Cristina

 

    Cristina não queria adormecer. Lutava com as pálpebras pesadas, com o pulsar amiudado de seu sangue, com o mantra hipnotizante que era a respiração dele, profunda e compassada, em seu pescoço.

    Não queria adormecer. Se o fizesse, deslizaria sem controle para o mundo de seus sonhos. Tantas vezes, em sua vida desbotada, fora ali que achara cor, plenitude e segurança. Só que agora, naquele justíssimo instante, seria um mundo esmaecido se comparado àquela cama, àquele quarto, àquela noite. Tudo estava tão perfeito, o coração tão encharcado de ternura e de conforto, que perder esse momento era violência, era abdução, ato de pura crueldade.

     O mundo estava escuro e silencioso, como se o tempo só existisse para os gatos que flanavam nas calçadas lá embaixo. Sentia o cheiro bom de lençóis novos, e o aroma hormonal que exalava da pele dele – cheiro de homem misturado com colônia. Seu nariz estava frio (como sempre, desde a infância), mas esse vértice gelado contrapunha-se ao calor daquele abraço, das ondas confortantes de aconchego que fluíam do edredon, dos pêlos de seu peito em suas costas, das pernas insinuadas entre as suas… sentia ainda a indolência muscular do último espasmo, concentrada sob seus pés e à lateral das panturrilhas. E uma ardência prazerosa logo adentro de seu sexo, não no fundo insensível e distante, mas nas fímbrias e ressaltos onde ele saciara aquela sede inesperada de beijar-lhe até as entranhas.

    O braço dele lhe prendia pela cintura, de um modo tão firme e impositivo, que girar era impossível – mas não que ela o quisesse, pois daquele modo desfrutava das brasas que aqueciam suas nádegas e suas coxas, brasas que emanavam dele, da virilha enfim vencida que adormecera em sua carne. Ainda havia, nas papilas de sua língua, o último resquício de tanino do bom vinho que escolhera com cuidado, e que ele bebera aos borbotões. Seus lábios ainda formigavam, extenuados do contato firme de outra boca, e do arranhar dos pêlos mal crescidos de uma barba descuidada, displicente como ele.

    Esquecido num repeat interminável, o player em sua sala continuava a derramar a trilha sonora que escolhera meticulosamente, e na qual ele mal havia reparado. Ainda havia um eco persistente das palavras e promessas sussurradas nos ouvidos, promessas nas quais a leve embriaguez lhe permitira acreditar. Havia ainda no seu rosto alguns vincos dos sorrisos, das risadas provocadas por tolices que ele havia dito. Havia um alívio constrangido de segredos confessados, e a certeza de que ao menos por uma noite se sentira desejada loucamente.

    Cristina não queria adormecer. Mas não podia mais resistir. Sentia-se traída, seu espírito enganado por seu corpo trapaceiro e egoísta, que queria deglutir de uma só bocada esse instante de felicidade arrancado àquela noite, àquela vida tão mesquinha que amanhã regressaria, vazia e indiferente, esperando em vão que o número dele voltasse a surgir no visor do celular. Seus olhos se fecharam sem controle, uma lágrima de adeus nos cílios fartos.

    E Cristina adormeceu.

Anúncios
Esse post foi publicado em Poemas, contos e crônicas. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Cristina

  1. Cris Animal disse:

    Oi Arlei! Perdi muita coisa aqui. Começando a colocar minha “Leitura Arlei” por um post que…hmmm, digamos um post que chamou minha atenção!
    Cristina….rs

    Vc é exuberante em seus textos. Sabe dizer o que sente sem expor o avesso. Isso faz o simples ter uma elegância linda. Não aquela elegância babaca, futil, arrogante, mas a elegância que só o simples consegue ter, porque conhece o avesso… eo direito!
    Viajei?
    Seu texto é sensual, é faminto, é envolvente, é sedento, é carnal. Fogo que arde!

    Essa Cristina poderia colocar de fundo musical Phil Collins !

    Aproveitando pra dizer que seu comentário “lá em casa” me fez pensar que realmente não temos um ciclo a cumprir; exceto o de vida e morte, mas esse me parece óbvio e sem cerimoniais que nos diferenciem. É pra pensar no que vc escreveu. Como sempre.

    Beijo pra vc!
    Lindo ciclo novo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s