The long and winding road

 

(certa vez, encontrava-me atravessando metade do país em um avião para encontrar com uma mulher que eu jamais vira pessoalmente; e a passageira intrigada ao meu lado questionava-me: “mas por que fazer isso, não há tantas outras mais fáceis de se encontrar lá na tua terra?”, e eu sorri, pensando que talvez fosse justamente esse o porquê.)

  

     A obra dos Beatles representa algo tão icônico, tão seminal para o cenário da música depois deles, que dificilmente alguém pergunta “você gosta da música dos Beatles?”. Mais comumente, pergunta-se “você gosta de qual música dos Beatles?”. Eu os descobri cedo, no início da adolescência, a tempo de adquirir quase todos os seus álbuns naquelas arcaicas bolachas de vinil (que guardo como um dos meus tesouros pessoais até hoje). Gosto de muita coisa de sua discografia… In my Life, You’ve got to Hide Your Love Away, Penny Lane, Nowhere Man, Something, o medley do Abbey Road… e tenho um apego sentimental à canção The Long and Winding Road, uma obra-prima do Paul McCartney (em que pese o excesso de cordas e vocais adicionados pelo produtor Phil Spector):

 

The long and winding road
That leads to your door
Will never disappear
I’ve seen that road before
It always leads me here
Lead me to your door

   

     Uma longa e tempestuosa estrada que me leva à tua porta… esta música, que inicia impondo uma tensão harmônica cuja resolução é  perfeitamente alinhada com a letra, teria sido inpirada em uma velha estrada escocesa, cujos ventos McCartney conheceu em uma certa fase de sua vida. Ao ouvi-la, inevitavelmente surge em minha mente uma imagem simbólica, alguma coisa de arquétipo junguiano, que me faz pensar um pouco sobre a importância e a natureza de alguns tipos de caminho, alguns tipos de estrada.

    Na época em que estamos vivendo, nas bordas do século XXI, é quase certo que todos tivemos ou teremos vários relacionamentos durante a vida. Penso até que é melhor assim, muito melhor que a antiga fórmula de submeter-se sem compreender-se. E destes relacionamentos, naturalmente alguns acabam tornando-se muito mais significantes que outros, na ausência de alguma razão aparente. No meio de tantos homens e mulheres tão iguais, de pessoas que passam por nós e deixam diversos tipos de marca, há sempre a singularidade misteriosa de uns e outros, gritando em meio à mudez da maioria. É provável  que uma das razões para isso, embora não a única, seja o tamanho e a natureza da estrada que nos leva até elas.

     Uma estrada assolada pelos ventos. No fundo, há um truque sentimental que é simples de compreender: é mais plena e mais reconfortante a noite de chuva quando ela dá fim à angústia de um dia nublado e sufocante. Uma boa história de amor nem sempre é a mais límpida, a mais bonitinha ou a que traz mais satisfação. Às vezes, romances são como cicatrizes: o que os torna eternos é justamente a dificuldade de consolidação.

     Lembro outra vez o principezinho do Saint Exupéry (as pessoas ainda lêem Pequeno Príncipe hoje em dia ou isso ficou brega por conta dos concurso de Miss? Seria uma pena…), que pergunta a si mesmo porque é que sua rosa, uma rosa comum igual a tantas outras, é para ele tão importante, tão sublime. E descobre que foi o tempo que perdeu com ela, os impasses, os detalhes e seu temperamento tão difícil é que a tornaram única, incomparável.

Talvez as melhores portas estejam ao fim das mais longas e tempestuosas estradas. Se não as melhores, talvez as  inesquecíveis… e eu me pergunto, porque não sei a resposta, se “melhores” e “inesquecíveis” significam a mesma coisa. E  meus amigos e minhas amigas mortais, que maravilha será de nós se pudermos um dia sentar frente a um horizonte qualquer (um pôr de sol, uma noite estrelada, uma floresta de arranha-céus, o deserto de Atacama, tanto faz) e compartilhar um silêncio com alguém que conosco compartilhou longas estradas, alguém que querendo ou não nos ajudou a descobrir o melhor e o pior de nós mesmos.

