O que acontece com as meninas simpáticas???

    Em minha adolescência, havia uma piada gaiata sobre a estética das garotas. Quando alguém pretendia apresentar-nos  a uma menina, perguntávamos: “e ela é bonita?” – se a pessoa respondesse “hmmm….. é…. simpática.”, já sabíamos que a moça em questão não era agraciada com o dom da beleza.

    Alguns de nós, os mais tímidos e CDFs, sentíamos até um pouco de empatia com essas meninas “simpáticas”, que ficavam pelos cantos ou em grupinhos “simpáticos” de três ou quatro meninas esquecidas, mas naquela época até mesmo nós só tínhamos olhos para as ninfetas exuberantes e esculturais, as “lindas“, ainda que gostássemos de conversar com as simpáticas. Nada mais natural em uma idade em que os hormônios estão em polvorosa e o instinto de reprodução discursa com seu monólogo mais primitivo. O engraçado é que, com o passar dos anos, esssa sensação arrefece, e a pura estética parece não fazer mais tanta diferença.

    Mas o mais engraçado parece ocorrer depois, quando os grupos de adolescentes já estão espalhados mundo afora e, vencidas as primeira etapas da idade adulta, vão reencontrando os parceiros e parceiras da juventude. É comum descobrir-se, então, que aquelas candidatas púberes a deusa, as meninas lindas, tiveram um destino previsível… na maior parte das vezes já não são mais tão lindas, de modo frequente casaram cedo e mal, às vezes esvaziaram completamente seu interior e tornaram-se dependentes de maridos ou ex-maridos. Algumas são tão neuróticas pela perda daquela beleza que passam o resto da vida a vivenciar plásticas, dietas, academias, tratamentos milagrosos, spas, etc. Há exceções, óbvio- a garota mais bonita da minha escola, que era linda e simpática ao mesmo tempo, continua linda e simpática – mas é impressionante como o estereótipo se impõe. Em minha experiência pessoal, eu arriscaria uns 80% de acerto.

   O espanto é maior ainda quando descobrimos o que foi feito das “simpáticas”. Muitas vezes, descobrimos que tornaram-se mulheres bem realizadas, independentes, seguras… e surpreendentemente, detentoras de uma beleza madura e tranquila.  Costumam ter histórias para contar (quase sempre com personagens masculinos MUITO mais interessantes que os idiotas que passaram pelo caminho das lindas), e a serenidade de quem caminha rumo a um destino mais feliz.

    São essas “ex-simpáticas” as materializações femininas do Patinho Feio de Andersen, ou seja, sempre foram cisnes? Ou há outras explicações para isso? A hipótese mais óbvia é a de que, privadas da intensa atenção e competição dos rapazes e dos atrativos de uma vida mais hedonista, mais “carpe diem”, as simpáticas investem em seu próprio futuro com solidez e sem permitir desvios, numa dura e decisiva determinação.

    Mas há outras sutilezas possíveis: as “meninas lindas” têm a infelicidade de atrair os piores tipo de homem (o competitivo macho alfa e o cafajeste) desde muito cedo. Se tiverem o azar de apaixonar-se por um deles, dão passos largos rumo à infelicidade sentimental, o que colabora para desajustes pessoais e profissionais. Outra possibilidade é tornarem-se presas de homens poderosos (para os quais meninas lindas são troféus que simbolizam sua superioridade, tanto quanto o melhor carro e a melhor cobertura, por isso são trocadas assim que perdem o encanto, do mesmo modo que seus carros e coberturas).

   As “simpáticas”, por outro lado, até nutrem a universal admiração pelos homens vistosos, mas depois desenvolvem um sentimento de rejeição por eles, ao serem desprezadas em prol das mais bonitas. Ocasionalmente há uma sublimação, e a admiração das “simpáticas” volta-se para ídolos inatingíveis, como os pop stars. Mas estes são inofensivos sentimentalmente, e a segurança proporcionada por uma paixão platônica como esta pode até ajudar a a seguir em frente na construção fundamental de si mesmas.

    As meninas “lindas” também estão sujeitas às armadilhas da própria beleza, em um momento muito vulnerável da vida. Podem ser tentadas a usar esta beleza como sua única qualidade profissional, um jogo de campo minado que costuma provocar mais mutilações que triunfos, e sempre tem uma duração muito limitada. As “simpáticas” são forçadas a investir em outros talentos latentes, e neste caso o caminho é sempre acima. A crescente melhora da auto-estima, a experiência de lutar pelo que querem e a segurança financeira vão lhes ajudando a cultivar uma beleza tardia e duradoura, que ao contrário da beleza juvenil de suas colegas, veio para ficar.

