Uma porta

   

   Certa vez, houve uma porta.

   Se eu abrisse aquela porta,  seria um visitante inesperado em sua sala. Talvez ela não estranhasse minha presença inopinada, já era um hábito em nossas tardes… mas, ao contrário de outras vezes, eu não tinha nenhum pretexto, nenhuma daquelas banalidades com as quais dissimulava a simples intenção de ouvir sua voz, naquela sala sempre plena da fragrância láctea de seus óleos e seus cremes.

     Se eu abrisse aquela porta, seria para deixar escapar palavras que arranhavam minha garganta,  borbulhando feito um caldo na fervura em seus anseios de fuga. Nada mais seria como antes. Não apenas entre nós, coisa pouca que ainda éramos um ao outro… mas também em minha própria consciência. Seria um mea culpa, a confissão da minha incompetência ao fingir que era feliz e satisfeito com a vida, em cumprir o que esperava-se de mim. 

    Se eu não abrisse aquela porta, é provável que focasse em outras dores para esquecer dessa, que apesar de penetrante era miúda ainda. É certo que haveria várias noites de tristeza, mas no fogo brando da rotina amolecer-se-ia o músculo rijo e dolorido que então pulsava no meu peito. Algum dia eu finalmente a veria com outro homem (uma profecia que retorcia-me o estômago), um outro independente e corajoso que lhe abrisse todas portas. Isso, enfim, mataria de desgosto esse capricho inconveniente.

    Mas abri a porta. Com os gestos impacientes, com o ímpeto aliviado dos decididos, anunciei:  “Preciso falar contigo”. Era um tom solene e angustiado, mas a voz que pretendia ser profunda e carismática vibrou oitava acima, quase um pedido de socorro esganiçado. Ela sorriu um só segundo, não mais que isso, e cerrou os lábios intrigada e temerosa. Fechei a porta atrás de mim, recusando um convite para sentar. Seus grandes olhos me fitavam, e eu em vão buscava neles um sinal para ir adiante. Esses olhos por vezes eram quentes, cor de terra iluminada pelo sol, noutras vezes de um marrom aveludado e transparente – mas naquela tarde de céu acinzentado só me ofereciam duas íris quase negras, fundindo-se às pupilas dilatadas e ansiosas.

     “Eu acho que estou apaixonado por você”. Permiti que as sílabas deslizassem pela língua, sem pensar nem hesitar. O hiato que se seguiu foi um mergulho no escuro, uma fração de eternidade na qual durou todo desejo de um “eu também” que só nasceu naquele instante. Mas tudo o que ela respondeu foi um “Oh!” de conveniente ambigüidade. Quando o silêncio começou a se insinuar, morreram-me as últimas ilusões, e suas cinzas se agruparam em um monólogo impositivo e doloroso, que em mim já aguardava há muito tempo:

    “Então… não posso mais conversar contigo. Não posso mais com essa brincadeira de tentar ser teu amigo, conviver com tuas coisas, teus segredos e teus olhos… gosto tanto dos teus olhos, tu sabias? Mas cada vez que tu olhas para o nada eu me pergunto a quem é que eles procuram… eu ouço quando falas de outros homens… é tortura. Peço que perdoe, e que me entendas. Vou me afastar de ti. Para meu bem. Para o teu bem. Perdoa.”

    Ela nada disse, e isso doeu feito um chicote. Baixara o queixo contra o peito, mirando-me de baixo para cima com aqueles olhos enegrecidos e inexpressivos. Saí, fechando a porta. Pronto, estava feito. De uma certa forma, havia leveza. O peito sangrava como ferida remexida, mas um alívio habitava a hemorragia. Fui à minha própria sala, onde podia permitir que algumas lágrimas lavassem este sangue de amargura e redenção. 

    Um dia se passou, e o mundo agora era de um cinza claro, de uma segura e depressiva mornidade. A tristeza era só ela, divorciada da angústia. Se era ou não mais fácil suportá-la assim sozinha, imaginei que apenas o tempo me diria. Nada mais restava a executar, nenhum recurso a apelar, extinguira-se a possibilidade de um indulto. Abraçava a dor que sobreviesse como o condenado, mãos atadas frente à forca. As horas se passavam, e eu cumpria o que prometera, evitando procurá-la. Mas não era possível evitar a fortuidade…

     Pois ela veio a mim em um momento inevitável de passagem. Não trazia olhos solares, nem os olhos do outro dia, de carvão retinto e úmido. Eram olhos apertados de revolta, de irresignação e de cauteloso enfrentamento. Eu, que deles nada mais esperava, fiquei mudo e defensivo. Mas os olhos não falaram, somente a boca é que espirrou a sua fúria: “Você foi autoritário, foi unilateral, foi injusto e insensível”. Cada um dos adjetivos foi golpeando minha face, tão rápida e inesperadamente que nem pude reagir. Ela deixou que o eco das palavras perdurasse uns dez segundos, e numa brusca mudança de tom, suplicou: “Você precisa escutar o que eu tenho prá dizer”. Agora, era ela quem represava águas turbulentas de consoantes e vogais em atropelo atrás dos olhos amiudados. Sentindo-me num inesperado controle da situação, impus:

    “Na minha sala, em dez minutos”.

    Sem aguardar sua resposta, voltei-me e fui ficar à sua espera. Fechei a porta. Não havia tempo para maiores devaneios, apenas para considerar que desta vez, eu estava do outro lado. Os minutos se passaram, surpreendentemente livres de agonia, livres de um pesar que lhes cabia anteriormente. Então, pressenti que ela chegava. Ouvi seus passos relutantes do outro lado. Senti que hesitava, que media a decisão. Eu bem sabia o que ela sentia, numa empatia agradecida e emocionada. Lentamente, a maçaneta girou num movimento adocicado. Ela entrou com o ímpeto aliviado dos decididos.

    E, desta vez, eram meus olhos que esperavam.

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3 respostas para Uma porta

  1. Fernanda Moraes Catelli disse:

    A história da vida real!
    Gosto disso. Esses mistérios, essa ansiedade que só vai passar no próximo post, são o que tem reforçado a minha vontade de ler.
    Enquanto a continuação não vem, vou terminar o trabalhar de inglês e acabar de Ler Hamlet!
    Bjos

  2. Marina disse:

    quero saber o resto!!!!

    • arleiro disse:

      Marina;
      Hamlet disse “o resto é silêncio…”, mas neste caso (feliz ou infelizmente) não foi… sem dúvida o resto merece ao menos um outro post – na dúvida, não mude de canal 🙂
      Obrigado pelo carinho de teus comentários! Volte sempre!

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