Hamlet, ler ou não ler…

    “Ser ou não ser, eis a questão…” – certamente esta é uma das frases mais populares da história, associada de modo indissolúvel ao teatro e à arte de representar. “To be or not to be” são as palavras iniciais de um monólogo do príncipe Hamlet, na obra homônima de William Shakespeare. Entre nós, brasileiros, Shakespeare infelizmente é conhecido mais pelas falsas citações, quando roubam seu nome para assinar textos de auto-ajuda contemporâneos (vou ser chato, mas para mim é o post mais importante deste blog, por favor LEIAM  –https://polifonias.wordpress.com/2010/11/09/shakespeare-assassinado/ ).
 
    Apesar de suas peças abordarem temas universais e relacionados ao mais profundo do ser humano, Shakespeare foi um autor inglês – e por isso os currículos escolares de literatura o preterem em prol de autores nacionais que jamais teriam a mesma relevância.  Sem querer desmerecer a cultura nacional, este radicalismo é daninho à nossa própria compreensão enquanto seres humanos, além de brasileiros. Machado de Assis, o maior de todos nossos escribas, considerava Shakespeare um patrimônio da humanidade, e não da língua inglesa. Machado disse:  “Um dia, quando não houver mais Grã-Bretanha, quando não houver mais os Estados Unidos, quando pois, não existir mais a língua inglesa, ainda assim, haverá Shakespeare. “
 
    Neste post, quero oferecer um resumo sumaríssimo de Hamlet, a mais célebre (e talvez a mais complexa) peça de Shakespeare.
  

leitura    Mas, em primeiro lugar, devo dizer que gostaria muito que este post estimulasse alguém a ler Shakespeare… e para quem entende inglês, ler no original com a métrica e as rimas com que foi escrito. Deixo minha experiência pessoal: a primeira vez que li Shakespeare, ainda adolescente, achei complicado de ler (é teatro, quase toda a ação tem de ser deduzida do que falam os personagens), muito anacrônico e subjetivo, e joguei para o lado. Mas com o tempo, fui aprendendo a reconhecer o valor do estilo e da originalidade, e hoje sou um de seus milhões de fãs. Ler Shakespeare é como fazer exercícios: é doloroso e extenuante nas primeiras vezes, mas depois torna-se um vício.

    Quanto a Hamlet: a história transcorre no reino da Dinamarca, norte da Europa, no século XII. Hamlet é o nome do príncipe herdeiro do trono, e o principal personagem da trama, um rapaz recém chegado à idade adulta, confuso e cheio de angústias.

    O pai de Hamlet, antigo rei da Dinamarca, morreu de modo inesperado há pouco tempo. Como qualquer filho apegado ao pai, Hamlet sofre a perda… e esse sofrimento é aumentado quando a rainha viúva Gertrudes, sua mãe, casa-se com o tio de Hamlet, Cláudio. O que ele sente por esse casamento é nojo, é revolta. Enxerga no tio um oportunista que usa o casamento para sentar no trono, e na mãe uma mulher frívola que nem esperou esfriar o corpo do pai para encontrar um novo marido.

    Hamlet, está confuso e desnorteado. O amor que sentia pela noiva, Ofélia, está estremecido, porque a atitude da mãe o faz sentir repulsa por todas as mulheres.

Mas a peça começa quando um boato toma conta da guarda do castelo: todas as noites, o fantasma do velho rei arrasta-se gemendo pelas torres.  Hamlet acaba encontrando-se com o espírito do pai e recebe um novo golpe: o fantasma lhe revela que foi assassinado pelo tio de Hamlet, que lhe derramou veneno pelo ouvido enquanto dormia. O fantasma se despede de Hamlet lamentando estar condenado a ser uma alma penada por toda a eternidade, e pedindo que o filho lhe faça vingança.

Obviamente, esse encontro despedaça de vez o coração  de Hamlet. O nojo que vem sentindo da vida e da humanidade aumenta exponencialmente, e nada mais lhe parece importante exceto encontrar uma forma de vingar a morte do pai. Não consegue fazer o que é mais instintivo, meter uma espada no coração do assassino que agora dorme com sua mãe.  Tem dúvidas o tempo inteiro. Atormentado por essa realidade de sangue, morte e falsidade, sua vontade maior é de suicidar-se de uma vez, para não ter de enfrentar a podridão que enxerga na humanidade.

    O famoso trecho “ser ou não ser” é a expressão deste sentimento: Hamlet se pergunta o que é mais nobre: ser (isto é, viver), e ter coragem para enfrentar todos os espinhos e angústias da vida; ou não ser (isto é, morrer), e ter coragem de enfrentar a dor e as conseqüências religiosas de acabar com a própria vida. Ao final das contas, decide encarar a dura tarefa que tem pela frente.

    Ele decide executar um jogo de tortura psicológica com o tio. Para dar início a seu plano, finge estar perdendo a razão: fala coisas sem nexo, arruma brigas tolas, chama a própria noiva (que, coitada, paga o pato e sofre por tabela) de meretriz… e, finalmente, aproveita que está sendo tomado por doido e fala o que lhe vem à veneta, inclusive insinuações veladas contra o tio e a própria mãe.

