Rabanetes!?!

 

A expressão holandesa Betten Hoven significa literalmente “canteiro de rabanetes”. Do mesmo modo, o termo regional português Saramago significa… rabanete.

    Ludwig van Beethoven e José Saramago são dois homens que inscreveram seus nomes entre os gênios criativos da humanidade. O primeiro revolucionou a música erudita, tornando-a muito mais emotiva e exuberante, o que o transformou em um dos compositores clássicos mais bem aceitos pelo público em geral. O segundo, “um dos últimos grandes mestres da prosa escrita”, segundo Harold Bloom, recolocou a língua portuguesa no cenário literário internacional, inclusive com a láurea de um prêmio Nobel.

    Ambos, transcendendo a humildade que carregavam desde os próprios nomes, tiveram vidas de intensa afirmação pessoal. Ambos foram entusiastas de idéias de seu tempo, ambos tiveram sua cota de erro ideológico, ambos despertaram ódios e paixões, ambos carregavam no olhar e em suas obras tanta fúria quanto doçura, ambos eram rebeldes e ambos legaram ao mundo o melhor de sua produção já no ocaso de suas vidas.

    O menino Ludwig van Beethoven teve uma infância marcada pela música e pela violência. Forçado a aprender piano à base de surras, pelo interesse financeiro de um pai violento e alcóolatra, teve sorte em não odiar a música. Cresceu sob a influência das idéias liberais que tomavam a Europa no século XVIII, o padrão estético que se chamou romantismo, e que valorizava a expressão livre do emocional e do indivíduo.  Beethoven, um alemão com ascendência holandesa, testemunhou à distância a Revolução Francesa e a ascensão de Napoleão, que em sua mente seria um libertador dos homens, o grande guia para a derrocada das monarquias opressoras da Europa. Chegou a dedicar a Napoleão toda uma sinfonia (a 3a.), apenas para depois decepcionar-se quando Napoleão declarou-se imperador ele próprio. Mas, até o fim da vida, nunca mais abandonou a idéia da liberdade suprema do homem, que imprimiu vigorosamente em sua música.

    Saramago também teve uma infância turbulenta, marcada por pobreza e restrição de acesso à cultura pela qual teve queda desde cedo. Desde o início de sua produção literária, a ideologia marxista e preocupações com o socialismo e o papel social do homem infiltraram-se em sua obra, bem como a crítica pesada contra as religiões e contra o catolicismo em especial. Sua admiração por Stalin arrefeceu com o passar dos anos, tal como a de Beethoven por Napoleão, embora até o fim da vida tenha sido um comunista convicto.

    Beethoven já era um músico respeitado quando os primeiros sinais de surdez se manifestaram. Também já cultivava um comportamento anti-social, rabugento, capaz de atirar pratos nos garçons se não gostasse do serviço, além ser pouco asseado e mal vestido. A surdez só agravou ainda mais este quadro, levando-o a um isolamento quase total do convívio humano. Sua vida amorosa é uma incógnita, a única pista de um eventual relaciomento é a famosa carta destinada à “Bem Amada Imortal”, um documento não identificado em que ele derrama seu amor por uma dama que aparentemente o correspondeu de algum modo. Há muitas teorias sobre sua identidade, mas nenhuma pode ser considerada fora de dúvida.

    As últimas composições de Beethoven, conforme a audição lhe abandonava, foram escritas quase que com o único auxílio de sua musicalidade interior, incluindo a obra-prima que é a 9a. sinfonia. Quando esta monumental obra foi executada pela primeira vez, Beethoven estava totalmente surdo, mesmo assim regendo a orquestra por uma música que ouvia apenas com a própria mente. Não ouviu os aplausos extasiados da platéia, tendo de ser avisado para voltar-se e agradecer.

    A música de Beethoven é muito próxima do homem comum, mais que seus antecessores Bach, Haydn e Mozart, por exemplo: as suas sinfonias têm explosões e calmarias que remetem ao interior de cada um, são magnificentes e emotivas. Seus temas são fortes, marcantes, compostos para causar impacto. Provavelmente é o compositor erudito mais popular de todos os tempos (Beethoven era tão distante dos antigos compositores ligados à aristocracia que chegou a ser preso por engano, confundido com um mendigo). Sua relação com a Igreja é controversa, embora menos que Saramago: há versões de que Beethoven era um maçom e admirador de rituais pagãos, mas seguramente jamais foi um católico fiel.

    José Saramago, assim como Beethoven, produziu o melhor de sua obra nos últimos anos de sua vida, a partir dos anos 90 (Saramago morreu em 2010). Seus romances O homem Duplicado, Ensaio sobre a Cegueira e O Evangelho Segundo Jesus Cristo foram escritos na velhice do escritor. Seu estilo é único, e causa um pouco de estranheza no leitor iniciante (não há travessões, por exemplo: os diálogos estão todos inseridos dentro dos parágrafos), mas provoca uma sensação de fluência infinita na leitura, como quem desce as corredeiras de um rio raivoso. Seu equivalente à sagração retumbante da 9a. sinfonia foi a aclamação internacional, que culminou no prêmio Nobel de Literatura em 1998. Os temas de Saramago também econtram paralelo com o que era caro a Ludwig van Beethoven, ou seja o homem, a liberdade e a revolução social. Saramago sempre foi um polemista, um radical na defesa daquilo em que acreditava: comprou brigas com vários setores conservadores, até mesmo com a política externa de Israel e o governo de Portugal, e em certos momentos suas palavras tomavam um tom tão truculento quanto as atitudes de Beethoven.

   Mas os dois homens raivosos com nome de rabanetes me tocam, cada um a seu modo. Gosto muito das sinfonias de Beethoven, até mais da 5a. que da 9a., elas me levam a um estado de espírito engrandecido, que impõe a ação, a força, a auto-afirmação. O estilo de Saramago, mais que sua posição política, me impressiona enquanto técnica literária. Algumas de suas palavras, como no Ensaio sobre a Cegueira, me levam a uma reflexão sobre a essência do homem, como o trecho: “Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos mas então deixará de ser humanidade” .Tenho diferenças ideológicas com ambos (mais com Saramago), mas aplaudo o poder criativo e a beleza estética de suas criações.

    Quem não concordar, não há que me mandar plantar batatas… quem sabe seja melhor plantar uns rabanetes?

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Uma resposta para Rabanetes!?!

  1. Greize disse:

    Interessante,mas acho ambos totalmente diferentes!!!E não estou mandando vc plantar nada.ok??!rsr

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