    Finalmente, uma outra constatação é a formação ocasional de laços de amizade aparentemente improváveis, entre “ex-lindas” e “ex-simpáticas”. Como se ambas firmassem uma trégua daquela guerra fria juvenil, e resolvessem buscar uma na outra a resolução de um perfil de mulher que, sozinhas não conseguiram. Por exemplo, ex-simpáticas costumam não ter filhos ou ter filhos tardiamente, ao contrário das ex-lindas, que cedo experimentam a maternidade. Esta, aliás, é uma das maiores angústias que percebo nas ex-simpáticas, enquanto algumas ex-lindas experimentam o contrário – a sensação de que os filhos lhes atrapalham em uma eventual tentativa de buscar outra vez a felicidade perdida.

   De certo modo, há um pouco de redenção heróica na trajetória destas “ex-simpáticas”. E, curiosamente, posso antagonizar este texto com o célebre poema do inglês Robert Herrick “Às Virgens, para que Aproveitem o Tempo”.

Colham as rosas enquanto podem,
O Tempo passa voando;
E a flor que sorri agora,
Amanhã cai murchando.

A melhor idade é a primeira,
Tendo no sangue os ardores;
Passa a mocidade, e os piores
Tempos afastam os melhores.
.

    Como está explícito no poema, a beleza e juventude realmente podem ir embora rápido, e é melhor aproveitá-las… mas é que no tempo medieval de Herrick os homens só viam beleza e juventude como qualidades de uma mulher. As meninas “simpáticas” de hoje em dia parecem ter desenvolvido a capacidade de colher tardiamente, e melhor, seus botões.  Um viva às meninas “simpáticas”!

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5 respostas para O que acontece com as meninas simpáticas???

  1. Fabiane disse:

    Adorei o texto por três razões: a) bem escrito (lógico), estás de parabéns; b) por enxergar-me como uma “menina simpática”, vivi e vivo muito do que está descrito e c) por adorar a personagem Velma da turma do Scooby e ainda mais a figura em que aparece a transformação. Parabéns!!! Vou encaminhar, com autoria (importante!), a todas as minhas amigas simpáticas e claro para as amigas lindas, afinal também é “normal” que meninas lindas vivam cercadas por amigas simpáticas…por que será? hehe…

  2. arleiro disse:

    Fabiane;
    Daphne e Velma é mesmo tudo a ver com o texto, né… rsrsrs!
    Pode encaminhar, é uma honra!
    Obrigado por tua “simpatia”, com e sem aspas!!! Abração!

  3. Cris Animal disse:

    Muito bom seu texto. Como disse sua amiga Fabiane, muito bem escrito, mas não concordei com tudo.
    Achei que vc generalizou um pouco e pegou “pesado” nos 80% ! De repente tudo vira um pouco de preconceito de nossa parte.
    Outro dia, ouvi que o preconceito é a medida do nosso medo e é a mais pura verdade.

    Estudei quando garota com meninas lindas, colegas de classe ou de escola e que até hoje mantemos amizade. Tornaram-se mulheres lindas, inteligentes, bem posicionadas no mercado de trabalho dentro da profissão que escolheram, ótimas mães, esposas, amigas ou mulheres solteiras e independentes.

    Isso me soou um pouco quanto ao preconceito que o pobre joga sobre o rico. Sei perfeitamente que não foi isso que vc quis dizer e nem pensa, mas a grande porta da leitura é que ela nos abre infinitas portas de reflexão e interpretação.

    Há mulheres “simpáticas” que se tronaram frustradas e fracassadas , apesar das inúmeras chances que a vida trouxe como trabalho, amigos, ensinamentos, filhos, amores, crescimento de diversas formas.

    Não há regras ou porcentagem quando se trata de crescer e viver essa louca vida…vida louca!!!!

    “Discordar” é enriquecedor !

    beijo e boas férias com as filhotas; nada melhor que curtir nossos amores !

    • arleiro disse:

      Cris;
      claro que discordar é enriquecedor, assino embaixo. Uma das coisas que pode ter me levado a “pegar pesado” é a experiência pessoal, mas há de se levar em conta o que era a realidade das meninas do interior há vinte anos, o universo de minha experiência. Estas meninas formam meus 80% de experiência pessoal, que foi o que disse no texto. Imagino que em locais mais cosmopolitas, com mais acesso a informação e oportunidade, as lindas escapavam mais ao “preconceito” ou “estereótipo” do que as lindas de minha juventude. Talvez a geração de hoje, em qualquer lugar, não vá se comportar assim, estamos em aldeia global.
      Nem sei se parece neste texto que tenho “preconceito” com as lindas, seria totalmente fora do meu propósito, que não era denegrir as lindas mas aplaudir as simpáticas. E sobre preconceitos ou estereótipos, o incrível é que hoje em dia meus conceitos de beleza mudaram tanto que eu não consigo mais distinguir, naquelas fotos antigas, quem eram realmente as lindas…
      E isso eu também chamo de louca vida… e que ótimo que seja assim!
      Um abração, Cris, adoro teus comentários, principalmente quando discordas!

  4. dezzy disse:

    kkkk…tenho que dizer adorei ler ….

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