Um beijo de Neruda

kiss klimt“Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!”
  

Um beijo pode ser algo tão banal, tão descomplicado, que para as últimas gerações de adolescentes tornou-se questão de aritmética, de quantidade versus oportunidade – uma equação ainda primária e compreensível. Mas seis ou sete bocas diferentes que se provem em uma festa não são exatamente “beijos”, são outra coisa ainda inominada, um gesto que, na omissão da gramática ainda arcaica, rouba um vocábulo mais significativo para se expressar.                      

 
   E estes mesmos adolescentes quantitativamente osculadores acabam, após algum tempo, descobrindo a outra coisa que é um beijo. Cada um terá seu tempo, cada boca amadurece na estação que lhe é propícia. Muito embora se possa continuar, por toda a vida, a tocar bocas alheias desta forma, que é prazerosa e faz muito bem, um belo dia se descobre que há um tipo de contato labial que é distinto, que é pintado com outras tintas e provoca um prazer menos tátil, que aquece e que transcende.
 
beijo
 
    O beijo cozinhado a fogo lento, que é construído pouco a pouco em devaneios, pressentido com o coração em disparada, que é ao mesmo tempo tão desejado quanto temido; o beijo que amadurece lenta e inexoravelmente, o beijo que é adiado e com sabor de água fresca no deserto; esse beijo é das coisas que dividem uma vida entre o “antes” e o “depois”.
 
    Depois de beijar assim, as bocas ficam mais exigentes e seletivas. Jamais irão perder esse desejo que é humano de buscar  bocas alheias num carinho mutuamente delicioso, não deixam de querer uma centelha de prazer sem compromisso, mas nunca mais deixarão de procurar aquele beijo, o beijo que soergue os calcanhares, o beijo que não é bebida energética mas que te dá asas… que não deixa de existir nas despedidas, que ecoa na memória de um modo independente, sem muletas de palavras, de visões ou calendários.
 

    Pablo Neruda, o passional poeta chileno laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, conheceu a cantora lírica Matilde Urrutia quando já estava em seu segundo casamento. A atração não foi explosivamente imediata, mas em um reencontro três anos após já não pôde ser contida. Durante muito tempo foi uma paixão clandestina, furtiva e cheia de meias-concessões – provavelmente pontuada de beijos maduros de espera, de beijos peregrinos: “quantos caminhos até chegar a um beijo”, diz o poeta no verso que abre este post. Realmente, a paixão dos dois chilenos não deve ter sido um mar de rosas, em meio ao exílio político de Neruda, mas não obstante as eventuais desventuras destes amantes, a literatura só tem a agradecer, pois estas renderam a obra “Cem Sonetos de Amor” (que tem uma bela dedicatória para Matilde) e outros poemas de Neruda.

A dissolução do casamento de Neruda, sofrida e demorada, pontou o seu romance. Matilde contaria, mais tarde, como ela e Neruda “casaram-se” na ilha italiana de Capri, em 1952: “Ali Pablo, muito sério, sem nenhum traço de brincadeira, pediu a lua que nos casasse. Contou a ela que não podíamos casar-nos na terra, porém que ela, a musa de todos os poetas enamorados, nos casaria nesse momento e que esse matrimonio respeitaríamos como o mais sagrado.”  Este casamento esotérico de Neruda e Matilde foi realmente seu único laço até 1967, quando casaram-se oficialmente no Chile, e um símbolo perene de sua união, que durou até a morte de Neruda em 1973.

   Já tive alguns destes “beijos de Neruda”, permeados pela espera e fatigados dos caminhos que trilharam para nascer. Tive, aliás, o suficiente para perder um pouco a ânsia pelos outros, mais mundanos. Não é fácil contentar-se com as migalhas, tendo provado de uma farta refeição. A bem da verdade, é claro que existem outros beijos viciantes, como aqueles total e incontrolavelmente explosivos, que se roubam ou são roubados antes que se tenha tempo de hesitar. Mas um “beijo de Neruda” é insuperável. Cada um deles renderia uma história, cada um deles renderia um filme, todos eles são alentos em momentos de amargura.

    Pablo Neruda é o único poeta sul-americano incluído no Cânone Ocidental, a célebre obra de Harold Bloom que pretende apontar os autores mais influentes da literatura do Ocidente, e muito querido no mundo todo, pelos brasileiros em especial. Ler ou ouvir Neruda é prazeroso, pela musicalidade de seus versos, ainda mais explícita em espanhol, como no poema “Antes de Amar-te”, abaixo:

Antes de amarte amor, nada era mío:
vacilé por las calles y las cosas:
nada contaba ni tenía nombre:
el mundo era del aire que esperaba.
 Yo conocí salones cenicientos,
túneles habitados por la luna,
hangares crueles que se despedían,
preguntas que insistían en la arena.

Todo estaba vacío, muerto y mudo,
caído, abandonado y decaído,
todo era inalienablemente ajeno,

todo era de los otros y de nadie,
hasta que tu belleza y tu pobreza
llenaron el otoñó de regalos.

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3 respostas para Um beijo de Neruda

  1. NADIA CRUZ disse:

    Como beijar é bom!!!
    Aquele beijo que vc tão bem descreve…o esperado, desejado, e que nunca será esquecido…
    Ainda bem, que já vivi isso, e vou continuar vivendo…rsrsr
    Salve Neruda!!!
    Bons beijos, pra todos nós…rsrsrs
    Nádia

  2. Cris disse:

    Beijo é um caso sério… ao som de um bolero….rs
    Acho que o beijo é a permissão, a cumplicidade, a porta aberta para a intimidade, a chance!
    Sei lá, mas o beijo é uma das demonstrações mais íntimas que um casal pode trocar; seja lá onde for dado e, principalmente onde e como for dado. Compartilhado.
    Coisa boa pra caramba!
    Depois de bicho foi a melhor invenção….rsrsrsrs

    Ri da sua equação matemática do beijo! O que importa é que um dia essa garotada realmente vai provar um gosto diferente e só então, irão perceber que nunca haviam antes beijado! Essa é a vantagem de envelhecer… haha

    Pablo Neruda é genial e tem obras maravilhosas. Li “Confesso que vivi” com uma emoção imensa e numa época emocionante.

    Vou saindo com Pessoa! ( o que posso fazer, amo Pessoa….rsrsrsr )

    “Um beijo é mais do que um toque dos lábios

    é um toque de dois corações,

    de duas almas,

    de duas parcelas incandescendo do espírito da vida.”

    Fernando Pessoa

  3. Greize disse:

    Nossa comecei vendo a pintura que amo o Beijo Gustav Klimt e termina com Neruda!!Sem palavras…Mto lindo!Beijos verdadeiros é que o precisamos!!

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