Fernando Pessoa, o poeta / Vinicius, o poetinha…

O brasileiro Vinícius de Moraes, copo de uísque ao lado, sorriso malandro na cara, sentado a um bar em Ipanema, diz: “Perdoai-me, meus amigos, a minha súbita vontade de chorar em vosso mágico convívio”. Contudo, como se sentisse o exato oposto, o português Fernando Pessoa, debruçado sobre a mesa de um café de Lisboa, olhos amargos no horizonte, diz: “Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus próprios amigos?”

Certas vezes me pergunto, o que faz alguém gostar de poesia? E aí me dou por conta que “poesia” é uma palavra meio amorfa, prostituída e inconstante. Eu não acredito na alegre definição de que “tudo pode ser poesia”, não ao plano individual. Prefiro defender que cada um tem seu conceito do que é, bem como o que não é poesia, feito leis que não vigoram além da fronteira de cada um.

Para Arnaldo Jabor, amor é prosa e sexo é poesia, por exemplo… bom, para mim, os limites entre a prosa e a poesia estão na disposição das palavras. Bons textos podem ser construídos apenas com idéias brilhantes, mas poesia requer um algo mais, que está no arranjo dos vocábulos, em um conceito muito próprio de “sonoridade”, que faz melhor sentido na língua em que foi escrita. Este é apenas o meu próprio paradigma, não é definitivo nem absoluto, não pretendo impor nem compartilhar com ninguém, mas é o que melhor tem me servido vida afora.

Por “sonoridade” quero dizer aquilo que dá prazer aos ouvidos, o que se lê com a sinestesia de um sorvete a derreter por sobre a língua, aquilo que lembra um mantra ou sortilégio. Considerando-se apenas a língua portuguesa, gosto muito da sonoridade de  dois quase antípodas, dois poetas que bem pouco ecoariam um no outro: Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa.

Um foi brasileiro, carioca, irreverente e ensolarado. O outro foi portugês, lisboeta, taciturno e invernal. Os dois almejavam a carreira diplomática. Vinícius (que efetivamente pertenceu ao Itamaraty) era boêmio demais, e Pessoa era ácido e sincero demais para tais fardos. Vinícius era roda de samba, era bom humor, mulheres e amigos. Pessoa era cafés, era inquietudes, uma sexualidade controvertida e misticismo. Vinícius de Moraes escrevia poesia musical, com ritmo e harmonia, e e embora fosse lírico de raiz (talvez o último grande lírico brasileiro), era gaiato o suficiente para não levar a sério a própria obra. O que gosto nele é a métrica,  a ternura sem ser piegas, o jeito leve e descompromissado por um lado e a poética romântica por outro. Como em seus versos:

“Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para meus olhos”
.
“As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível.”

.

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

.

Fernando Pessoa é outra história… para começar, criou pseudônimos, autores fictícios (os heterônimos), personalidades múltiplas que tinham características próprias e modos de escrever completamente distintos, de tal modo que é um assombro descobrir que poemas assinados por “Ricardo Reis”, “Álvaro de Campos” ou “Alberto Caieiro” , de temas e de formas tão diversos, tenham sido escritos todos pelo mesmo Fernando Pessoa. É como se fossem setenta e tantos poetas a viver num corpo só… há nele algo de Shakespeare, ambos pareciam ser capazes de olhar por um microscópio e enxergar toda a Via-Láctea, escrever sobre uma tabacaria de Lisboa e descrever a humanidade inteira.  Morreu cedo, expressou angústias sentimentais e era bem pouco galhofeiro. O que gosto nele é a agudeza, a precisão, a brutal sinceridade e o modo de colocar em simples vocábulos imagens e sentimentos complexos. Se Vinicius me traz leveza, Pessoa me traz profundidade. Por exemplo, os seguintes versos de pura angústia pessoal:

“Cerca de grandes muros quem te sonhas
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.”
.
“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”
.
“A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.  Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.”
.
“Não sou nada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
.

