Solidão, Clarice?

    Estou só. Ou melhor, não sei. O que é estar só? Nesta era de comunicações tão fáceis, meus bons amigos e amigas (são poucos, mas tão preciosos!) estão ao alcance de alguns botões. É difícil sentir-se só quando se possui amigos tão verdadeiros e duas ou três garrafas de vinho para repartir com eles de vez em quando. Eu estaria mais só em uma cerimônia protocolar com duzentas pessoas que me cumprimentassem de modo amável mas indiferente.

    Clarice, a Lispector, essa mesma, salta das linhas solitárias e sufocantes de A Hora da Estrela com um brado: “Minha força está na solidão”. Bom, Clarice, nem sempre minha força está na solidão. Ás vezes a  solidão é que de mim se alimenta. E aí quando sou forte, não sou forte por ela, sou apesar dela. Mas teu manifesto até que pode me servir, porque há um outro tipo de solidão…

    … é que há um outro tipo de solidão, e dessa as pessoas me questionam com estranheza. Porque é tão estranho um homem maduro e solteiro que não sai loucamente à caça? Uma amiga me olha de um modo desconfiado e profere: “ah, não acredito, um homem não fica sem mulher”. Minha cara, mesmo sabendo que vocês tem um patamar mais elevado de sensibilidade, nem todos os homens são animais previsíveis, tão simples assim. 

 (acho que em três meses, nunca escrevi nada tão explicitamente pessoal, mesmo sabendo que um blog tem estas inerências, e mesmo que ler minha alma não seja difícil nas aparentes neutralidades aqui expostas. Isso nunca foi o objetivo. É menos perigoso falar em literatura ou cinema, mas às vezes é inevitável, então OK).

    Vivi coisas muito intensas, mais do que imaginava viver. Tive relacionamentos de corpo e alma, de entregas, realizações e sofrimentos. Senti rasgar-me o peito algumas vezes, contraí algumas dores pouco toleráveis e persistentes, mas também conquistei plenitudes imprevistas e momentos de romantismo muito além do banal, situações que consolidam uma personalidade, deslizes que até hoje não perdôo e atitudes das quais ainda guardo orgulho. Amei algumas vezes, amei muito e plenamente, e fui amado até bem mais que pretendia. Tive história, com direito adquirido ao grifo. Não é ainda TODA a minha história, não me permito a morte em vida (penso que o melhor ainda está por vir, por exemplo), mas tive o suficiente para não caber mais em alguns estereótipos. Aprendi a evitar a mornidão, ou talvez ela sempre tenha me evitado.

    Depois disso tudo, é como se nunca mais “solidão” viesse a ser a mesma coisa. Não “estar com uma mulher” já não significa mais “estar sozinho” do modo dolorido que era antes. Solidão costumava ser sinônimo de ansiedade, de angústia, desassosego. Medo. Medo de não viver, medo de passar ao largo. Mas nada mais é como foi, nem mesmo a solidão. Que tem você a dizer sobre isso, Clarice? “Fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa”,

    Obrigado, Clarice. Essa solidão, então você sabe, é uma estação de espera: é um castelo de torreões e amuradas com portais escancarados. Essa solidão não é princesa acorrentada a esperar o seu libertador, é farta mesa posta com cuidado à espera dos convivas. Não é um dia cinzento no verão, é uma lareira não acesa no inverno.

     “A maior solidão é a do ser que não ama”, escreveu Vinícius de Moraes,  (porque ele me conta alguns segredos… amanhã publico um post sobre ele). E o cubano Pablo Milanés, numa declaração de amor por Yolanda, parece concordar, pois ao amá-la “a minha solidão se sente acompanhada”.  Tendo passado a limpo minha própria história, hei de concordar… quem ama nunca está só; e por este ponto de vista tenho de admitir estar só. Mas não angustiantemente só… se na continuação, Vinícius diz “o maior solitário é o que tem medo de amar”, percebo que este medo eu não possuo, que não é questão de se estar fechado e indevassavelmente protegido, pelo contrário: é estar de portas abertas, mas sem estar em permanente vigia à frente delas.

