Meu sonho de consumo…

    Dizem que homens nunca deixam de brincar, mesmo adultos. Apenas seus brinquedos é que mudam de preço.

    Tive muito pouca chance de estudar técnica de piano, mas de alguma forma o instrumento sempre me fascinou. Com quinze anos de idade, mesmo sem jamais ter sequer me aproximado de um deles, pedi a meu pai a chance de fazer aulas de piano. Sua resposta foi “Piano é um instrumento de veado. Se quiser aprender música, procure outra coisa”. Assim, fui estudar acordeon, resignado. Mas tive a sorte de contar com um professor maravilhoso, que não me ensinou com o habitual desleixo e pouco refinamento típicos dos “gaiteiros” mais populares – mesmo que isso não fosse a intenção de meu pai, através do acordeon ganhei o mundo da teoria musical, da partitura, da música erudita e da harmonia.

    Do acordeon, pude passar a estudar violão clássico, subi nos palcos da vida e, quando estava prestes a realizar o sonho de infância e abraçar um piano de verdade, o final do segundo grau trouxe o novo imperativo paterno, de escolher uma “profissão de verdade”.

    E foi o que eu fiz… (poderia ter resistido, a fraqueza foi minha), sufocando a vocação frustrada com uma escolha profissional feita por acaso, e que jamais provocou o mesmo grau de paixão. Mas mesmo assim o amor platônico pelo teclado nacarado persistiu, recolhido, durante vários anos. Sempre que tinha a chance de deitar as mãos sobre algum piano de parede abandonado, ensaiava notas desajeitadas, técnica de acordeon e improviso de mão esquerda, saboreando cada arpejo.

   Um piano de cauda, negro e imponente, é meu grande sonho de consumo. Nada de Audis ou Coberturas com piscinas, nem mesmo a Rachel Weisz (isso já seria utopia…). A bem da verdade, até fiz algumas aulas formais de piano, um pouco de mecânica básica da digitação, mas toco com a inabilidade do apaixonado tímido, aquele que rodeia a moça com toda a sorte de subterfúgios e mal arrisca um roçar casual das mãos. Sonho com o dia da aposentadoria, com o tempo para consumar a paixão cozinhada estes anos todos.

    Tive uma namorada que possuía um piano “small size” (e que por sinal era uma pianista verdadeira, de dedos formal e pacientemente treinados para isso), e ocasionalmente eu namorava também o piano. Mas neste triângulo amoroso, a relação com a namorada foi conturbada demais para que eu e o piano tivéssemos uma chance.

    Enfim, passam as estações, e o “pedido de casamento” é sempre adiado. Sempre há uma outra prioridade financeira, a compra do piano fica para o próximo ano. Eventualmente dou risada, pensando que é proposital… afinal, deste modo meu piano torna-se o arquétipo da noiva virginal, que me espera paciente sem cobranças ou máculas. Às vezes me pergunto se ainda espero realmente tocar uma peça de Rachmaninoff, ou se é tudo uma grande birra de adolescente, e quando enfim possuir meu objeto de desejo eu não me limite a improvisar como um pivete mal educado…. mas, afinal de contas, descubro que isso não importa a mínima.

   Será como o personagem Florentino (O Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Márquez), que após 53 anos, 4 meses e 11 dias aguardando pelo amor de Fermina, descobre enfim a eternidade nos braços de sua amada, com o sabor doce que apenas a espera pode proporcionar. E afinal, tenho certeza que não fará diferença se não for de cauda, negro nem imponente. Depois de uma certa idade, descobrimos que o importante não é o aspecto exterior, mas sim o som que sai de dentro.

   Bom, isso vale para pianos e mulheres.  

 

 

 

 

*este post é a atualização de um dos primeiros posts do blog – é que hoje tive a oportunidade mágica de dedilhar um piano de hotel, reafirmando a imortalidade de nossos sonhos mais verdadeiros.

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Música. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s