Aproveita que chega ao castelo uma trupe de teatro, e pede que substituam a peça que iam encenar por uma outra, de sua autoria. Esta nova peça nada mais é do que uma encenação do assassinato do pai: sob os olhos apavorados do tio de Hamlet, um ator faz o papel de um traidor que despeja veneno no ouvido de um rei adormecido. Hamlet  consegue o efeito pretendido: o tio fica apavorado e foge da sala desatinado, sem que a maior parte da corte não entenda bem o porquê. O rei cogita o que fazer com Hamlet, por desconfiar que ele sabe demais.

    Hamlet precipita as coisas ao matar por engano o principal conselheiro do rei – e seu ex-futuro sogro, o pai de Ofélia. Aproveitando-se das implicações deste fato, o rei consegue fazer com que Hamlet seja forçado a partir para a Inglaterra. Mas, não satisfeito, começa a elaborar um plano para matar Hamlet antes que ele ameace seu reinado.

    Contudo, Hamlet não chega até a Inglaterra: escapa das tentativas de assassinato e volta à Dinamarca em uma época de crise, quando o reino vizinho da Noruega ameaça uma invasão.

Ofélia, abatida pela dor de perder o pai e ver o homem que ama rejeitá-la e ofendê-la, enlouquece. Sobe a um salgueiro na margem de um rio, o galho em que está se parte, e ela cai . Sem resistir, ela se deixa morrer afogada. Seu irmão Laertes retorna da França, apenas para enterrá-la. Por ela e pelo pai, Laertes quer vingança e acaba associando-se ao rei Cláudio em um plano sinistro para acabar com a vida de Hamlet:

    Laertes irá desafiar Hamlet para um duelo, e a ponta de sua espada terá veneno para garantir que qualquer ferimento signifique a morte de Hamlet. Como garantia, ainda haverá veneno na taça de vinho de Hamlet.

    O duelo acaba acontecendo, em frente ao rei Cláudio… mas nem tudo sai como previsto: a taça de vinho é bebida não por Hamlet, mas por sua mãe. Hamlet é ferido com a espada envenenada, mas em uma confusão durante a luta há uma troca de espadas e Laertes também é envenenado. Ao perceber que a mãe está morrendo, Hamlet força o tio a beber do próprio veneno… ao final desta cena grotescamente trágica, um Hamlet que concluiu sua vingança morre nos braços do amigo Horácio, e o rei da Noruega invade o castelo.

Hamlet não é “Muito Barulho por Nada”, nem mesmo “Romeu e Julieta“, é uma peça sombria e pesada. Quase todos os personagens principais morrem. É sujeita a muitas interpretações, mas pode-se dizer que fala da angústia de viver, sobre a maldade que habita os corações dos homens e a necessidade inevitável de enfrentá-la até o fim da vida, e finalmente sobre a própria busca por um sentido na vida. É uma senhora história, cheia de grandiosidade e reviravoltas. Além do “ser ou não ser”, outras frases célebres pertencem ao texto de Hamlet, como por exemplo:

“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha vossa vã filosofia.”

“Duvida que as estrelas são chama, duvida do sol e da verdade, mas não duvida deste que vos ama.”

“Eu podia viver confinado dentro de uma casca de noz e ainda assim me sentir o rei do espaço infinito”.

“O resto é silêncio.”

“Nada é bom ou mau, exceto pela força de nosso pensamento.”

    Hamlet é um dos personagens mais explorados de todas as mídias, como um ícone de angústia e de questionamento. Já foi representado, filmado, e até convertido em história em quadrinhos. O que ele sente no decorrer da peça é muito humano, e descontando algumas peculiaridades de uma obra escrita há mais de quatrocentos anos, bem próximo dos questionamentos de qualquer um. O texto, como demonstrado, é cheio de falas inspiradas – o maior mérito de Shakespeare era construir frases memoráveis, o que era obviamente uma necessidade para uma obra que seria muito mais ouvida que lida.

   Pode-se falar muito mais de Hamlet, mas o post ficaria muito longo. Só o que pretendo é aproximar Shakespeare de tantas pessoas quanto possível. Mesmo que nem todos leiam a obra original, acho que captar o que ele realmente acrescentou ao patrimônio da humanidade (e não a auto-ajuda que ele não disse) já dá uma boa bagagem, e isso faria meu esforço valer a pena.

Duvida que as estrelas sejam chama, mas não duvida que Shakespeare possa te engrandecer.

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Uma resposta para Hamlet, ler ou não ler…

  1. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Gostei bastante do post. Graças ao curso de inglês estou lendo Hamlet em sua versão original. E agora ficou mais fácil. Meu exercício diário de leitura de Hamlet ganhou um novo fôlego! Obrigada!
    E, novamente, Feliz Natal. Abraços!

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