Alquimia

 

    Conheci mulheres com beijos de TERRA. Eram beijos mansos e enlevantes, de certezas e pontualidades. Tais mulheres tem olhos bem abertos e inquisidores. Suas pernas são poderosas, envolventes e inquietas; mas seus braços se submetem e seus lábios se dissolvem. Amam de modo firme, cadenciado e hipnótico. Cobrem com cuidado seus encantos, mas não com tolos pudores de donzela – guardam sempre uma surpresa, um detalhe insinuante e escolhido com cuidado.  Ouvem muito e falam pouco, mas impõem suas verdades na sintaxe econômica dos bem sábios. São amantes de sorrisos e de jóias, de força física e de mãos bem desenhadas. Fazem casas como ninhos, têm prazer em seus detalhes. Têm grandes cílios e pés pequenos. Costumam buscar homens que exalam poder ou segurança, que lhes mimam ou protegem, mas amam de verdade quando encontram os sensíveis, os rebeldes ou os tolos, e quase sempre põem-se em risco, hipotecando suas crenças e futuros nos resgates dessas almas, em relações de desgastante acolhimento.  Mulheres de beijos de Terra precisam de lareiras, de boas conversas e de maternidade. Mulheres de beijos de Terra são belas como antigos quadros a óleo, ou como um pôr do sol entre nuvens rarefeitas.

 

    Conheci mulheres que tinham olhos de FOGO. Esses olhos não se perdiam, não recuavam ou traíam. Tais mulheres gostam de abrir os seus próprios caminhos, mostrando cicatrizes com orgulho e vaidade. Querem sempre um algo mais. Suas vontades não são meros caprichos, mas desejos com razões e justificativas.  Seu beijo é bem preciso, de uma firmeza delicada. Não se entregam como presas subjugadas, mas como companheiras de aventura. Não fazem questão de produções no dia-a-dia, de batons ou saltos altos vespertinos – são sacerdotisas de prioridades, de escolhas e de riscos. Mas à noite, vestem-se como feiticeiras, de vestidos arrojados, cintas-liga e corseletes, buscam sempre o que é sensual e impactante, o que lhes põe o feminino a descoberto, e o excitante à flor da pele.  Desprezam os homens mais bonitos ou agressivos. Costumam buscar, de um modo pragmático e conveniente, homens comuns e descoloridos, que toleram e apóiam sua alma inquieta – mas amam de verdade (quando perdem seus controles, seus planos e croquis) aos homens extraordinários, os charmosos e os talentosos, aqueles que as diminuem e com quem competirão por toda a vida, ou por toda a breve vida desses romances quase sempre destinados a explosões e turbulências. Mulheres de olhos de Fogo precisam de provocações, de flores e de uma doce maledicência. Mulheres de olhos de Fogo são belas como os trovões de uma orquestra, ou como o mar que fere as pedras de espuma.

 

    Conheci mulheres com sorrisos de ÁGUA. Eram sorrisos misteriosos, sempre feitos de entrelinhas. Mulheres assim tem olhos luminosos, de um brilho vítreo de porcelana. São extrovertidas mas argutas, vêem castelos na penumbra e um caminho entre as pedras. Beijam com ternura de menina, mas explodem em paixões de poucos freios e de remorsos ainda mais escassos. São ansiosas e emotivas, vestem-se em poucas e diáfanas camadas de tecido esvoaçante, sustentam-se em pernas curvilíneas e em lânguidas silhuetas de tentadora sedução. Esgotam-se, exaustas, nos braços de seus amantes para depois buscarem neles sua razão de insaciedade. Amam estrelas e estrofes, cães fiéis e croissants. Trazem um odor onipresente de perfumes ou de cremes.  Abrigam em seu peito os amores de outras eras e os amores de amanhã. Têm seios impositivos, e manhãs de indolência sobre a cama. Gostam do vento e de tulipas, das fases da lua e do tarot. Bebem imoderadamente ou nada bebem. Costumam buscar homens de arte, de música ou política, muito ativos e pouco atingidos pela inconstância. Mas amam de verdade quando encontram lutadores, homens primitivos que forjam seu destino com suor e com rudeza, os carismáticos, os grosseiros e os fortes. Mulheres com sorrisos de Água precisam de firmeza, de ouvintes e de vigiada liberdade. Mulheres com sorrisos de Água são belas como bons filmes em bons cinemas, ou como as flores delicadas do deserto.

 

    Conheci mulheres com silêncios de AR. Eram silêncios eloqüentes, de manhãs e aquarelas. Essas mulheres são profundas e inquietantes, muito neutras e arredias. Suas mãos apóiam queixos, as orelhas ou a fronte. Seu prazer é estar à mesa ou à janela. Seus olhos são distantes e altivos, feito faróis de coisas puras e etéreas. Quando beijam, todo o corpo está nos lábios, quando amam toda a mente está no corpo. Vestem-se sem excessos, com a alma e com os poros recobertos. Amam livros tortos e sonatas retas, o barulho de crianças e as folhas de outono. Abrem arcas do passado, e estendem seus lençóis sobre a mortalha dos poetas. Têm bocas magníficas e cabelos fartos, sonhos amplos e carros pequenos. São mulheres autocríticas, carentes e curiosas. Têm casas com quintais, com terraços ou sacadas, e com gatos andarilhos que se enroscam a seus pés. Costumam buscar homens carinhosos, de boa reputação e de libido controlável. Mas amam de verdade quando encontram homens ardentes, que lhes devassam corpo e alma e nem sempre dão-se em troca, os atrevidos, os românticos e os inquietos. Mulheres com silêncios de Ar precisam de cafés na cama inesperados, de ter seus segredos desvendados e de taças de vinho ao pé do fogo. Mulheres com silêncios de Ar são belas como poemas esquecidos, ou como um lago de águas calmas e profundas.

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6 respostas para Alquimia

  1. Paula disse:

    Lindo DEMAIS esse post!!
    Arrasou!
    Bjão,

  2. Marina disse:

    Alguma inspiração nos elementos dos signos do zodíaco? Sou escorpião (água) e me encaixo perfeitmente nas mulheres água, rs…
    Tudo o que vc escreve é maravilhoso! Obrigada!

  3. Fabiane disse:

    Lindo demais a construção de perfis de mulheres através dos quatro elementos. Parabéns!

  4. arleiro disse:

    Paula, Marina, Fabiane;
    Linda é a fonte de inspiração – mulheres são tão fascinantes e complexas que jamais esgotarão o assunto de nós, homens embasbacados.
    E Marina, se há coincidência é incidental (ou confirma a precisão da opinião…)!
    Na tradição chinesa, há o acréscimo de um quinto elemento, o METAL. Acho que todos nós, homens, poderíamos ser metais embrutecidos frente a vocês.
    Feliz 2011, abração.

  5. giovana o. disse:

    Virei sua seguidora.Pronto.Simples assim.
    Adorei não só este, mas todos os textos que estou descobrindo aos poucos, e que vão me fazendo re-descobrir poesia.Lindo.
    Um 2011 pleno de sentimentos.

  6. Julia Raulino disse:

    Sublime! Nada mais a dizer.

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