Sobre homens idiotas, mulheres e Machado de Assis

Conversa vai, conversa vem, e as mulheres quase sempre acabam se queixando de que a maioria dos homens é composta por idiotas. Algumas mulheres vão ainda mais longe, em uma generalização genocida: todos os homens são idiotas. Vou ousar corrigir estes anátemas femininos: só os homens atraentes e apaixonantes é que são idiotas. Mas não sou louco de assinar esta correção sozinho, não tenho estatura para isso: peço a ilustre e qualificada chancela de ninguém menos que o nosso representante brasileiro na galeria dos imortais da literatura, o genial Machado de Assis.

    Machado, ainda jovem  (1861), teria escrito “Queda que as Mulheres têm para os Tolos“, um ensaio delicioso, cuja originalidade é discutida (há uma corrente que defende que é na verdade uma tradução literal da obra de um escritor belga chamado Hénaux, embora o texto tenha claramente o seu estilo), mas que é, infelizmente, pouco lido. Sessões e mais sessões de terapia poderiam ser poupadas, toda uma gama de angústias destrutivas evitada, se mais mulheres lessem, ainda que de brincadeira, este “Queda”. É que existe algo atávico, ao qual as mulheres não devem resistir (ou se aceita rindo, tirando sarro de si mesma, ou simplesmente se conforma e se dá de ombros): homens tolos são mais atraentes que os outros.

     Mesmo levando em conta o linguajar oitocentista de Machado, suas irônicas e agudas observações são atuais o suficiente para merecerem citação: “O homem de espírito imagina que para agradar as mulheres é preciso ter qualidades acima do vulgar e se intimida, mas o tolo se acha auto-suficiente, e se reveste de sangue frio e segurança“. Ora, a ignorância preserva o idiota de reconhecer os seus defeitos, e por isso ele se porta como o rei das cocadas brancas, pretas e multicores. E um camarada seguro e confiante, por mais estúpido que seja, tem mais condições de proporcionar momentos emocionantes a uma mulher do que um mal vestido, tímido e hesitante intelectual bem-comportado.“O tolo é um amante sempre contente e tranqüilo” : sim, os idiotas costumam estar sempre de alto astral, e por maior que seja a raiva e a angústia que um tolo deixe como rastro, os momentos de simples alegria e aventura sempre terão aquele apelo que é impossível encontrar em homens mais sensíveis – afinal, a extrema sensibilidade impossibilita alguém de estar sempre alegre e confiante o tempo todo.

   “O tolo, como não é ele quem ama, é ele quem domina.” Dito de outra forma, mais moderna: o fascínio nas relações não é do demandante, mas do demandado. As mulheres vão encontrar muita dificuldade na atração por um homem excessivamente apaixonado, derramado, eternamente disponível: o que atrai é o raro, o difícil de obter – rotineiras declarações de amor de um homem meloso e dedicado tornam-se feijão com arroz, mas um SMS tosco de “tô c saudade” , enviado de uma boate às duas da matina por um homem displicente que deve estar com outra tem um apelo de culinária francesa, fazendo balançar o coração por vários dias.

O tolo está acima das misérias. Não o assusta um futuro prenhe de qualquer inquietação aflitiva. Sempre acobertado pela bandeira da inconstância, desfaz-se de uma amante sem luta, nem remorsos; utiliza uma traição para voar a novas aventuras.” Um homem mais  primitivo, essencial, não tem muitos medos, muitos não-me-toques, e isso é sumamente mais atraente que um gênio nerd que mora com a mamãe. Mas um idiota também não sente medo de romper um compromisso ou das consequências de seus atos de desprezo ou traição. Simplesmente não tem profundidade emocional para que isso faça diferença: “Para ele nada há de terrível em uma separação, porque nunca supõe que se possa colocar a vida numa vida alheia, e que fazendo-se um hábito dessa comunidade de existência, faz-se pouco novamente sofrer, quando ela tiver de quebrar-se.”

    Mas , ao contrário do que pode parecer, Machado (que por vezes é deliciosamente cínico) na verdade não tenta combater o incombatível, e vai concluindo:  “por que não se estudam os tolos,  para conseguir imitá-los?”. O fato é que, ao contrário do que pensam alguns homens com dor de cotovelo,  mulheres não são obrigadas a “aprender” a querer homens de alma mais elevada, menos másculos ou excitantes, para não serem punidas com o “inevitável” sofrimento que um canalha deixa atrás de si. Isto é, na verdade, um veredito machista segundo o qual a culpa pelo sofrimento é da vítima, que a punição seja dela, ponto final.

Talvez fosse o caso de: a) os homens “bons” (e os há, é claro) aprenderem a deixar de lado sua viseira egocêntrica segundo o qual a mulher que não é atraída por eles é burra, aceitando que nos jogos de sedução existem algumas sutis regras biológicas cuja observância básica não implica necessariamente tornar-se um idiota; e b) as mulheres desenvolverem mais sua auto-estima e a auto-ironia, rirem de si mesmas, darem o troco… e, principalmente,  lidarem com sua adoração pelos tolos do mesmo modo com que lidam com sua adoração por chocolate, ou seja:  chocolate pode fazer mal, mas nem por isso há que se comer só ricota e aspargo pela vida afora. E, a propósito, é possível deliciar-se com sobremesas muito saudáveis que tenham apenas uma fina cobertura de chocolate.

   Machado de Assis, particularmente, teve um duradouro e feliz casamento com sua musa Carolina – e consta que, se não era nenhum tolo, Machado era ao menos um homem forte, de ir à luta e enfrentar desafios (a condição de mulato por si só já o obrigava a isso), seu noivado com a branca Carolina sendo um deles. É provável que a conquista do coração de Carolina tenha um pouco da admiração por este comportamento atrevido… então, de tudo isso, vale dizer que esta guerra androgínica de tolos, sábios, burras e descoladas é uma perda de tempo que só complica ainda mais o já complexo universo das relações humanas. À parte homens legais e homens idiotas, talve o mais importante seja o que o saudoso Machado, em outra obra mais tardia, também lembra: “As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos”!!!

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