light
And it’s like the fog has lifted
And at last I see the light
And it’s like the sky is new
And it’s warm and real and bright
And the world has somehow shifted
All at once everything looks different
Now that I see you

    Nossos labirintos emocionais são complexos. Há em meu histórico um sem-número de razões para desprezar completamente esse tipo de canção romântica ingênua e industrial (sou homem, com quase quarenta anos, com uma certa experiência em relacionamentos, e uma bagagem literária e musical que alguns chamariam de mais “refinada”), mas não é o que ocorre. Ouvir “I see the light” me emocionou, ainda que o cérebro tentasse ordenar o contrário. Por experiências como esta, e algumas noites de reflexão, que acredito que não há “má música” ou “boa música” no sentido estrito. Se não simpatizo com algumas vertentes da música sertaneja, não censuro quem o faz. Meu exercício de tolerância humana é imaginar que, de algum modo, aquelas canções em falsete tocam a alma de seus fãs. Admito que nem sempre consigo, e me pego tecendo críticas aos envolvidos, mas ressavo que quase sempre acabo me acalmando.

     Mas as sutilezas do assunto são muitas. Também me emociono com Grieg ou Chopin, produtos musicais muito mais elaborados e que refletem ângulos preciosos e inovadores da criatividade humana. Conheço grandes admiradores de música sertaneja em falsete que também têm em casa jazz requintado, por exemplo. Quem sabe (e olha a teoria aí) o nosso repertório de gatilhos emocionais seja multifacetado, indo desde o que toca no mais primitivo até o que nos maravilha pelo mais sofisticado.

OK, “I see the light” é tão melosa que devia ser proibida para diabéticos… mas fazer o quê? Um homem de trinta e nove anos bem rodados chorou no cinema, e por alguns momentos acreditou em romances encantados, lamentando não haver uma mulher especial ao lado para partilhar o momento. Pronto, confissão feita. Ao menos o enredo não apresenta mais um  príncipe encantado que é um tonto, e a princesa até que tem personalidade. Daqui a alguns dias, o DVD certamente vai estar rodando sem parar aqui  no apartamento… melhor relaxar…

   E minha aposta é que “I see the light” ganha o Oscar de canção original em 2011. Alguém topa a parada?

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3 respostas para Piegas? Ah, de vez em quando…

  1. Walewska disse:

    Arlei,a canção é muito tocante mesmo!Compartilhamos a mesma opinião sobre as músicas sertanejas,e talvez tenhamos o mesmo “refinado” gosto musical,mas também costumo fazer este “exercício de tolerância humana”(é bem verdade que não consigo,na maioria das vezes!!),mas ESCUTAR(psicanaliticamente falando,o que não é o mesmo que ouvir…tenho que puxar brasa para o meu assado!!Rsrsrs)uma canção como esta,acompanhado dos filhos,assistindo a uma história de amor nos faz acreditar em romances encantados…Já passei por isso(ainda passo…)!Sempre muito bons os teus escritos!Parabéns!Bjo!

  2. arleiro disse:

    Walewska;
    sempre me pergunto quão “refinados” realmente podem ser os gostos e desgostos… talvez em certas ocasiões caiba melhor a palavra “condicionados”… mas enfim, esta é uma das grandes incertezas que eu carrego.
    Abração, obrigado pelo elogio.

  3. Tb vi esse filme nas férias e me apaixonei, tudo bem que sou suspeita pq adoro essas histórias fofas, romantiquinhas, adoro um conto de fadas. O mais engraçado é que não sou lá muito romântica na “vida real”, pelo contrário odeio melação (e meu marido sabe ser meloso e isso muitas vezes me irrita), mas parece que qdo é “de mentirinha” me agrada muito mais uma história realmente romântica e até melosa, talvez justamente por isso, por ser quase impossível que ocorra na vida real (o ser humano é infinitamente mais complexo que os personagens de desenho animado, rs).
    Eu me emociono tb, mais uma vez sou suspeita, pq se bobear choro até em comercial de margarina, rs, mas acho que em grande parte a música/trilha sonora tem seu papel.
    Eu reverencio os profissionais que escrevem as trilhas originais e tb os que tem a sensibilidade de buscar uma canção que seja já pronta e gravada por uma banda por exemplo e ligá-la a uma cena que, qdo vê o conjunto formado, lhe parece perfeita e a partir de então é impossível ouvir a música e não lembrar do filme.
    Eu amo música e cinema, pra mim são duas coisas que se completam e que não consigo viver sem (os livros tb, rs), são criações do homem que eu reverencio pq sem elas a vida não teria graça nenhuma.
    Eu até que tenho um gosto bem eclético e acho engraçado pq eu tb não gosto de sertanejo, forró e outras coisas mais, mas as vezes me pego emocionada ao ouvir uma boa música caipira das antigas ou até contemporânea (já ouviu aquela da Paula Fernandes com o Almir Sater?)…eu tinha meio vergonha de assumir isso, apesar de meu marido ser do interior e adorar música sertaneja (e eu ser obrigada a ouvir muita porcaria, rs) até que minha ficha caiu e percebi que eu gosto do que me emociona, do que me toca, me arrepia, me dá vontade de chorar de tão lindo, as vezes apenas a melodia….e assim hoje qdo alguém me pergunta de que gênero eu gosto eu digo “gosto daquele que me emociona”
    P.S. (só o forró que realmente não tem uma que se salve pra mim, rs)
    P.S. 2 (desculpa o post imenso, só agora percebi o tamanho que ficou, rs)

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