    Você mesma, Clarice, em Um Sopro de Vida, apequena-se diante daquele teu brado, dizendo: “faça com que a solidão não me destrua, faça com que minha solidão me sirva de companhia”. Me dá eco aí, humana Lispector: esta solidão que não é vazia, esta solidão lânguida e bem vestida da história de nós mesmos, esta solidão aí é uma boa companhia enquanto a convidada principal não chega.

    …e bem por isso, tu que agora ainda és descalça e muda, tu que ainda és crisálida de nós dois, vem repartir tua solidão aqui comigo!

Anúncios
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , . Guardar link permanente.

10 respostas para Solidão, Clarice?

  1. NÁDIA CRUZ disse:

    Essa sua solidão, é muito bem vinda, pois é quase uma espera pelo quem vem pela frente…
    Estar aberto ao novo, querer viver sentimentos especiais, saber que isso é possível, já é meio caminho andado…
    O medo paraliza, impede que se viva coisas maravilhosas e desafiadoras.Sempre digo, que quando o presente é grande demais, muitas das vezes por incompetência, nem conseguimos desfazer o laço.
    Brilhante!
    Nádia

  2. Cris disse:

    Solidão é ausência de sonhos, de saudade, de lembranças boas.
    Quem tem coisa boa guardada no peito nunca está só e esse estar só fisicamente é uma fase transitória em nossa vida e na maioria das vezes, eu acho, deliciosamente rica e sábia.
    Ninguém é só se um dia cultivou uma lembrança, guarda um ideal, luta por um plano…
    Ninguém é só se vive o agora. O agora é companhia.

    Acho que vc é rico demais para ser só. Riqueza interior é um batalhão de amigos….rs

    Somos mil em um!

    beijo e no agurado de Pessoa….rs

  3. Pollyanna disse:

    Sou leitora de vários blogs e nunca comentei em nenhum. Mas após a leitura de um texto tão brilhante, que descreve exatamente algo que sinto há algum tempo e não sabia como explicar em palavras, não me contive e tive que comentar: parabéns pelos excelentes textos 🙂

    • arleiro disse:

      Pollyanna,
      só posso me sentir especialmente honrado. Obrigado!!
      Pollyanna é um belo nome… lembra minha infância, quando li o livro da Eleanor Porter. Por mais singelo que seja, deixou uma pequena lição que tento não esquecer. Quem sabe ainda mereça um post aqui.
      Abração, excelente 2011!

  4. Olá!
    Vim conhecer seu blog através da sua simpática visita ao meu.
    Também gostei muito daqui e, certamente voltarei mais vezes.
    A solidão, na medida certa, é bem vinda e necessária.
    Ela nos permite refletir, sentir falta das pessoas que realmente são importantes nas nossas vidas e nos ajuda a reencontrar o nosso eixo de equilíbrio.

    Gostei muito da sua forma de escrever e seus temas são muito interessantes.

    Um abraço e, aproveitando que estou aqui, feliz 2011!

    Flávia

  5. Fabiane disse:

    Parabéns pelo texto! Lendo-o, lembrei-me da palavra “Solitude”.
    Continue a nos presentear com belas palavras!

    • arleiro disse:

      Fabiane;
      o italiano é uma língua privilegiada, cheia de belas palavras. “Solitude” parece uma coisa gráfica, uma gota de chuva caindo… além dela, gosto muito de “arcobaleno” e “acquatrina”, entre outras…
      Abraço!

  6. Walewska disse:

    Simplesmente adorei o texto…aliás,adorei o blog,e tu me surpreendeste…Parabéns!!Bjs!!

  7. arleiro disse:

    Walewska;
    obrigado, acho que descobrir-se capaz de surpreender é uma das melhores coisas que surgiram deste blog.
    Volte sempre, nem precisa bater na porta!
    Abração.

  8. Greize disse:

    Nossa gostei muito, fico até sem saber o que escrever para uma “biblioteca humana”..rs.Sei o que é solidão, antes gostava, mas hoje não.Antes achava que com alguém nunca sentiria, hoje também aprendi que não.Clarice, Clarice, sempre defendendo a solidão… Solidão dói, mas dói mais ainda ,ficar rodeada de gente que não te traz algo , apenas solidão.Não vou citar autor nenhum, falo por experiência, que é bom estar com pessoas que nos amem e sentir amor, acalma a solidão.Abraços
    Greiziane

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s