Uma noite de Eva

    Até aquele momento, o mais irritante da noite havia sido a música. Não conseguia adaptar-se àquele som cheio de efeitos de estúdio, ela adormecera no gosto musical dos anos 80, ainda ouvia Legião e Cazuza em seu iPod. Outras miudezas também lhe irritavam, como a lengalenga sem fim da Rutinha sobre o novo e ma-ra-vi-lho-so namorado (certamente um zé-mané tal qual os anteriores); ou ainda a provocante fumaça de cigarro que flutuava pelo pub, a desafiar sua vitoriosa abstinência de nicotina que já durava um mês. Mas agora sim o quadro estava completo, agora achara algo que realmente lhe arruinara a noite: uma pirralha usando a mesmíssima camisete que ela.

    Aborrecia-lhe menos o fato de ter garimpado aquela peça numa boutique duas semanas atrás, na pretensão de uma exclusividade que causasse impacto, e descobrir que outra criatura fizera o mesmo – isso era incidental. O que realmente lhe deixava incomodada era perceber que a camisete ficara MUITO melhor naquela garota, que o caimento das mangas revelava nela uma pele muito mais suave e jovial que a sua, e que isso lhe induzia a esconder sob a mesa os antebraços de um tom artificialmente acobreado e as mãos que revelavam a idade mais que tudo (exceto talvez o seu nome, era só dizer que se chamava Eva para entregar a sua idade, por isso às vezes dizia Patrícia ou Daiane, ou qualquer nome mais moderninho que lhe viesse à cabeça).

Com um olhar amargo, percebeu que a fluidez do tecido e os bordados arrojados ficavam muito mais deslumbrantes sobre aqueles seios firmes e independentes de mocinha, e a cinturinha de Barbie valorizava a graça imponente que havia no cinto. Percebeu ainda seus cochichos com a amiguinha loira e voluptuosa – ambas deveriam estar rindo dela, de seu cabelo de raízes escuras à mostra e seu lifting evidente. Pois riam, riam com a leveza de quem não tem relatórios inacabados, uma filha com prova de matemática na quarta-feira, um exame de Papanicolau para repetir… Eva queria um buraco enorme para sumir, um túnel que a levasse direto à segurança do seu mundo, um lugar onde pudesse ficar nua e quieta.

    Aquilo estragava tudo, era  injustiça recoberta de uma tal futilidade que sequer lhe permitia a dignidade de uma queixa. Era cruel porque Eva não era aquela jovenzinha debochada, não vestia uma camisete e saía com Rute e as amigas dela para achar um homem que a levasse para a cama (e se quisesse, sabia que com ou sem camisete o conseguiria).  O que tornava tudo tão dolorido era a própria banalidade da coisa, o fato de que  comprara  a camisete em concessão a uma das últimas vaidades que lhe restavam, para disfarçar sua insatisfação com o próprio corpo e sonhar em ser admirada como antigamente, poder refutar com desprezo olhares lascivos de quarentões e até  mocinhos que babassem por uma mulher madura em uma bela camisete. Agora aquela noite estava totalmente destruída, sentia a auto-estima escorrer por entre as pernas e desejava como uma doida a paz autofágica de um cigarro.

    Com uma mesquinhez pouco consoladora, ficou pensando que aquele projeto de homem com um cavanhaque pueril, de garrafa de cerveja em punho, que sorria ao lado da mocinha (Lilith, pensou, o nome dela só pode ser Lilith) provavelmente ainda lhe machucaria muito, a faria chorar tanto quanto Eva já chorara àquela idade. Sentia-se inapelavelmente vazia por dentro, como se a garota de camisete houvesse lhe sugado a essência toda, feito o sumo de uma fruta madura… oh, mas ao pensar em fruta, sua mente iluminou-se com a lembrança de uma cereja!!!

    Cerejas! Eva sorriu da epifania, lembrando que tinha pés de galinha em seu presente, mas também tinha cerejas em seu passado. Aquela ninfetinha abobalhada jamais tivera uma cereja, nem desconfiava de que uma cereja é capaz, não guardava ainda nada mágico do que é profano, não vivera. Aquela Lilith não conseguiria superar uma decepção assim feito ela, porque não tivera cerejas e outras pequenas grandes coisas em sua vida. E os homens amavam saber das cerejas, pensou, e aquele rapazinho do cavanhaque, que ainda nem homem era, certamente trocaria as fraldas de Lilith pela cinta-liga de Eva quando descobrisse o que ela sabia fazer com as cerejas…

     Sorrindo, pensou ainda que Lilith não havia de ter na agenda do celular alguém como ele, ele que a rasgara, que a ferira tanto… mas  que também, por tantas outras dores, ternuras e cerejas partilhadas, era hoje um cúmplice para tudo, até para a angústia da carne vez em quando, e cúmplices assim Lilith suaria muitas camisetes para conseguir. Vingada, tomou o celular e escreveu uma mensagem: “Lembrei-me de cerejas…”. Procurou o nome dele para enviar, encontrando-o rapidamente, pois era o primeiro da agenda. Deveria estar dormindo agora, mas Eva sabia que ao ler aquilo um sorriso enigmático brotaria nos seus lábios, e a lembrança das cerejas estaria compartilhada uma vez mais.

    Pediu desculpas para Rute e as demais, inventou qualquer pretexto. Saiu. Fez questão de passar ao lado da mocinha, dizendo de modo bem audível: “Tchau, Lilith!”. Virou o rosto rapidamente, mas não sem perceber a cara de pateta, a ruga de incompreensão na testa adolescente. Naturalmente ela sequer desconfiava o que significava o nome Lilith, e isso era o mais delicioso, mais delicioso do que ela não saber necas, necas mesmo, do que uma cereja é capaz, e menos ainda que saber isso pode salvar toda uma noite.

    Eva saiu para fora a aspirar o ar de asfalto e de estrelas (mais uma noite sem cigarro, maravilha!) e pensar que… uma cereja… claro, teria sido mais adequado se fosse uma maçã, mas enfim…

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2 respostas para Uma noite de Eva

  1. Cris Animal disse:

    O texto é incrível e o último parágrafo fechou com chave de ouro. O xeque-mate de Eva !
    É… as inseguranças de cada um. Os medos que vamos arrastando pela vida por alimentarmos tantos fantasmas inexistentes.
    Tomara que Eva tenha se curado de todos os medos que vieram à tona e assolaram sua noite e que além das cerejas ela possa ter lembrado que o segredo estava nela e não na fruta ! Isso seria sensacional!
    Afinal, poderia ser uma maçã….rsrsrsrs
    Muito bom !
    beijo

  2. arleiro disse:

    Cris;
    sua percepção foi bem precisa… exatamente isso!
    Abração, obrigado!

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