    “Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante”. Relações com estradas longas implicam em alguns desencontros, algumas situações que podem parecer despropositadas, momentos de sofrimento que não parecem ter sentido, mas que ao final do caminho dão aquela sensação de “se tivesse que fazer, fazia tudo de novo, do mesmo jeito”. De certa forma, cruzar estas estradas é necessário para não, “ao morrer, descobrir que não havia vivido”, como escreveu Thoreau. Esta percepção, eu sei, é algo recorrente aqui no blog. É que sinto, com o passar dos anos, ter desenvolvido uma  adicção, uma sede inaplacável de tais estradas. Pressinto o cheiro de chuva, do vento e da escuridão que exala delas, chamando uma vez mais. Com um pouco de ironia, me dou conta que, se todos os amores de minha vida tiveram suas músicas, suas trilhas sonoras particulares, até hoje nenhuma canção dos Beatles teve sua vez. Há de ser… quem sabe.

…that leads to your door…

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14 respostas para The long and winding road

  1. Cris Animal disse:

    Eu acho que este post foi o mais lindo que já li no seu blog.
    Não acho; tenho certeza!
    Quando abri a página e vi Beatles com o Principezinho de Exupéry ( de todos nós) achei que vc era ousado demais e quebraria a cara !
    Fui lendo e querendo ler mais e batia aquela tristeza de quando estamos numa leitura que nos envolve e sabemos que vai terminar.
    Ainda bem que vc ousou mais do que qualquer louco ousaria….rs
    Seus sentimentos estão aqui, mas em silêncio. Além das entrelinhas. Seu coração foi mostrando pedacinhos sem abrir fronteira alguma.

    “que maravilha será de nós se pudermos um dia sentar frente a um horizonte qualquer (um pôr de sol, uma noite estrelada, uma floresta de arranha-céus, o deserto de Atacama, tanto faz) e compartilhar um silêncio com alguém que conosco compartilhou longas estradas, alguém que querendo ou não nos ajudou a descobrir o melhor e o pior de nós mesmos.”

    O que é isso???????????????
    Li emocionada pra caramba. Li em êxtase.
    Vivi isso com meu avô e em grande parte com minha avó.

    Eu nem sei o que dizer, nem sei o que estou escrevendo. Estou realmente emocionada.
    O Pequeno Príncipe é um livro belíssimo e o que me acompanha SEMPRE ainda faz parte da 31º edição. Presente da minha mãe. O dela deve ser da primeira….rs

    Qualquer coisa que eu escreva aqui não deixará nem rastro da beleza do que li e vc conseguiu passar.

    that leads to your door ( vc merece seus sonhos)

    beijo

    • arleiro disse:

      Cris;
      meu “Pequeno Prícipe” está totalmente destruído pelo tempo, já tem trinta e cinco anos… comprei outro para minha filha, que adorou – realmente é um belo presente para passar de geração a geração!
      Obrigado, abração!

  2. Fabiane disse:

    Parabéns! Parabéns! Texto leve e poético…como deveria ser nosso olhar ao longo da vida.

    Vou guardar com carinho essas partes:

    “Uma boa história de amor nem sempre é a mais límpida, a mais bonitinha ou a que traz mais satisfação. Às vezes, romances são como cicatrizes: o que os torna eternos é justamente a dificuldade de consolidação.”

    “E meus amigos e minhas amigas mortais, que maravilha será de nós se pudermos um dia sentar frente a um horizonte qualquer (um pôr de sol, uma noite estrelada, uma floresta de arranha-céus, o deserto de Atacama, tanto faz) e compartilhar um silêncio com alguém que conosco compartilhou longas estradas, alguém que querendo ou não nos ajudou a descobrir o melhor e o pior de nós mesmos.”

  3. NÁDIA CRUZ disse:

    Encontrei nesse seu post tantas coisas de minha vida, que acabei por ler várias vezes…
    Não são os amores mais simples, óbvios, confortáveis, que nos deixam certas tatuagens na alma…
    Acho até que o amor marcante, nunca é uma linha reta…
    Quando vc diz:
    “Talvez as melhores portas estejam ao fim das mais longas e tempestuosas estradas. Se não as melhores, talvez as inesquecíveis”
    Fala da emoção, da montanha russa dos sentimentos fortes, das cicatrizes eternas…
    Olha, queria muito ter escrito esse post, mas nunca seria tão brilhante assim.
    Obrigada por vc ter feito isso tão, maravilhosamente, bem.
    Meu abraço emocionado!
    Nádia

  4. Marina disse:

    Perfeito!
    E o Pequeno Príncipe continua em alta!

