Entrelinhas

(…ele está vindo mesmo…)

– Oi, tudo bom?

– Oi, tudo. (hmmm… o nariz é muito grande assim de perto, já estragou tudo…).

– Te vi lá de cima, sabia?

– Ah, é…? (viu primeiro a loira ali da esquerda, mas ela não olhou para você, né? Eu mereço…).

– É. Aliás, se de longe já chama a atenção, de perto é melhor ainda.

– Ah… Ok, obrigada… (e agora, vai falar do cabelo ou do sorriso?)

– Teu cabelo é muito lindo, na boa.

– (foi o cabelo) Legal, obrigada.

– E teu sorriso é uma graça.

– (serviço completo…) Ok.

– Meu nome é Tiago. E o teu?

– (ai, ele fala baixo, que saco) Vívian.

– Muito prazer, Vívian.

(três beijinhos, oh…. o mesmo Bvlgari Black que o Léo usava… ai, meu Deus… ) Hmm.

(…)

(…)

(e agora, ele não vai desempacar? É mudo?)

– Então… normalmente não venho muito aqui, acho muito abafado, muito bodum de cigarro, né…

– É… mas eu até gosto. Nas quintas-feiras, ainda é o melhor lugar para estar nessa cidade (eu poderia estar em casa, fungando sobre fotos velhas ou escrevendo e-mails que não tenho coragem de enviar exceto se estiver bêbada, mas estou aqui porque ao menos assim me forço a uma produção básica que me faz bem, e vou ser admirada o suficiente para levantar a auto-estima, e de repente algo bom me acontece… ).

– Para quem não trabalha no outro dia, uma maravilha.

– Ah, mas nas sextas só tem pirralho por aqui (trabalha cedo, é? que peninha…)

– Nunca vim aqui às sextas.

– Pois é (ele lembra um pouco o idiota do Renan com esse jeito tonto de encarar a gente, putz, não fica me olhando como se eu fosse a última bolachinha do pacote, assim não dá para não te achar um babaca…).

– Você faz o quê?

– Oi? (ah, era só o que me faltava… o que é que faço? faço uns poemas bestas cheios de amargura, faço pavê de chocolate, faço coisas com a boca que você nem imagina, mas não é isso, infelizmente, que você quer saber).

– Trabalha, estuda..?

– As duas coisas… (eu só deixei ele chegar porque era parecido com o Léo, mas esse nariz e esse papinho são a treva, e a Raquel nem para me salvar, ali embasbacada na conversa daquele outro batatinha de camiseta mamãe-tô-forte…)

– Legal.

– A-hã (olha, quer saber, cala a boca e me beija, que é a única coisa que pode te salvar, você nunca vai me surpreender com um comentário divertido como ele fazia, você não vai ter a capacidade de discordar de mim se eu te contar de um livro que estou amando, de lançar argumentos brilhantes para me fazer ficar furiosa numa discussão, de me atender o telefone com carinho se eu estiver chorando às duas da manhã sem saber o porquê…).

– Você está sozinha?

– Com uma amiga (na verdade, estou sozinha desde que nasci, e até com ele eu estive sozinha, mas era uma solidão diferente, a solidão protegida, a solidão acariciada, como se ele fosse um guardião, e não um invasor do meu espaço, ele me deixava livre e presa ao mesmo tempo, e isso me fez amá-lo, e isso aumenta ainda mais a solidão destas noites fúteis, e a náusea que eu sinto em sentir carência de homem, em ter de aceitar o que não chega nem aos pés dele para esquecer um pouco e tocar a vida adiante…).

– Posso te perguntar uma coisa?

– Claro (foi o que ele disse antes de questionar, assim à queima-roupa, o que iria ser da gente quando ele terminasse o curso e fosse embora, e eu muito senhora da minha vida disse que era melhor terminar mais cedo que sofrer mais tarde, e no final das contas terminamos tarde demais para impedir que eu sofresse cedo, e todo o resto…)

–  Essa tua tatuagem, aí no pescoço… o que quer dizer?

– Ah… me desculpe, isso eu não vou te dizer (por acaso acha que estar com o mesmo perfume dele lhe daria o direito ou sequer a capacidade de compreender o que nem eu compreendo, e que essas estrelas aí são a constelação de Escorpião, você que não deve nem saber que as estrelas ficam para cima e a calçada fica para baixo, e que ele me ensinou a olhar estrelas em uma noite bem melhor que essa…).

– É bonita! Posso ver melhor?

– Hmm… (ai meu Deus, esse perfume, porque a memória olfativa é assim tão marcante, tão poderosa… eu fecho os olhos agora, e não é esse tonto que me afasta o cabelo e finge ver minha tattoo, é ele que se achega sem licença, que passa o nó dos dedos na minha pele, que me levanta o queixo firme e delicadamente, é ele quem vem pousando a boca na minha boca, borrando meu batom com o gosto tênue da cerveja, é ele quem agora é só uma língua que escorrega sobre a minha, é ele que eu não vou deixar partir uma vez mais, é ele que esqueceu de me avisar que vai estar em todos os faunos perfumados desta vida, e ao mesmo tempo não vai estar em nenhum outro…).

(hmmmmm)

– Ó menina… você tem um beijo muito gostos… ué, por que você está chorando?

constelação escorpião

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2 respostas para Entrelinhas

  1. Natacha Lamounier disse:

    Maravilhoso! Amei! Me encaixei! Me vi nessa historia..que perfeiçao…que descriçao..exatidao…sofridao…por que hein? por que ele sempre tem que partir?

    • arleiro disse:

      Natacha;
      não são só eles, às vezes elas também partem…
      – mas a vida da gente é feita de partidas e também de chegadas.
      Muito obrigado pelo teu retorno, é muito bom saber disso! Me faz seguir em frente.
      Abração, feliz 2011.

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