Fernando Pessoa é um monstro sagrado da literatura mundial, por sua originalidade e pela extensão criativa quase inconcebível dos heterônimos, um poeta de grandes desassossegos e de profundas reflexões. Ele me impõe respeito, aquela admiração reverencial devida aos mestres e aos gênios. Vinícius não tem a mesma estatura internacional, mas é uma tradução muito particular do nosso carisma e sonoridade tupiniquins, uma feliz conjunção de formas e tratamentos clássicos com a brejeirice dos brasileiros, por isso sempre foi chamado de “poetinha”, e eu o encaro com o sorriso e os ouvidos atentos que se devem aos amigos fiéis e de conversa interessante. Quando peço um conselho a Vinícius, este me responde com um sorrisinho malandro e uma mão no ombro; e quando peço a Pessoa ele baixa o queixo contra o peito e me dedica um olhar profundo, por cima dos óculos…

Levo os dois na algibeira, junto com outros tantos… às vezes os percebo escondidos nas palavras que eu próprio arrisco a escrever, o que é uma honra e uma angústia. Mas felicito-me, e a outros tantos compatriotas, que por uma tal felicidade estes homens de polaridades tão distintas tenham compartilhado entre si, e conosco, a graça e a dignidade da nossa “última flor do Lácio”; a inculta e bela língua portuguesa!


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5 respostas para Fernando Pessoa, o poeta / Vinicius, o poetinha…

  1. Cris disse:

    Arlei, comovente!
    A impressão que tenho é que vc escreveu isso em minutos. Textos que brotam do coração passam essa sensação.
    Dois poetas maravilhosos e com obras lindíssimas, mas….ah! Fernando Pessoa é paixão, encanto, fascinação, distração de que já se passaram quatro, cinco, seis horas e ainda estamos ali, lendo e relendo. Extasiados.
    Como vc mesmo disse, “disfarçando-se” em tantos; ao menos os três que ficaram conhecidos, mas ele era bem mais que três ou quatro. Plural que multiplicava-se .

    Amei o olhar que descreve a humanidade inteira por uma tabacaria. Bem Pessoa !!!

    Poesia, meu Caro, é isso que você fez aqui. Não há rima, não há a sonoridade das palavras que se entrelaçam no final de cada verso( frase), mas há o coração em cada uma delas.

    Isso é poesia !

    Parabéns!

    Sempre, a qualquer hora e por qualquer motivo : Pessoa!

    Lindo e lindo!

    • arleiro disse:

      Cris;
      O melhor de Pessoa é que escreveu em português, pode-se dizer que é o grande salvador da língua portuguesa moderna; o grande crítico Harold Bloom em sua célebre obra (polêmica mas fundamental) “Cânone Ocidental” cita o Pessoa como um dos vinte e seis escritores mais influentes de todos os tempos.
      Eram 79 os heterônimos dele. Só ter criado 79 alter egos já faria de alguém uma sumidade…
      Mas não desmereça o Vinicius, ele tem seu valor… e é infinito enquanto durar.
      Abração, obrigado!

      • Cris disse:

        rsrsrsrsrsrs

        Não vou desmerecer nunca o Poeta Vinicius, mas é que Pessoa é paixão suprema !!!!

        Eu não sabia que eram 79 heterônimos. Coisa louca. Sabia que haviam vários e alguns ainda na incógnita, talvez.
        Lendo blogs e aprendendo…rs
        Fenomenal. Acho que essa é a palavra.
        Um ghost writer dele mesmo sem ter que pagar por isso…rs

        O que vem agora???????? Olavo Bilac é a dica?….rs

        Quanto a frase do meu post, pegue o que quiser. Honra !

  2. NÁDIA CRUZ disse:

    SENSACIONAL!!!
    Conseguir unir esses dois poetas tão diferentes, e fazer esse lindo post, só podia ser coisa sua…
    Sem maiores comentários…simplesmente AMEI!!!
    Um dia conto pra vc, a minha estória com Vinícius de Morais com ele já morto…
    Abração!
    Nádia

  3. “Para ser grande, sê inteiro: nada
    Teu exagera ou exclui.
    Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
    No mínimo que fazes.
    Assim em cada lago a lua toda
    Brilha, porque alta vive”

    Leio essa poesia todos os dias ao voltar pra casa, pois está reproduzida em uma das paredes da estação de metrô…enalteço quem teve a agradável idéia de divulgar trechos de tão lindas poesias assim pra toda e qqer pessoa que não se importe em deixar de lado a correria de SP por alguns segundos para admirar palavras de grandes poetas.

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