    • arleiro disse:

      Marina;
      ainda bem… por mais sutil que ela seja, há uma boa lição no livrinho do Saint Exupery, que foi execrado injustamente à sua própria revelia.
      Aliás, foi o primeiro livro que li, com cinco anos.
      Obrigado, abração!

  5. Natacha Lamounier disse:

    “E destes relacionamentos, naturalmente alguns acabam tornando-se muito mais significantes que outros, na ausência de alguma razão aparente. No meio de tantos homens e mulheres tão iguais, de pessoas que passam por nós e deixam diversos tipos de marca, há sempre a singularidade misteriosa de uns e outros, gritando em meio à mudez da maioria. É provável que uma das razões para isso, embora não a única, seja o tamanho e a natureza da estrada que nos leva até elas.’

    Agora eu descobri o mistério! Eu me perguntava o que “o” deixa tao especial…mas agora eu sei, vc me disse…foi a estrada! E que longa e complicada estrada! Uma pena só que eu estraguei tudo quando abri a porta… mas vamos ver….

    beijos de sua nova fã (segundo coment)
    Natacha.

  6. arleiro disse:

    Natacha;
    puxa, fiquei curioso… as histórias de “estradas” sempre são fascinantes.
    Mas nem sempre a estrada acaba quando abrimos as portas (eu que o diga – vc leu o post “Uma porta?”). Como vc disse, “vamos ver”… e se puder nos conta…
    eu é que sou fã do carinho de vocês! Obrigado.
    Abração.

  7. Natacha Lamounier disse:

    oi
    acabei de ler o post Uma porta…adorei, claro! e o final? pra mim tem q ser um final triste..nao gosto de finais felizes….porque na vida real isso nao existe, nao no meu pessimista ponto de vista.
    bem, vc ficou curioso e vou lhe contar brevemente. tenho 19 anos e quando o conheci eu tinha 13. no inicio eramos soh amigos, mas entao algo estranho cresceu e eu nao dei importancia, o mais estranho é q cresceu nele tbm, mas naquela epoca eu nao vi. entao a gnt saiu(…), mas nada rolou, so briguei com meu pai, por causa dele. foi a primeira vez q eu menti pro meu pai. mas entao os ventos mudaram, e perdi o contato com ele durante 5 anos. agora eu o reencontrei, mas fui logo atropelando as coisas, acelerei(…) e deu tudo errado pra mim. nao houve palavras entre a gnt, eu nao sei oq dizer, nao sei o q sinto agora por ele. eu errei mto, fiz coisas q nao podia. e oq recebi dele foi um pedido para nao namorar(…).
    bem, triste nao? vc jah ouvi algo similar ou tao bizarro quanto?

  8. arleiro disse:

    Natacha;
    sabe qual o “superpoder” que eu mais gostaria de ter? Nada de voar, ser indestrutível, etc. Gostaria é de poder ler o pensamento das pessoas. Isso mudaria tanta coisa… no teu caso, como aconteceu comigo algumas vezes durante a vida, a grande complicação é não ter certeza do que o outro sente e pensa (embora isso ás vezes seja justamente o que dá sabor e magia). Olha, já vi coisas bizarras sim, e com estes meus próprios olhos…rsrs… mas se te serve de consolo, comigo algo muito parecido ocorreu, e minha atitude de fechar-me depois disso acabou por provocar uma reversão total da situação alguns dias depois… as estradas não acabam onde pensamos que acabam, Natacha! Olha que tudo pode mudar…
    Gostei muito de “ouvir” vc! Abração, e espero ouvir um final diferente nessa história…

  9. Fred disse:

    Tão bom ver traduzido em texto bem escrito algo que já pôde ser previamente conversado ao “som” do sorriso dos amigos… nem preciso te dizer mestre Arlei como achei esse post inspirado. Grande abraço e felicidades sempre!

  10. arleiro disse:

    Fred;
    as estradas… podem ir até o Panamá e voltar, não é mesmo?!
    obrigado por re-partilhar a opinião! Abração!

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